Jardins murados, Tim Berners-Lee e OpenClaw
Sou da época que a web floresceu nos blogs, RSSs, pequenos fóruns phpBB. O GUJ, que tenho páginas antigas aqui no meu museu, é dessa época.
Cada pessoa, cada pequeno grupo, tinha seu “site” no sentido amplo da palavra. Eu tinha meu grupo de devs, página do meu clan de Age of Empires, lista de amigos que faziam mestrado e suas pesquisas. E tudo era acessado por pequenos grupos que tinham interesses em comum.
Com o tempo tudo foi capturado pelos walled gardens: jardins bonitos de conteúdos, porém escondidos em muros de login e senha (Facebook, Twitter, Instagram). Essa dinâmica matou bastante o florescimento de novos ambientes de discussão e pasteurizou formatos de comunicação. Não há muito o que negar.
Os LLMs, em especial os agentes, podem ajudar a inverter um pouco essa dinâmica: a descoberta de conteúdo não fica dependente de um feed controlado por um algoritmo, numa plataforma fechada. Os agentes navegam de forma quase livre, buscando texto, opiniões e skills onde quer que estejam. Mais: pressionam os jardins murados a abrirem um pouco.
É o que pensei quando houve a notícia da abertura do Instagram para os crawlers, como o Google: quem ficar murado não terá visitas de agentes nem de LLMs para treinamentos.
O Tim Berners-Lee tem proposto essa infraestrutura nova (Solid, data wallets, etc) — inclusive defendendo abertamente o fim dos walled gardens nas redes sociais. O Bluesky é um exemplo também, com o AT Protocol.
A gente não precisa esperar esse monte de especificação ser adotado. Hoje já podemos construir ferramentas que os agentes vão conseguir usar as APIs existentes, ou simples crawlers, para ler, e também escrever, seja em qual rede for, ou qual sistema e UX usar.
É interessante ver a Anthropic, que provocou a criação do padrão de MCP, estar se posicionando de maneira mais enfática ao uso de Markdown e Skills. Tem até o artigo do criador do Pi explicando por que prefere essa abordagem de skills.
A longo prazo, agentes fazendo discovery aberto podem tornar irrelevante a pergunta “em qual rede social você está?”.

Inclusive esse é um tema que o pai da Internet, o Tim, fala no seu último livro. E esse livro nós vamos traduzir pela Casa do Código e pela Seiva. E eu gostaria muito de narrar o audiolivro.
Mais: vou criar um pequeno sistema (disposable software, falarei disso em breve) para fazer isso: que eu possa escrever num lugar e propagar em X, Instagram, LinkedIn, Bluesky, etc… e ao mesmo tempo receber os replies num único lugar, no meu OpenClaw, no meu Pi, pouco importa… que fará mais do que um trivial social listening, fará um web listening.
LLMs e agentes podem voltar a fazer florescer o jardins fora do muro :). Quero por a mão na massa com o protocolo AT e esse mecanismo de Personal Data Server, White Wind e outros projetos que estão tentado criar um espaço assim.
Inclusive, se você der reply para mim no X, no Bluesky, ou outra rede onde eu citar esse post (ou se você citar), vou receber uma notificação. Essa notificação me permite fazer o seu comentário aparecer aqui embaixo. (Aliás, já tivemos um primeiro exemplo e funcionou muito bem). Dessa forma eu desvinculo a conversa dos jardins murados e das redes sociais.
Criei esse projeto no vibe coding e em breve quero falar mais do disposable software, o software perecível, efêmero, que a gente acaba gerando dessas formas. E pedi para o agente falar sobre esse trabalho.
12 comentários
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muito bom o texto, Paulo. várias referências excelentes também. sobre o debate, talvez os modelos de linguagem e as ferramentas de automação tenham trazido um fôlego novo a projetos de descentralização que ainda ñ engrenaram (nostr, etc). pode ser o que faltava à promessa da web3
Minha aposta é exatamente essa: podemos aproveitar o momento para ganhar musculatura e voltar a descentralizar a web. E digo mais: não precisa ser super estruturado com protocolos. E seu primeiro reply vai servir de teste para o meu projeto
talvez isto seja a verdadeira materialização da web semântica. é oq sempre se quis com a web semântica, só que agora ao invés de grafos e um protocolo em volta deles, é API + Markdown.
Leandro Proença é isso mesmo. metatags serão apenas dados simples de markdown. nada de XML complexo. os textos sao auto descritivos. e ai, quem for jardim de muro fechado, ficara de fora dessa semanatica toda.
Esse livro do Tim Bernes-Lee eu irei ler! Aguardo a tradução para ler de forma mais fluída. Muito bom saber que essas grandes questões estão sendo pensadas, as vezes nos sentimos tão sozinhos e parece que tudo acabou. Aqueles tempos de neutralidade da rede, de protesto anti SOPA e PIPA, parece que nunca existiram. Obrigado pela sua postagem e boa sorte nesse projeto.
William Antônio Siqueira o projeto é pessoal e descartável, mas ja esta funcionando. jaja o Faisca pega isso aqui e joga la no meu post, pra manter isso pra sempre dentro do meu "Personal Data Server"
Acho que tinha tempo que não linha algo tão interessante, Paulo sempre trazendo luz a tópicos importantes, um sistema unificador não só de publicar mais de receber os comentários seria sensacional.
