Data-driven, pan-óptico e Psicopolítica
Colocamos dados na internet de maneira ativa e passiva. Não somos obrigados, mas trabalhamos gratuitamente no nosso tempo livre para alimentar a máquina data-driven das grandes empresas. Data-driven: vim da matemática e sou crítico da forma que tomamos decisões somente baseadas em dados. Essa ultra exposição nos coloca em uma forma de controle nova: precisamos nos comportar parecido com os outros. Uma cultura ultra processada de iguais.
Mais uma vez, estou lendo Byung-Chul Han, e esse livro de 2014, Psicopolítica resgata até mesmo críticas ao iluminismo de Kant. Mostra também como Nietzsche já considerava esquisito o uso da estatística como forma de previsão do futuro da sociedade.
Ele começa com a discussão conhecida dele: as pessoas cada vez mais separadas, sozinhas, em um tipo de religião que desconsidera os fatores de grupo, de comunidade: o empreendedor de si mesmo. A vida com metas e resultados, sempre com algum propósito, um objetivo, uma meta. Mas isso é incoerente com a verdadeira liberdade:
O sujeito neoliberal como empreendedor de si mesmo é incapaz de se relacionar livre de qualquer propósito. Entre empreendedores não surge amizade desinteressada. Contudo, ser livre significa originalmente estar com amigos. Liberdade (Freiheit) e amigo (Freund) possuem a mesma raiz indo-europeia. Fundamentalmente, a liberdade é uma palavra relacional. Só nos sentimos realmente livres em um relacionamento bem-sucedido, em um feliz «estar junto».

O tema de ser empreendedor de si mesmo é recorrente no livro. Um mecanismo que isola o indivíduo e o torna o único responsável pelo sucesso de suas empreitadas. O efeito Pablo Marçal que vemos hoje em dia.
O pan-óptico em que a gente entra por vontade própria
Esse sujeito isolado, empreendendo sozinho, é um interno perfeito para a prisão pan-óptica:

O pan-óptico é a prisão circular que Jeremy Bentham desenhou há mais de dois séculos: uma torre no centro, celas em volta, todo preso visível o tempo todo e sem saber se está sendo olhado naquele momento. Foucault transformou isso na metáfora da sociedade disciplinar. Han parte daí:
Com fins disciplinares, os internos do pan-óptico benthaminiano eram isolados uns dos outros, de modo que não conversassem. Os internos do pan-óptico digital, por sua vez, comunicam-se intensivamente e expõem-se por vontade própria. Participam assim, ativamente, da construção do pan-óptico digital. A sociedade digital de controle faz uso intensivo da liberdade. Ela só é possível graças à auto revelação e à autoexposição voluntárias. O Grande Irmão digital repassa, por assim dizer, seu trabalho aos internos. Assim, a entrega dos dados não acontece por coação, mas a partir de uma necessidade interna. Aí reside a eficiência do pan-óptico digital.
Todo mundo se expondo para todo mundo. Transparência radical gerando uma vigilância de todos com todos. É interessante ver que, em 2014, ele já tinha mapeado muito bem esse mecanismo que as redes sociais implicam. Ninguém nos obriga, mas é muito difícil você não ter uma participação digital ativa, compartilhando o que você está fazendo, o que você gosta e o que você quer. E ele registra esse poder como silencioso e ainda mais forte:
O poder está precisamente onde não é posto em evidência. Quanto maior é o poder, mais silenciosamente atua. Ele se dá sem ter que apontar ruidosamente para si mesmo.
O poder inteligente se plasma à psique, em vez de discipliná-la e submetê-la a coações e proibições. Não nos impõe nenhum silêncio. Ao contrário, ele nos convida a compartilhar incessantemente, participando, dando opiniões, comunicando necessidades, desejos e preferências, contando sobre nossa própria vida. Esse poder afável é, por assim dizer, mais poderoso do que o repressor. Ele escapa a toda visibilidade. A atual crise da liberdade consiste em estar diante de uma técnica de poder que não rejeita ou oprime a liberdade, mas a explora. A livre escolha é extinta em prol de uma livre seleção entre as ofertas disponíveis.
Lembro do Grande Inquisidor, do Dostoiévski. Com a liberdade vem a vontade de nos entregarmos a um novo senhor, nesse caso invisível, digital, sem comandos disciplinares:
Eu te digo que o homem não tem uma preocupação mais angustiante do que encontrar a quem entregar depressa aquela dádiva da liberdade com que esse ser infeliz nasce. Mas só domina a liberdade dos homens aquele que tranquiliza a sua consciência.
Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov, no capítulo do Grande Inquisidor.
A técnica de poder do regime neoliberal não é proibitiva, protetora ou repressiva, mas prospectiva, permissiva e projetiva. O consumo não se reprime, só se maximiza. É gerada não uma escassez, mas uma abundância, um excesso de positividade. Somos todos compelidos a comunicar e a consumir. O princípio de negatividade, que ainda define o Estado de vigilância de Orwell, cede lugar ao de positividade. As necessidades não são suprimidas, mas estimuladas. Em vez de confissões extorquidas, há exposição voluntária. O smartphone substitui a câmara de tortura. O Grande Irmão tem agora um rosto amável. A eficiência da sua vigilância está em sua amabilidade.

