Conselhos, Hobbies e Ravikant
Muitas pessoas me procuram buscando por conselhos, por ideias de hobbies e dúvidas de decisão de carreira. Querem até saber quem “seguir” como modelo. Bem, respondo que você não deve seguir ninguém dessa forma… mas certamente tenho algumas pessoas que acabo gostando muito da forma de pensar, não necessariamente do pensamento ou do que a pessoa representa. Um deles é o Ravikant.
Naval Ravikant é um desses investidores anjo muito conhecidos no Vale do Silício, que certamente fez os primeiros cheques de grandes startups que a gente conhece hoje. Ele tem um estilo direto e conciso de trazer seus pensamentos e opiniões bastante interessante. A verdade é que eu gosto de muita coisa que ele escreve e da forma que ele raciocina, apesar de discordar fortemente de outras.

Naval Ravikant em 2019. Foto: Edmund Hillary Fellowship, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.
Em 2020 ele fez um ask me anything no Twitter que tem alguns dos ensinamentos dele. Alguns bem óbvios, mas interessantes pra você refletir.
Perguntam qual é o erro cognitivo mais comum e perigoso que as pessoas acabam caindo. Ele diz que é querer ser querido, querer ser gostado sempre. Meio psicanalítico e meio óbvio, mas interessante.
Perguntam também a filosofia dele em uma sentença. Ele fala: “stand alone, carry others”. Destaque-se e coloque-se sozinho e ajude outros. Pelo menos é a forma da minha leitura.
Esse aqui eu acho muito interessante. Perguntam o que ele teria feito diferente se pudesse recomeçar a vida. Ele responde: encontrar um hobby que na verdade é um disfarce para treinar. Eu vejo isso no meu hobby da calistenia e da parada de mão, que eu considero muito menos chato do que alguns esportes clássicos. É um treino com cara de hobby. Bastante interessante.
Perguntam sobre felicidade. Ele diz que muitas pessoas, quando dizem que querem felicidade, na verdade o que elas querem é paz, tranquilidade. Boa reflexão.
Como tomar melhores decisões na vida? Com honestidade total consigo mesmo. E às vezes é difícil.
Perguntam se ele tem uma fórmula pra aposentadoria. Ele diz: encontre um trabalho que não pareça ser um sacrifício. Assim você não vai ficar pensando o tempo todo sobre aposentadoria, sobre parar de trabalhar. Acho que pra isso acontecer precisa de um monte de privilégios e até sorte.
Perguntam as sugestões dele pra decidir se deve mudar de trabalho. Ele responde: se você já está pensando sobre isso, provavelmente já está na hora. Isso serve pra muitas questões, não é verdade?
Perguntam os livros favoritos de fantasia e ficção. Ele cita Lord of Light, que eu não conheço, e Snow Crash, aquele meio cyberpunk que eu acho que tem uma moeda digital. Estou pra ler esse. Cita Borges e Ted Chiang, ambos que eu gosto bastante, apesar de eu ter lido poucas histórias.
Perguntam qual romance ele recomenda, o que vem imediatamente na cabeça. Ele responde: Siddhartha. Acho interessante porque esse livro do Hermann Hesse também me marcou. Li jovem, com vinte e pouquíssimos anos. Hoje em dia já encaro ele um pouco de outra forma.

Thich Nhat Hanh. Foto: Duc (pixiduc), CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
Li recentemente O Milagre da Atenção Plena, do monge vietnamita Thich Nhat Hanh, achando que seria fácil. A escrita é fácil mesmo, mas você para o tempo todo. Mesmo ele trazendo exercícios de uma forma simples e direta, evitando ser exaustivo, evitando um volume grande de informações e técnicas, ele exige atenção. Acho curioso que tem um capítulo em que ele cita o Hermann Hesse de forma positiva, mas dando uma cutucada muito gentil, dizendo que Hesse não entendeu direito o que era meditação e o que é o Buda. E não só eu vejo que aqui no Ocidente, especialmente nesse meio do Vale do Silício, onde a moda do altruísmo efetivo e do estoicismo é tão grande, fazemos releituras de filósofos adaptados para as nossas necessidades, subvertidos, para ser sincero.
Por último, perguntam como alguém pode roubar o dinheiro dele. Ele fala: roube as minhas ideias, que elas valem mais. Acho um tanto romântica a frase. Ele tem um livro famoso, o Almanack do Naval Ravikant, que na verdade é um compilado de ideias que uma outra pessoa publicou. Ganhei de presente de um amigo meu, o Alexandre Leão.

The Almanack of Naval Ravikant, compilado por Eric Jorgenson. Imagem: divulgação, navalmanack.com.
E eu cito bastante uma outra reflexão que o Naval faz algumas vezes, sobre conselhos. Ele fala: ouça conselhos de todo mundo e rejeite a maioria absoluta deles. E é verdade. O conselho dado por uma pessoa depende muito do contexto, da história de vida, do momento. Você precisa ter a capacidade de escutar e fazer a crítica para poder separar e ver o que serve para você. Senão é muito fácil, ainda mais em tempos de redes sociais, gurus e ídolos, a gente tentar copiar a fórmula que está na cabeça de uma pessoa e que na verdade só funciona para ela e nunca mais será repetida. Converse com a maior quantidade de pessoas que você admira, mesmo as que não admira, e até conhecidos, amigos e família, mas a última decisão é sua. O Akita gosta de colocar isso como não terceirizar a decisão final da sua vida, da sua carreira. É uma obviedade, mas é interessante ver como a gente está o tempo todo tentando jogar essa nossa liberdade de escolha na mão de outra pessoa (“Eu te digo que o homem não tem uma preocupação mais angustiante do que encontrar a quem entregar depressa aquela dádiva da liberdade com que esse ser infeliz nasce”, frase de Os Irmãos Karamazov que eu gosto de citar).
Citados neste texto: Fabio Akita · Fiódor Dostoiévski · Hermann Hesse · Jorge Luis Borges · Lord of Light · Naval Ravikant · O Milagre da Atenção Plena · Os Irmãos Karamázov · Sidarta · Snow Crash · Ted Chiang · Thich Nhat Hanh · Twitter