Diogo Souza Machado Valeu Diogo! E o seu comentario vai aparecer la unificado :)
Paulo, a tua análise infelizmente é uma contradição nos próprios termos : assume que os LLMs que dirigem o comportamento dos agentes são "neutros e livres", o que é obviamente falso. Não obstante, LLMs como se apresentam hoje, dominados por cinco ou seis players globais, cada vez mais se convertem nos novos jardins murados. A tecnologia é hipercentralizada, não ao nível do Google Search nos últimos vinte anos, mas definitivamente longe de ser algo disseminável para descentralização em escala, pela própria barreira do preço do hardware. Acho muito complicado comparar isso com os primórdios da web livre, me parece uma distorção descolada da realidade. A única coisa que o atual hype de AI me mostra é que a era dourada da web, feita de humanos para humanos, quem não viveu não vive mais...
Ubiratan Soares opa, acho que é BEM diferente dos algoritmos de feed: o algoritmo de linkedin que te fez ver esse meu post é completamente fechado e voce tem absolutamente zero controle sobre ele. Voce pode pegar um modelo open source, rodar na sua maquina e customiza-lo, para buscar os dados da forma que voce configurar, seja com skills, seja com fine tuning, seja com RAG, seja com a tecnologia maluca que voce quiser. sim, hoje estamos na mao de poucos fornecedores, mas ha espaco para os open source, os configuraveis e ate mesmo os treinados pela comunidade. fico feliz de estar gerando essa discussao e estar populando meu blog com esses comentarios, funcionando como imaginado :)
Bluesky é um péssimo exemplo, redes sociais completamente federadas que usam o ActivePubSub e não tem restrição de criação de instância funcionam melhor nesse seu cenário, como o Mastodon. Paulo Silveira o problema dos walled gardens e uso de agents é que agora trocamos um gatekeep por outro. Amtes o gatekeeper eram esses cilos de informação que pra você acessar precisa se identificar na portaria (e isso não vai mudar, questão de network effect), quando o agente passa a ser o extrator da informação, ele só funciona se o protocolo for aberto, independente do agente, senão caimos no mesmo problema dos gatekeeps só que o lock não é no conteúdo, é no meio de transporte para esse, dai vem agentes com limitação de uso e teto de ações.... A solução pra internet bem como a civilização no sentido de acesso livre é uma: Pirataria, acesso livre e incondicional, seja ele por meios pacíficos como a wikipedia ou por atividades de clandestinidade mesmo, como o Annas archive fez com o spotify O modelo de propriedades intelectual baseada no acesso saturou. Cabe escolhermos entre matar a propriedade intelectual ou continuar apostando mais alto pra ver até aonde conseguem tirar recursos da gente
Víctor Raton vou refletir. obrigado mesmo pela atenção. nao sei se concordo com as solucoes, mas realmente o problema é complexo. e preciso estudar melhor as federadas e os outros tipos: estou falando de algo que nao tenho conhecimento, apenas animado com o fato de que podemos sair dessa!
Tenho saudades dessa época em que a web era mais customizada. Todo clã ou grupo tinha um blog ao invés de um server no discord e todo mundo tinha um site ao invés de um @ no instagram. Antes, o conteúdo ficava espalhado nas mãos dessas pequenas comunidades, depois dos walled gardens, ficou centralizado na mão de algumas plataformas gigantes. Com certeza isso democratiza o acesso e a criação de conteúdo, mas fica muito difícil de replicar o senso orgânico de comunidade da web antiga.
reflexão super crucial essa, e talvez resolve o problema de geração de conteúdo futuro para as IA's?
Grande Paulo Silveira brigado pela referência. Vou dar atenção nisso.
Ubiratan Soares eu também acho que vai piorar, porque antes a gente vira o muro, e agora vai achar que ele "pesquisou na internet" mas nem sabe o que o agente tá deixando de fora. Nem vai dar pra construir uma reputação. Vai ser osso.
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Paulo Silveira Você como usuário tem zero controle sobre quais dados foram usados para treinar um LLM com pesos open-source, bem como o processo de treinamento em si, treinamento esse dirigido em última instância de acordo com os interesses das mesmas corporações que controlam os algoritmos de recomendação usados em feed e otimizados para a economia de atenção baseada em anúncios...
Obviamente, não faz sentido. Se você tem dados no Xwitter, teus dados serão usados para treinar AI. Nessa mesma rede vale o mesmo. Ambos são walled gardens. Teus dados estarem dentro de tais ecosistemas garante, no menos pior dos cenários, que apenas um subconjunto de players irá utilizá-los, e mesmo com supostos controles de opt-out, isso ainda é muito frágil, dado todo o ecossistema* de data brokers existente hoje ao redor dessas plataformas. Sem contar que os walled gardens podem ser esforçar muito, mas não evitar completamente treinamento baseado em conteúdo publicamente acessível na web, e eventualmente vão recorrer ao poder do monopólio https://blog.google/innovation-and-ai/technology/safety-security/serpapi-lawsuit/
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