A exposição no pan-óptico do celular é voluntária. Não tem fricção nenhuma. O You Should se torna o You Can, a tese da Sociedade do Cansaço, mas o You Can é mais efetivo: o poder mais silencioso de controle.
A cura como assassinato
Esse poder acaba aparecendo através da exploração da atenção e das emoções. Instrumentalizando até mesmo o que era considerado contracultura, como a meditação, o yoga, a literatura:
A psicopolítica neoliberal inventa formas de exploração cada vez mais refinadas. Inúmeros workshops de gestão pessoal, fins de semana motivacionais, seminários de desenvolvimento pessoal e treinamentos de inteligência emocional prometem a otimização pessoal e o aumento da eficiência sem limites. As pessoas são controladas pela técnica de dominação neoliberal que visa explorar não apenas a jornada de trabalho, mas a pessoa por completo, a atenção total, e até a própria vida. O ser humano é descoberto e tornado objeto de exploração.
[…] Assim, tudo é comparável, mensurável e está sujeito à lógica do mercado. Nenhuma preocupação com a boa vida impulsiona a otimização pessoal.
Não à toa nossas capacidades de gestão exigem que sejamos cada vez mais motivadores dos times (eu me incluo nessa): o storytelling como ferramenta de liderança, a cultura e os modelos mentais das startups.
Uma mudança de paradigma está em andamento no gerenciamento atual de empresas. As emoções se tornam cada vez mais importantes. No lugar do management racional, surge o management emotivo. O manager atual se despede do princípio do agir racional e se parece cada vez mais com um treinador motivacional. A motivação está ligada à emoção. A moção as une. As emoções positivas são o fermento para o aumento da motivação.
Big data e quantified self
O livro parte para uma reflexão pertinente: como os dados massificam as pessoas e tratam todos como internos do pan-óptico (que parece não ter grades). Ele vai chamar esse data-driven de dataísmo:
Dataísmo é niilismo. Ele renuncia inteiramente ao sentido. Dados e números são aditivos, não narrativos. O sentido, ao contrário, baseia-se na narração. Os dados preenchem o vazio do sentido.
[…]
O Quantified Self, autoconhecimento através dos números, é praticado, por exemplo, a partir de uma energia libidinosa. O dataísmo desenvolve características libidinais, chegando a traços pornográficos. Os dataístas copulam com dados. Assim, fala-se entrementes de «datassexuais». Eles seriam «implacavelmente digitais» e considerariam os dados «sexy». O digitus se aproxima do phallus.
A crise da narrativa é outro tópico dos livros do filósofo. A importância da narrativa como forma de unir pessoas e liderar tem sido menos utilizada (e cooptada pelos números). Eu já tinha dito isso na Imersão de 2020, falando de Nassim Taleb e do livrinho que a Marcela escreveu na pandemia:
Os ensinamentos são através das histórias, não através dos números, porcentagens, ganhos, lucros. Não é isso que marca.
A crença na mensurabilidade e na quantificabilidade da vida domina toda a era digital. O quantified self também reverencia essa crença. O corpo é equipado com sensores que registram dados automaticamente. São medidos a temperatura corporal, os níveis de glicose no sangue, a ingestão e o consumo de calorias, os deslocamentos ou os níveis de gordura corporal. Durante a meditação os batimentos cardíacos são medidos.
Tudo acaba sendo quantificado. Eu meço meus batimentos cardíacos, minha dieta, meus exercícios. Sou culpado aqui mais uma vez, como já tinha confessado falando de métricas, OKRs e autoprogramação.
O antigo cuidado de si está ligado às práticas de registro sobre si mesmo. A publicatio sui (Tertuliano) é uma parte essencial do cuidado de si mesmo:
Escrever também era importante na cultura do cuidado de si. Uma de suas características mais significativas implicava tomar notas sobre si mesmo que precisavam ser relidas, escrever tratados ou cartas para amigos para ajudá-los e carregar cadernos com o intuito de reativar para si mesmo as verdades necessárias.
Bem. Esse blog, minhas notas, meu second brain, as citações que venho resgatando… são uma forma de cuidado. Tenho registrado mais, refletido mais. Tentado quebrar essa força de fazer tudo orientado a resultados… mas continuo expondo tudo no pan-óptico:
Como sujeito que expõe e supervisiona a si próprio, ele carrega consigo um pan-óptico no qual é, de uma só vez, o guarda e o interno. O sujeito digitalizado e conectado é um pan-óptico de si mesmo. Dessa maneira, o monitoramento é delegado a todos os indivíduos.
A estatística, a média e o singular
Han vai criticar o movimento iluminista, que começa com toda a quantificação do social e do econômico, reduzindo comportamentos e pessoas à média, ao medíocre, eu diria:
Logo, Kant remete à estatística:
Porque a livre vontade dos homens tem tanta influência sobre os casamentos, os nascimentos que daí advêm e a morte, eles não parecem estar submetidos a nenhuma regra segundo a qual se possa de antemão calcular seu número. E, no entanto, as estatísticas anuais dos grandes países demonstram que eles acontecem de acordo com leis naturais constantes, do mesmo modo que as inconstantes variações atmosféricas, que não podem ser determinadas de maneira particular com antecedência, no seu todo não deixam, todavia, de manter o crescimento das plantas, o fluxo dos rios e outras formações naturais num curso uniforme e ininterrupto. Os homens, enquanto indivíduos, e mesmo povos inteiros mal se dão conta de que, enquanto perseguem propósitos particulares, cada qual buscando seu próprio proveito e frequentemente uns contra os outros, seguem inadvertidamente, como a um fio condutor, o propósito da natureza, que lhes é desconhecido, e trabalham para sua realização.
Nossa cultura, do nosso país, está dentro da gente e vice-versa. É o princípio hologramático de Edgar Morin: o pequeno está dentro do todo, e o todo dentro do pequeno.
A euforia atual em torno dos big data é muito parecida com aquela em torno da estatística do século XVIII, que, porém, diminuiu rapidamente. A estatística corresponde, com efeito, aos big data da época. Logo surgiu uma resistência contra ela, especialmente por parte do Romantismo. A abominação da média e da normalidade é o afeto fundamental desse movimento. […] O Romantismo cultivou o peculiar, o anormal e o extremo contra a normalidade estatística.
O Romantismo fez um contramovimento. Sinto que estamos buscando algo da mesma forma: escapar da mediocridade, do comportamento mapeado. Precisamos fugir da uniformidade. Precisamos da diversidade em todos os aspectos. Ele faz uma citação a Nietzsche (que me soa elitista, mas o ponto é nítido):
A estatística prova que existem leis na história. Ela prova inclusive a vulgar e repugnante uniformidade da massa. Por que não vão praticar a estatística em Atenas?! Vocês sentiriam logo a diferença! Quanto mais a massa é vil e indiferenciada, mais a lei da estatística é rigorosa. Mas logo que a multidão é de uma liga metálica mais fina e mais nobre, a lei vai para o diabo. E exatamente nos píncaros, no mundo dos grandes espíritos, vocês não podem mais contar: por exemplo, com que idade os grandes artistas se casam? Abandonem toda a esperança, vocês que procuram aqui uma lei! Assim, ainda que existam leis na história, elas não têm nenhum valor, não mais do que a própria história, quer dizer, aquilo que aconteceu.
A estatística não leva em consideração «os grandes personagens que atuam no palco da história, mas apenas os figurantes».
Para termos IA, big data e estatística precisamos da pornografia dos dados e informações. Precisamos de transparência total. Essa visibilidade extrema, com todos olhando para todos, sem o oculto, sem o escondido, cria a impossibilidade de divergência (ou mecanismos de polarizações simplistas):
Para Nietzsche, os números estatísticos provam apenas que o homem é um animal gregário, que «os seres humanos crescem tornando-se iguais». Esse tornar-se iguais também caracteriza a atual sociedade da transparência e da informação. Se tudo tem que ser imediatamente visível, divergências são quase impossíveis. Da transparência surge uma pressão por conformidade que elimina o outro, o estranho, o desviante.
[…]
Eles são completamente cegos ao acontecimento. Não é o estatisticamente provável, mas o improvável, o singular, o acontecimento que determinará a história, o futuro humano. Por isso, os big data também são cegos ao futuro.

