Leitura noturna para as minhas filhas
Um dos poucos hábitos que eu consegui manter ao longo da educação das minhas filhas é a leitura. À noite, depois da janta, banho e dentes escovados, não necessariamente nessa ordem, eu costumo escolher um livro para ler para elas. Bem, muitas vezes é a continuação de um livro, outras vezes é mais uma história de um título capitulado, onde a mesma personagem participa de diversas aventuras.
Vou deixar a lista dos “melhores” livros no final desse post, agrupados por tipo. Lembrando que quem agrupou isso foi um desses robôs de inteligência artificial. Eu quero dar destaque para alguns formatos e mecanismos de leitura que me agradam bastante.
Imaginativo e participativo
Acho que um ponto interessante é sempre tornar o livro mais participativo. Por exemplo, no livro dos morangos, O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro e o Grande Urso Esfomeado, quando chega o momento em que o ratinho corta a fruta em fatias para comer, eu pego com minha própria mão um pedaço do morango que está no desenho e dou para cada uma das minhas filhas. Vou falando: um pouco para a Olivia, um pouco para a Elisa, um pouco para… e deixo as próprias meninas completarem. Assim elas vão citando pessoas da família, amigos e amigas e rememoram acontecimentos do dia.
Isso quando elas eram bem pequenas. Livros como O Bocejo e Telefone Sem Fio, esses que têm grandes imagens, geram uma brincadeira, quase como se fosse um jogo. Elas também memorizam a ordem dos acontecimentos e imagens, criando ritmo. Quase uma canção de ninar.
Contos populares e contos de fadas
Os outros que me chamam a atenção são os contos populares e de fadas. Pedro Malasartes fez parte da minha infância, meu pai sempre trouxe suas peripécias com bastante força. No final dos contos do Pedro Malasartes, depois da astúcia e da façanha, eu coloco que ele decidiu pegar um pouco do dinheiro que recebeu para comprar brigadeiros e mandar para a rua fulano de tal, número x. Esse endereço é, na verdade, o da moradia delas mesmas! Elas reconhecem imediatamente e percebem o que eu vou falar. Porque eu vou contando: “ele decidiu então comprar brigadeiros e mandar para a rua fulano de tal, número x, para duas crianças muito destemidas que sempre acompanhavam as histórias do Pedro Malasartes”, além de muitas variações dessa. De tal forma que elas percebem quando esse momento da história está chegando e já começam a dar risada. Uma gosta mais, a outra gosta menos. Elas pedem adaptações, às vezes outro tipo de doce ou outro presente a ser enviado pelo Pedro Malasartes.
É interessante ver que a Olivia algumas vezes fica com dó das pessoas que o Pedro Malasartes engana, mesmo que elas, entre aspas, mereçam tal castigo. E alguns desses contos tocam mais a gente, adultos, do que as próprias crianças. Trazem alguns medos e anseios que carregamos e que para elas não são tão pesados assim.
Os quatro livros das Histórias à Brasileira são excelentes. Têm tamanho certo para contar à noite, têm Pedro Malasartes e claramente algumas histórias importadas da tradição ibérica.
Outra sequência de livros de que gosto são os contos dos irmãos Grimm, do Andersen e mesmo alguns do Tolstói, que são um pouco mais duros para algumas crianças. Os contos dos irmãos Grimm, assim como os do Andersen, fazem nós adultos percebermos de onde vem tanta história da Disney e do cinema americano, além de trazer um outro olhar… A Pequena Sereia original foi divertido de ler com elas. Todos esses contos de fadas vão trazer momentos de violência, de crueldade… e também aparecem algumas situações de pré-adolescência, adolescência e puberdade, escritas de forma indireta. Muitas vezes isso chama a nossa atenção e a gente fica preocupado com como as crianças vão capturar. Diz mais sobre nós do que sobre elas.
Desses contos, tem os recontos da Tatiana Belinky. Inclusive O Anão Amarelo, que é considerado um dos primeiros contos de fadas, de onde surge esse termo. Tem Aladim, tem Simbad, cujas aventuras eu cresci ouvindo. No final da história, eu também faço o Simbad enviar presentes para as meninas no endereço delas. Assim como o Pedro Malasartes é peculiar em enganar os poderosos, o Simbad tem histórias em que, no começo e no final de cada uma, ele tem um grande azar e perde tudo. Precisa recuperar todos os seus tesouros e seu reinado, ou simplesmente, por uma ação altruísta, doa boa parte do dinheiro às pessoas e sai novamente a navegar atrás de grandes aventuras. Sempre correndo o risco de perder tudo e nunca mais voltar. Há uma recorrência interessante no capitular do Simbad. O pássaro Roque e os diamantes na carne me foram marcantes.
Sentimentos
Outra categoria de livros são os de sentimentos, como Monstro Rosa, Pássaro Amarelo, O Monstro das Cores, Emocionário e O Livro dos Sentimentos. As crianças realmente têm dificuldade de lidar com as próprias frustrações e sentimentos…
Na vida adulta, conseguimos reconhecer pessoas que não trabalharam também essas frustrações e ainda ficam confusas com o mar de sentimentos que nos atinge em diversas situações cotidianas. A criança precisa poder falar o que está sentindo, nomear emoções, reconhecer as situações. Alguns desses livros são basicamente dicionários. Parecem estupidamente básicos para nós, mas percebo que nossa geração aprendeu muito desses conceitos na marra. É importante para que nós possamos ouvir a criança e reconhecer que é normal o que ela está sentindo, especialmente nos sentimentos com conotação majoritariamente negativa.
