Vibecoding, Hipsters e Novo Dev
Peter Steinberger, criador do OpenClaw, diz que vibecoding é o que ele faz de madrugada e se arrepende no dia seguinte. Ele diz que faz agentic engineering para a construção (build) de software. No podcast com Lex Fridman ele afirma que você precisa focar na “capacidade de resolver problemas e construir produtos”.
não se vejam mais como “engenheiros de iOS”… vocês precisam mudar sua mentalidade. Vocês são construtores (builders) e podem levar muito do conhecimento de como construir software para novos domínios

Vibecoder, Builder, Novo Dev. Não sei qual será o nome da nossa profissão exatamente, mas a direção tem ficado mais clara.
Em 2016 eu me deparei com um post com o título “Você não é pago para escrever código”. Pois é: há bastante tempo a gente já criticava as métricas de linhas de código produzidas. Com o valor intrínseco de cada linha de código caindo ainda mais, é a hora de entender que nossa profissão tem mesmo um outro objetivo.
E o objetivo é orquestrar toda essa construção. Que não é nada fácil, Fred Brooks há cerca de 50 anos no Mythical Man Month:
A parte mais difícil de construir software é decidir precisamente o que precisa ser construído.
André Fatala me trouxe essa palestra do AWS re:Invent 2025, onde o CTO da AWS Werner Vogels faz importantes analogias. O “Drag and Drop is still coding”. Eu diria que “Vibe coding is still programming”. E o foco no Dev em forma de T (T-Shaped Developer).
“T-shaped developers combine depth with breadth. We can dive deep into a specific product, but will also understand how it fits into a larger system.”

Ele fala de curiosidade: o espírito nerd de desmontar as coisas e tentar entender como funcionam por trás. De pensamento sistêmico: ter uma visão ampla do sistema, entender como as coisas se conectam. Além da necessidade do profissional entender comunicação, ownership e até mesmo ser um polímata, expandindo conhecimento em várias áreas.
E esse é um tema recorrente nas minhas discussões: a exigência de flexibilidade e adaptabilidade. Quantas vezes você não ouviu do seu chefe “você está indo bem, mas precisa se adaptar e aprender uma nova habilidade”. Isso aparece tanto no mundo corporativo moderno quanto no espaço startupeiro.
Desde 2016 eu bato nessa tecla do profissional em T. É um jargão comum para quem está no universo de RH. O conceito apareceu lá atrás, já no século passado: profundidade em uma disciplina, com conhecimento suficiente para colaboração em outras áreas. Na Alura usamos o termo Dev em T como mecanismo de marketing, mas que verdadeiramente representa o que eu acredito. O episódio Hipsters #322 traz bastante sobre o assunto.
Com as LLMs, T-Shaped Dev se torna uma virtude essencial: vai ser difícil se encaixar em um time apenas com conhecimento hiper específico sobre uma API ou plataforma, sem entender tecnicamente do domínio como um todo.
Bill Gates já antecipava isso. Quando leu o livro Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World, escreveu (eu já havia comentado essa conexão na Alura):

“I believe that one of the key reasons Microsoft took off is because we thought more broadly than other startups of that era. We hired not just brilliant coders but people who had real breadth within their field and across domains.”
Mais recentemente, o Martin Fowler publicou um artigo sobre Expert Generalists, onde argumenta que ser generalista é, em si, uma expertise sofisticada. E que essa habilidade ficou ainda mais valiosa com a chegada das LLMs. Eu li esse artigo no Hipsters #510.
Profissional em T tem desafios óbvios, em especial no início da carreira: mesmo antes das LLMs víamos profissionais de tecnologia pulando de plataforma em plataforma, de front para back, de UX para PM, sem tempo suficiente para ganhar uma especialização real. Profissional em T precisa sim de tempo de experiência focado em uma tecnologia antes de ganhar amplitude.
Voltei a ser o host do Hipsters Ponto Tech. São mais de 500 episódios que me formaram como profissional. Eu me defino como professor, programador (voltei a programar!) e podcaster. Quando você tem uma mistura de profissões, é sempre mais difícil ganhar profundidade, mas há uma amplitude maior de capacidades.
O novo dev, a nova geração de dev, vai enfrentar isso. Porque você precisa entender um pouco mais do domínio do negócio da sua empresa, agora que linhas de código simples e tarefas pequenas são completamente automatizadas ou geradas. O novo dev precisa encarar que as fronteiras das profissões de tecnologia e negócios estão diminuindo.
Vibecoding e agentic engineering estão se consolidando como realidade para o Novo Dev. Você precisa se envolver com esses mecanismos hipsters que possibilitam outras formas de abstração ao programarmos máquinas. Não tenha medo dessas mudanças: exerça sua curiosidade.
4 comentários
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o nome disso é engenharia de software
2 curtidas@pedrotpascal Eh minha visão também
Ótimo post! Me incomoda muito ver manchetes como "A IA vai acabar com esses empregos", porque tem um tom muito sensacionalista!Vejo que as IAs (assim como outras tecnologias) são ferramentas, que devem ser usadas me maneira correta para algum objetivo e com isso vai criando novos tipos de profissionais especializados nessas ferramentas.
Gustavo Salles a IA em si é mais potente e aparece de forma mais rapida do que outras ferramentas, entao a transformacao sera feita em intervalo de tempo mais curto. mas sim: a transformacao ocorre parecida com as outras vezes, precisa ter conhecimento dela em niveis de profundidade diferente, não só no raso.
Muito legal Paulo! Falei exatamente sobre amplitude dos profissionais, generalismos e várias outros assuntos no podcast PPTNC que gravei a alguns meses atras, muito legal ver que o Peter Steinberger e você corroboram com o que falei. Caso queira assistir, o link é https://youtu.be/vijeR_GzOU4?si=sTYL8qs1hM2allnC Valeu por compartilhar 👊
Paulo Silveira identifico-me muito com a afirmação do Peter Steinberger de que devemos ser Builders, eu sempre me considerei um. Sempre que alguém me pergunta qual é a minha linguagem de programação a minha resposta é sempre a mesma: Para resolver qual problema? E hoje com desenvolvimento assistido pela IA hoje podemos todos, desde que saibamos resolver problemas, programar em qualquer linguagem. Um dos melhores livros que eu li no inicio da minha carreira foi o Algoritmos e Estruturas de Dados em Java (CS14), embora em Java este livro abriu a minha mente e ajudou-me na abstração que uso no dia-dia, o que me possibilita encontrar um problema, fazer a triagem e decidir qual é a melhor ferramenta (a linguagem de programação, framework, etc) para resolver o problema. Com isto não quero dizer que não devam existir especialistas em alguma linguagem e, hoje mais do que nunca eles são necessários para garantir que os agentes de IA produzam código e nos ajudem a soluções escaláveis e seguras.
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