O improvável. O singular. O cisne negro do Taleb. Não mapeados pela estatística, pelos dados, pela IA. Decidir por si, fora do padrão esperado (que é imposto!), sem terceirizar as decisões.
A arte de viver e o idiota
Com Foucault, a arte de viver pode ser concebida como uma prática de liberdade que produz uma forma de vida completamente diferente. Ela se realiza como uma despsicologização:
A arte de viver significa matar a psicologia e criar, a partir de si mesmo e de outras individualidades, seres, relações, qualidades que não tenham nome. Se não se consegue isso, essa vida não vale a pena ser vivida.
Profundo. Forte. Criar o novo. “Acredito em tudo o que ainda não foi dito”, do Rilke. O não esperado. A esperança de Arendt, Han e da boa nova.
Ele termina de forma difícil e preciso refletir mais. De alguma forma eu conecto com o misticismo de Simone Weil, de Tolstói e de Rilke. Obviamente porque tenho lido esses recentemente:
O idiota se assemelha ao homo tantum, «que não tem mais nome, embora ele não se confunda com nenhum outro». O plano de imanência, ao qual ele tem acesso, é a matriz da dessubjetivação e da despsicologização. É a negatividade que arranca o sujeito de si mesmo e o liberta na «imensidão do tempo vazio». O idiota não é um sujeito, é «antes uma existência em flor: simples abertura à luz».

Citados neste texto: Byung-Chul Han · Psicopolítica · Friedrich Nietzsche · Edgar Morin · Pensamento hologramático · Nassim Taleb · Simone Weil · Liev Tolstói · Rainer Maria Rilke · Hannah Arendt · Fiódor Dostoiévski · Os Irmãos Karamázov
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