Feeds, Brain Fry e Vibe Coding
No mundo tech, cada um costuma ter o seu próprio vício em algum mecanismo de tela, feed de notícias ou rede social. Escolhemos ser constantemente bombardeando com estímulos. Isso não é novidade e as críticas são bem conhecidas e até cansativas.
O meu caso particular era o Instagram, mas também já foi o Twitter (voltei recentemente) e para alguns entendo que seja o LinkedIn. Os algoritmos de feed estão toda hora buscando a forma de nos manter atentos, seja através de gatos fofinhos, violência, raiva, inveja, consternação, ou o famoso sentimento de que precisamos corrigir a opinião de outra pessoa.

A partir do momento que comecei a usar apenas Instagram via web, onde a UX não é tão viciante quanto no smartphone, especialmente porque o doom scrolling não acontece da mesma forma, depois de uns 20 dias minha cabeça começou a se ordenar melhor.
O problema não é necessariamente redes sociais ou tela. Minha geração cresceu na tela, no videogame, na televisão e no computador programando, e não gerava esses problemas de ansiedade como hoje. O volume de informação, conteúdo novo para ser explorado e estímulos é certamente a pior parte.
Eu cheguei àquele cúmulo de buscar sobre meditação no Instagram. E, quando quis sair, todo mundo tem a frase “mas também tem coisa boa nesta ou naquela rede social”. É verdade, e é isso que dificulta largar o vício.
Brain Rot e Brain Fry
Redes sociais, Reels e Vibe Coding têm algo em comum. Alguns geram essa nossa experiência de Brain Rot e outros, que em teoria trazem resultados positivos, podem acarretar no novo Brain Fry. O mecanismo de recompensa é acelerado, fazendo com que a gente busque mais um terminal, mais um prompt.
De um lado, rolar um feed de Reels, que sabe exatamente o que te mostrar. Do outro lado, algo que parece produtivo, como usar a IA para criar software. Ambos geram um ciclo tão curto de vitória que a sensação entre Rot e Fry é parecida.
Não estou advogando que vibe coding deva ser evitado. É melhor estar no Codex, Claude, Copilot e afins do que rolando vídeos que confundem e fragmentam interesses.
Yearning vs Craving
O artigo do Tao Bojlén fala sobre isso: a diferença entre yearning (anseio) e craving (desejo compulsivo).
No mundo ideal, o trabalho seria guiado por yearning, um desejo profundo de criar algo útil, bonito e certo, com horizonte de tempo longo (software útil!). Mas o que costuma me dominar é o craving, o desejo pelo próximo bug corrigido, pelo próximo problema resolvido, pela próxima dose de dopamina de uma subtarefa completada (algumas meio inúteis, não?). O craving é imediato, focado em alguma unidade discreta, e nunca satisfeito de verdade.
Programar sempre foi viciante, especialmente quando entramos no tal flow. Mas esse mecanismo agêntico está tornando a dopamina tão disponível que fica perigosamente excitante. Esse ciclo rápido de prompt-resposta com um ajudante ansioso atendendo cada capricho é a raiz do problema. Precisamos de intenção no vibe coding, precisamos pensar e escrever antes de agir.
É necessário manter o “vibing” do lado positivo. Em vez de criar milhares de PRs ruins ou subsistemas que quase ninguém vai usar. É um recado para mim mesmo :).
Redes sociais como cigarro
Num futuro próximo, em apenas uma geração, nossos filhos e filhas vão falar: “meu pai usava rede social a qualquer hora, em qualquer lugar”. Da mesma forma como hoje falamos: “nossos pais fumavam três cartuchos de cigarro por dia”.
Não diria que as telas estão no mesmo patamar, mas talvez alguns mecanismos algorítmicos estejam sim, e já há governos e think tanks planejando. Desde a proibição do uso do celular nas escolas a iniciativas que envolvem banir, corretamente, redes sociais para algumas faixas etárias.
O tal do World Happiness Report 2026 tem um capítulo inteiro com o Jonathan Haidt e argumentando como redes sociais estão prejudicando adolescentes em escala suficiente para causar mudanças populacionais.
Ninguém vai voltar para como era na década de 90, mas algo precisa acontecer.
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