Byung-Chul Han, Hiperestímulos e Autoprogramação

Tenho sido muito impacto pela aceleração social do tempo e esse mecanismo da sociedade do desempenho, do cansaço, do Byung-Chul Han. Esse fenômeno aparece obviamente no mundo corporativo, onde nos afundamos em métricas, OKRs e processos repetitivos. Mas ele engole a nossa vida pessoal: está no seu Apple Watch. No seu Garmin, na sua balança digital, no seu habit tracker. No Duolingo.

Byung-Chul Han

A gente antes media horas, minutos, segundos e passamos a medir milissegundos, batimentos cardíacos, saturação de oxigênio, nível de estresse, que horas a gente dorme, que horas a gente acorda. Eu, inclusive, nessa mesma direção, faço 600 dias que anoto toda a minha alimentação, se eu fiz exercício ou não, se eu comi bem, fiz jejum e por aí vai.

Existe essa sensação de que estamos sempre sem tempo, sendo que a verdade é que ocupamos nosso tempo com estímulos. Há hiperestímulos por todos os lados, inclusive o do vibe coding, que causa o brain fry. A gente não consegue mais aceitar o tempo de tédio, sendo que tudo indica ele ser fundamental para as ideias decantarem e ganharem mais liga.

É um mecanismo de controle de desempenho muito complexo. Eu acredito que um pouco disso vem dessa nossa cabeça “mecânica”, autômata, da computação. Vem de eu ter programado bastante e querer viver com previsibilidade dos próximos acontecimentos, com encadeamentos if/else… e tomara que o script não caia em um corner case não vislumbrado!

Eu costumo “me programar” frequentemente, pensando em todos os casos possíveis e caminhos da árvore de possibilidades. Mas a complexidade ciclomática do mundo corporativo é intangível, e na vida pessoal mais ainda. Quem escreve programas, quem constrói software, está sendo treinado em overthinking desde cedo… e acaba transpassando para o modo de viver.

Isso tem uma ligação com o que Byung-Chul Han traz naquele monte de importantes livrinhos, que já discuti no Hipsters 444: a falta de rituais, a falta do silêncio, a busca incansável por performance em todos os aspectos. Deixa a gente buscando ser produtivo, consumindo, “fazendo” algo o tempo todo. Como se fossemos máquinas.

É curioso que eu pensei em escrever esse post por um simples fato: atualmente, chegando perto dos 50 anos, eu tenho uma bolsinha de remédios, aquelas que tem 7 dias da semana. É interessante sentir a frequência alucinante com que eu preciso parar para reabastecer cada um dos pequenos gomos.

A caixinha de remédios com os 7 dias da semana

A vida e a biologia não respeitam o sprint de 7 dias dessas caixinhas.

Uma década atrás viralizou o poster indicando quantas semanas de vida nós temos. Para tentar te conscientizar sobre a velocidade do tempo e da vida.

Your Life in Weeks

Se olharmos a vida como separação de semanas, caímos no problema de atomização. Não melhora a nossa situação. Acaba nos pressionando a autoprogramar nossa vida em bloquinhos. Não se iluda: cada quadradinho aí está te colocando uma sprint pessoal.

Ao mesmo tempo que eu tenho essa programação atomizada de pequenos intervalos e dados sobre tudo, eu sinto essa necessidade clara do pensamento a longo prazo, de décadas ou mesmo sobre séculos. E há projetos, pessoas e filósofos clamando por atenção para esses sintomas.

Enquanto criamos projetos com OKRs mensais e sprints semanais, engolindo uma pílula por dia, alguns projetos nascem com longo prazo. O Clock of the Long Now é um relógio que estão construindo dentro de uma montanha no Texas para durar 10 mil anos. E ele não tem data de lançamento. Um projeto colossal, inteiramente mecânico, com sincronização solar, feito para lembrar que precisamos pensar também nos ciclos longos.

O relógio de 10 mil anos, dentro da montanha no Texas

Curiosamente o projeto é patrocinado por fundadores de big tech que fazem parte de toda essa aceleração. Não está fácil.

Conheci o Long Now numa palestra em São Paulo do Roman Krznaric, o autor de O Bom Antepassado, onde ele argumenta da necessidade de pensarmos pelo menos por um horizonte de 250 anos. 250 anos cobre a vida desde o nascimento dos seus avós até o fim da vida dos seus netos. É uma janela que merece atenção.

O Cortázar já sabia. No Preâmbulo às Instruções para Dar Corda no Relógio, que recitei no podcast de fim de ano de 2021: não nos dão um relógio, somos nós que somos dados para o relógio. Se nos entregarmos ao Apple Watch, acabamos sendo autoprogramados por ele. Precisamos dominar a tecnologia para não sermos dominados por ela.

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