SaaS, Excel e Vibe Coding: o Disposable Software
Vibe coders têm anunciado a morte do SaaS. Você pode ver as recentes notícias sobre o caos na bolsa americana, onde as empresas de software como serviço perderam mais de 300 bilhões de dólares de valor em poucos dias.

Empresas como SalesForce, ServiceNow e Microsoft estão vendo as apostas sendo transferidas para as já conhecidas fornecedoras de Inteligência Artificial, além de empresas correlatas (como as de data centers e até mesmo ar condicionado!). Está todo mundo falando sobre IA matar o SaaS.
O que é esse medo?
É a sensação de que as empresas vão passar a usar mais IA para construir, ou até reconstruir, seus sistemas mais utilizados. A ideia de que seu comunicador (Slack, etc), seu ERP (SAP, e outros) e seu CRM (SalesForce, etc) serão, de alguma forma, escritos com IA via técnicas de vibe coding, ou talvez via Lovable e afins. Ou mesmo apenas com a ideia de que no futuro outra técnica possibilite isso.
Será?
Produzindo muito código durante as duas últimas semanas, inclusive mergeando pequenos pull requests nos sistemas da Alura, da StartSe e outros, começo a perceber bastante o que estão afirmando: temos algo como o problema 70/30 citado por Osmani, dizendo que a IA faz 70%, mas os 30% finais exigem expertise e são bem difíceis.
Apesar de estarmos vendo um aumento mais que significativo de apps sendo deploiadas na loja da Apple, a maioria são pequenos brinquedos ou sisteminhas de uso próprio.

O meu próprio exemplo: estou codificando projetos para lidar com as redes sociais, genealogia, investimentos, meus blogs, entre outros. O que há de comum entre eles? Contexto muito específico, dificílimo de serem reutilizados por outras pessoas ou mesmo diferentes times.
Às vezes me parece que estou na verdade criando HelloWorlds vitaminados, utilizando o computador como um todo, em vez de apenas uma linguagem de programação com escopo fechado.
E não é porque a qualidade do código é baixa ou que seja difícil de aprender. É porque a intenção é diferente: estamos muitas vezes pensando em problemas imediatos, e não em criar software de prateleira. O que é bom! Mas é diferente do que fazíamos.
Eu considero essas iniciativas como software descartável. Não sei qual nome vai pegar: disposable software, ephemeral apps, single-purpose apps?
Mas algo está mudando. O próprio Karpathy, que cunhou o termo vibe coding, escreveu no review sobre 2025 que já criou apps inteiras descartáveis só para encontrar um único bug, porque “code is suddenly free, ephemeral, malleable, discardable after single use”.
Quando Ruby on Rails saiu, todo mundo acreditava que o scaffolding e outras abordagens iriam dominar todas as outras aplicações e engolir sistemas novos. Todo mundo correu. Lembra da adoção pelo Twitter e a migração para Scala/JVM depois? Claro, Rails mudou muito, mas é um exemplo de que cada tecnologia acaba tendo seu contexto de uso e seu mercado. Tecnologias anteriores ao Rails continuam existindo, mesmo com abordagens consideradas antigas, menos dinâmicas, etc. Assim como Rails não matou Java, vibe coding não vai matar SaaS — mas vai criar uma categoria nova ao lado.
Agora os ciclos de adoção são mais violentos: haverá muito espaço para esse disposable software, mas ele não vai substituir todos os mecanismos de codificação.
E há um outro sentimento que Sergio capturou bem:
"openclaw ta me lembrando dos tempos de smalltalk na faculdade. aquela nocao de mundo stateful com codigo e dados misturados num grande blob que vai evoluindo" - Sergio de novo fazendo muito sentido.
— Paulo Silveira (@paulo_caelum) February 2, 2026
Quando estou usando o Codex ou Claude Code, boa parte do tempo eu não sinto que estou programando, eu estou mais executando pequenos programas, scripts, mexendo no bash e alimentando dados. Eu estou dando contexto e mexendo em algum tipo de “base de dados”, enquanto mantenho o software vivo e operando. E vira um ciclo muito conectado: dados, código e runtime.
Realmente tem essa mistura de ambiente de criação, execução e contexto, que a gente sentiu na universidade quando tivemos a oportunidade de brincar de SmallTalk. Os ambientes se fundem!
No Excel, no PowerBI, esse mecanismo já é conhecido: criamos dashboards, planilhas e automações que são utilizadas por um tempo e depois jogadas fora. E esse tipo de “business intelligence” tem também essa característica de misturar ambientes de execução, com os dados puros de produção (confesse!) e a própria construção do sisteminha. Tudo misturado. Tudo no vibe.
E sim, Excel sempre foi um candidato a comer softwares específicos, mas também o fenômeno reverso acontecia bastante. O momento agora é diferente. Esses sistemas não tão reutilizáveis vão ganhar espaço em empresas que possuem processos e workflows complexos? Ou ficarão mais dentro de pequenos squads e usos mais particulares? Em qualquer um dos casos, o uso será alto.