Capitulados e o peso da cultura
Para ler parte por parte ficam muito interessantes os livros capitulados, como a Píppi Meialonga e O Pequeno Nicolau. Eles criam um mecanismo gostoso de ler, porque as crianças já estão habituadas com as personagens e cada vez tem uma historinha com começo, meio e fim, mas de alguma forma elas se interconectam.
E claro, à medida que você vai lendo mais para as crianças, percebe o peso da cultura. Se você está lendo esses europeus, alemães, nórdicos ou franceses, vê que a gente está trazendo detalhes do que importa para aquela nação, para aquele povo. Às vezes também trazem uma moral, muitas vezes questionável, que você pode deixar para a criança aprender a considerar, analisar e, esperamos, criticar.
O livro do Tolkien, Sr. Boaventura, também foi interessante, porque não tem muito pé nem cabeça, criando uma dinâmica de mundo de aventura e de universo próprio.
O hábito noturno e o tempo de qualidade
A leitura é um momento em que eu (às vezes) consigo ficar sem a distração das telas, me dedicar um pouco mais à comunicação e percebo que há uma troca grande com as crianças. Elas falam bastante, perguntam, querem se colocar, querem questionar a ação dos personagens. Isso cria uma dinâmica. Confesso que não consigo fazer o mesmo na janta, onde tudo é um pouco mais acelerado e bagunçado.
Espero que algumas dessas indicações possam te ajudar. Tenho tido preferência por autores brasileiros, pra trazer um pouco mais da nossa história como país, como povo, para elas. Mas já li um pouco de tudo. Essa é uma pequena seleção que não faz justiça a todos os livros que lemos. E é certamente um privilégio ter uma biblioteca tão grande. Organizei esses títulos a seguir enquanto fazia a doação de alguns antigos que não lemos mais e que elas também não acham tão interessantes.
Criei também uma página específica com todas as capas, links e detalhes desses livros, caso você queira ver. Também vou adicionar comentários das meninas sobre cada um deles no futuro.
A lista
Agrupamento feito por IA a partir da minha note com a bagunça inteira. 🇧🇷 marca autor brasileiro.
Participativos e de imagens grandes: O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro e o Grande Urso Esfomeado (Don e Audrey Wood), O Bocejo e Telefone Sem Fio (Ilan Brenman e Renato Moriconi 🇧🇷), Vá Embora, Grande Monstro Verde! (Ed Emberley), Bruxa, Bruxa, Venha à Minha Festa (Arden Druce), O Livro Sem Figuras (B.J. Novak), A Fazenda (livro de tocar).
Álbuns ilustrados: Macaco Danado, O Grúfalo e O Filho do Grúfalo (Julia Donaldson), Nhac (Carolina Rabei), Bem Lá no Alto (Susanne Straßer), Pedro Vira Porco-Espinho (Janaína Tokitaka 🇧🇷), Ratinho Manhoso (Tatiana Belinky 🇧🇷), Jacaré, Não (Antônio Prata 🇧🇷), Olivia (Ian Falconer), Uns e Outros (Dipacho), Achados e Perdidos e Presos (Oliver Jeffers), Amoras (Emicida 🇧🇷), Chapeuzinho Amarelo (Chico Buarque 🇧🇷), Pedro e o Lobo (Prokofiev), Poesia da Minha Casa (Ivo Minkovicius 🇧🇷), Os Reis do Parquinho (Joseph Kuefler), A Ilha do Vovô (Benji Davies), Os Convidados da Senhora Olga (Eva Montanari), Os Diferentes (Paula Bossio), Lá e Aqui (Carolina Moreyra e Odilon Moraes 🇧🇷), A Parte que Falta e A Árvore Generosa (Shel Silverstein), A Quatro Mãos (Marilda Castanha 🇧🇷), Marcelo, Marmelo, Martelo (Ruth Rocha 🇧🇷), As Mulheres e os Homens (Equipo Plantel), Malala (Adriana Carranca 🇧🇷).
Sentimentos: Monstro Rosa e Pássaro Amarelo (Olga de Dios), O Monstro das Cores (Anna Llenas), O Livro dos Sentimentos (Todd Parr), Emocionário: Diga o Que Você Sente, Olhe para Mim (Ed Franck).
Contos clássicos: os recontos da Tatiana Belinky 🇧🇷: O Anão Amarelo, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, O Califa Cegonha, Memórias de um Burro, A Conquista da Cidade Sagrada, Os Cisnes Selvagens, O Isqueiro Encantado e O Rouxinol. Simbad, o Marujo (Ana Maria Machado 🇧🇷, e também o reconto do Carlos Heitor Cony 🇧🇷). O Patinho Feio e A Sereiazinha (Andersen).
Contos populares brasileiros: Histórias à Brasileira, quatro volumes (Ana Maria Machado 🇧🇷): Pedro Malasartes e Outras, A Donzela Guerreira e Outras, A Moura Torta e Outras e Pavão Misterioso e Outras. Causos de Pedro Malasartes (Júlio Emílio Braz 🇧🇷).
Capitulados: Píppi Meialonga (Astrid Lindgren), As Férias do Pequeno Nicolau (Goscinny), Sr. Boaventura (Tolkien), O Dedo Mágico e outros do Roald Dahl.
Coletâneas grandes: Irmãos Grimm e os 77 Melhores Contos (um conto por noite), Tolstói, Contos Completos (e mais para os adultos).
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