Markdown, abstrações e o futuro do UX
Linguagens, protocolos e formatos mais simples ganharam popularidade na tecnologia. Do HTML ao Markdown, do SOAP/XML ao REST/JSONL. A história se repete com o vibecoding que estamos fazendo através do Markdown + AI.
Quando Aaron Swartz ajudou a especificar o RSS e Gruber criou o Markdown (com feedback do próprio Swartz), era uma época bastante interessante. A internet ainda descentralizada precisava encontrar um mecanismo para que as pessoas se encontrassem e pudessem consumir o conteúdo umas das outras. Foi o tempo dos RSS readers, que fizeram história e muitas pessoas sentem falta. É a mesma época dos gerenciadores de conteúdo e de bookmarks, como o Delicious e depois o Pocket.
O RSS é quem deu força ao boom do podcast, uma das pouquíssimas mídias ainda descentralizadas, sem grandes muros. Um dos vários motivos do sucesso do iPod. Alguns consideram podcast a primeira nova mídia do século XXI.

Markdown chega num momento em que o HTML e o XHTML eram bastante discutidos. Uma evolução na web precisava de foco nessas especificações. O W3C estava trabalhando a todo vapor, com todo mundo de olho. As tentativas para o lado de uma formatação rigorosa, protocolos detalhados e de big design upfront, falharam miseravelmente.
O XHTML é um grande exemplo. Quando tentaram forçar que o navegador só renderizaria aquele XHTML se estivesse de acordo com inúmeras especificações, o fracasso foi quase imediato. Rapidamente adotou-se uma postura dinâmica para construir um novo padrão de HTML, utilizando aquela forma mágica da web: escreve aí um HTML, se tiver um pouco errado, o navegador dá um jeito. Mark Pilgrim conta essa história com detalhes em How Did We Get Here?, no clássico Dive Into HTML5. As LLMs trabalham bem até com YAMLs bugados… mas quando uma lib vai processar esses arquivos, reclama da formatação, tabs, etc.
Eu me interessei por linguagens de markup desde o HTML e até quando tive que escrever minha dissertação de mestrado no LaTeX. Como muita gente sem background científico, fiquei assustado com a complexidade do LaTeX, mas impressionado com a capacidade de gerar desde PDFs científicos até apresentações de slides. Os mecanismos de templates por trás do LaTeX, construído por Leslie Lamport em cima do TeX de Donald Knuth, eram impressionantes.
Desde a Caelum, e depois na Alura, nós tínhamos os .docs do OpenOffice, onde escrevíamos as apostilas. Migramos para um mecanismo de formatação simples, que demos o nome de Tubaina (aqui um exemplo de uma apostila de Java de 2014 em .afc, e aqui a fonte bruta). Era um formato de markup capenga nosso, mas que facilitava os instrutores comitarem e mergearem mudanças na apostila, numa época pré branches e pull requests. Tenho boas memórias desse projeto, que obviamente foi engolido pelo Markdown.
Se você tem um protocolo, um formato para adotar hoje, tem que pensar que ele precisa ser bom para a adoção no futuro e também no passado! Será que uma máquina de 1970 iria interpretar uma chamada binária gRPC com facilidade? Ou processar um JSONL em COBOL antigo está mais adequado?
Hoje isso vai além. Os formatos simples, interpretados com facilidade tanto por humanos quanto por computadores, têm ganhado cada vez mais espaço. Os MCPs criados pela Anthropic estão sendo complementados com força pelos Skills em Markdown da própria Anthropic. No caso do Pi (motor da OpenClaw e afins), seu criador argumenta fortemente contra o uso do MCP em favor do Markdown puro.

Markdown. Áudio. Command Line Interfaces.
Esse futuro sem telas tem uma aposta forte no áudio. Palavras e tokens de fácil interpretação pelas LLMs vão ganhar ainda mais força, tanto em UX para produtos finais quanto na interface entre máquinas. Computadores conversam e conversarão cada vez mais trocando esses textos anabolizados. No meu dia a dia, eu direciono o Claude Code para criar scripts com CLI e ser verboso na implementação do --help.
Pense no que você tem usado para fazer suas anotações, relatórios e diários. Eu uso um mecanismo de personal knowledge management fortemente baseado em Markdown e YAMLs. Todo o universo de Obsidian também gira em torno deles.
Para o mundo atual, seja para escrever um post de blog ou uma mensagem mais interessante em uma rede social, você precisa entender Markdown. E YAML. E JSONL. E qualquer formato old school que lembre os finados .ini e .properties.
O futuro é dos TXTs.
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