Revisitando o Hino Nacional, do Black Mirror
Ouvi o AntiCast sobre o primeiro episódio do Black Mirror, revisitando. Ele se chama “Hino Nacional”, é de 2011. Os convidados conversavam tanto com opinião pessoal quanto fazem um aprofundamento filosófico, sociológico, sobre esse episódio em particular. Eu achei bastante interessante. Foi até um amigo meu, Rafael, que me indicou, porque sabe que muitos dos filósofos citados lá eu li alguma coisa, outros eu nem conhecia.
E, diferente dos participantes, esse é sem dúvida um dos meus episódios favoritos. Ele traz essa mistura do público e privado e como hoje nós forçamos a quebra dessa parede. No episódio, o primeiro-ministro britânico é chantageado para ter uma relação com um porco em TV pública. Fica interessante porque mostra como todo mundo fica fascinado para ver esse acontecimento. Independente da gravidade do assunto, da reação política, a sociedade entra numa hipnose.
E não à toa, durante o podcast, o Guy Debord, da Sociedade do Espetáculo, é um dos citados. E ele que lá na década de 60 já pegou toda essa transformação. Ele tem uma frase sobre como as relações sociais entre as pessoas são mediadas pelas imagens.
Eles citam que filósofos e sociólogos consideram o pós-modernismo essa mudança: antes o privado, que ficava na esfera de alguns psicólogos e filósofos, como Freud, e o público, onde a gente vai ter todo o estudo de capitalismo, socialismo, materialismo, começa a se aproximar. Eles até citam um caso interessante que eu fui pesquisar, de 83, na TV francesa: uma moça chamada Viviane, no Psy Show, que se expõe, contando sua vida íntima na TV para todo mundo. Esse episódio em particular é trazido por diversos filósofos, inclusive pelo Zygmunt Bauman. Ele cunha o termo modernidade líquida. Outros colocam isso como pós-modernidade, não necessariamente com esse fato em específico acontecendo, mas essa época.
E é óbvio que os reality shows, essa nossa curiosidade de ver tudo e saber tudo, esse panóptico que a gente vive, especialmente hoje com mídias sociais, é o ponto onde a gente chega, onde tudo isso caminha, a direção.
E algum dos participantes citou o Byung-Chul Han, em um desses livrinhos que eu gostei também, da Sociedade da Transparência. Tem muito essa relação de a gente precisar mostrar tudo e contar tudo. A partir do momento que nada fica escondido, opaco, tudo está sendo visto, você perde aquilo que a gente idealiza, o mistério, as diferenças.
Um filósofo que não foi citado, que foi um dos primeiros que eu li na vida, e obviamente eu entendi muito pouco, é o Baudrillard, do Simulacros e Simulação, aquele livro que aparece no Matrix. Ele traz esse conceito de hiperrealidade, dos simulacros substituindo o que foi referenciado: o falso se torna real. Ele até coloca a pornografia como exemplo. E o Byung-Chul Han nesse livro tem um capítulo específico sobre isso, sobre o obsceno, que é muito visto, mais visto do que o visível.
O Baudrillard dá o exemplo da Disneylândia, e na minha leitura aquilo até se torna real, se torna padrão. Aqueles quarteirões, aquelas casas, aqueles personagens viram até referência e padrão estético pelo mundo, mais do que a própria realidade anterior. A imagem engole o real.
É curioso que o host do podcast cita que o filho dele gosta muito de assistir gameplay no YouTube. Para mim, esse é outro exemplo do próprio episódio do Black Mirror, dessa nossa fascinação de ver o que está acontecendo com todo mundo. A gente vê a pessoa jogar um jogo que está sendo jogado por outras pessoas, numa referência meta que não termina nunca.
E esse excesso de transparência cai nesse problema da performance, da positividade. A gente precisa sempre estar fazendo e mostrando o nosso melhor, as nossas férias, os nossos esportes, como a gente cuida bem das nossas crianças, o nosso padrão estético, a nossa beleza, os nossos cuidados.
É claramente uma pressão social muito forte. A gente está tão conectado a tanta gente que a gente simplesmente desconhece, que hoje não são mais só os políticos, como o primeiro-ministro da Inglaterra, que estão suscetíveis à opinião pública. O público e o privado estão confusos e tão próximos, as pressões vão para todos os lados.
E com o mecanismo de hoje, de influenciadores atingirem todo mundo, inclusive adolescentes que buscam esse padrão de performance, o público e o privado podem causar ainda mais problemas em uma grande mistura. A gente pode ver isso até mesmo em crianças que performam em ambientes onde não faz sentido elas agirem daquela maneira. Inclusive achamos graça.
Obviamente estamos em uma fase de tentar combater um pouco as redes sociais, o excesso de exposição, que culminam em diversos desses adoecimentos.
Citados neste texto: Black Mirror · AntiCast · Guy Debord · A Sociedade do Espetáculo · Zygmunt Bauman · Byung-Chul Han · Sociedade da Transparência · Jean Baudrillard · Simulacros e Simulação · Matrix