10 comentários
Gostei da avaliação! Um ponto de atenção é o acréscimo do público que não tinha noção do desenvolvimento e agora está criando bastante coisas pessoais, acredito que esse é o efeito desse novo mercado que você falou. A pergunta: o que isso irá convergir e se terá essa junção?
Obrigado pelo texto. Eu acredito que essa foi realmente a grande mudança, pequenos softwares de uso pessoal são fáceis de serem criados agora e não programadores irão fazer isso mais e mais. Já sobre essa queda nas empresas de software, que loucura! Nesse vídeo o rapaz diz que há uma visão ingênua de que é só fazer um prompt "crie um Salesforce pra minha empresa" e não pagar a Salesforce. Em seguida ele lista muitas da scomplexidsdes envolvendo manter um software. Coisa que a gente da área já sabe, mas alguns acionistas aparentemente não. O vídeo: https://youtu.be/iG8kjXN550o?si=kw46h25FQchU1MML
Olá, Paulo, empresas de SaaS, como qualquer outra, não são pagas exclusivamente pelo como fazem, mas por compreenderem profundamente o contexto e pela confiança que asseguram. Existe uma "rede" multidisciplinar de pessoas por trás. O software descartável morrerá no primeiro balanço negativo, quando o custo da inconsistência desafiar a sustentabilidade do negócio. Planilhas não substituíram ERP e nenhum ERP substituiu o discernimento humano. IA seria a nova planilha?
Oi Paulo Silveira. Acredito que a discussão (e o medo) não estejam na tanto na forma como SaaS são construídos (meios) mas nos SaaS como interfaces para operações de negócios. O que provocou a mexida na bolsa foi, sobretudo, Anthropic aparecer com com Opus 4.6 no Cowork, o que fez muita gente se perguntar: "Ok, se uma ferramenta com Cowork me perrmite fazer uma série de atividades (financeiro, jurídico etc.), por que ainda continuar pagando SaaS diferentes para cada uma dessas tarefas?" Acredito que é uma discussão pra lá de aberta. Concordo que, como criar software ficou mais acessível, é muito provável que haja proliferação de pequenas aplicações praticamente pessoais (eu também uso para isso, pilhas de scripts Python para resolver pequenos problemas imediatos ultraespecíficos, sem preocupação com engenharia, padrões etc.). O grande ponto de processos e workflows complexos não é tech, IA etc., mas sim "complexidade", que é difícil de criar e com a qual é difícil de trabalhar (exigindo treinamentos e consultorias caras, muitas vezes), o que não vai sair do caminho, independentemente da inovação que criemos, me parece. Se vamos ter algo de enorme generalização e abstração que abarque "tudo", é a grande pergunta.
Excelente visão do panorama atual. Eu faço uma comparação do cenário atual da AI com uma evolução que mudou o conceito de motores e carros: A injeção eletrônica. Ela substituiu o carburador, melhorou o motor em diversos aspectos (economia, eficiencia, menos poluente), porém sua
1 curtidaAlguns pontos que você comentou enquanto você é programador "Enquanto agentes não sinto que estou programando" Acho que programar vai muito além de criar codigo. Quando você criar um sistema de jogo, mesmo que não seja digital, isso é programar. A relação que nós dev temos com
1 curtidaBoa provocação. O mercado adora transformar tendência em histeria… e os SaaS estão levando uma surra na bolsa americana por causa dessa tese. Mas tem nuance aqui. Sobre o risco de substituição por soluções customizadas: Sim, é real. Se antes uma empresa pagava por um CRM https://t.co/dgPKX8BpDW
3 curtidasEstá com o olhar pequeno, não está olhando a fotografia, veja o que evoluiu em 02 anos até o Opus 4.6. Ainda está na v0.1 das possibilidades. Não faz mais sentido ter salesforce, sap, servicenow se você pode construir o seu sistema, com a sua jornada. Se quiser mentoria, to ai.
Excel acaba sendo uma boa analogia. As pessoas criam planilhas bem específicas para resolver o seu problema de imediato, e dificilmente se aplicaria para outras pessoas. Com software, nunca houve essa opção. Quando eu tinha um problema eu buscava uma opção “de prateleira” ou tentava resolver com uma planilha de Excel. Diria que é mais provável ver Planilhas internas dentro das empresas sendo substituídas por “vibe-coded apps” do que sistemas inteiros.
Pra mim a tendência não é de ephemeral apps mas de pessoas criando coisas para um fim muito específico como você citou. Eu particularmente tenho brincando com AI com meu próprio NAS, criando apps pra substituir meu uso de Google Calendar, Google Photos e afins. Ter uma app que atende especificamente o que eu estou buscando e a experiência que sinto falta. A qualidade do código é definitivamente influenciada pela expertise de quem usa, não é apenas criar um bom prompt mas saber quando o código gerado está bem escrito, tem uma boa performance e não faz um monte de coisas desnecessárias.