Agentes, daemons e os solarianos de Asimov
Depois de um tempo usando o OpenClaw, o Claude Code, o Codex via Telegram e WhatsApp, e quando você encontra outras pessoas que também usam, você percebe que a interação entre elas vai ser diferente. Vocês vão trocar documentos, informações, contatos através dos agentes. Mais do que isso: eles vão trocar entre si, sabendo as permissões que têm.
Porque vai ser útil. Uma simples compra de uma viagem: você precisa do documento de alguém da sua família, o CPF ou mesmo uma foto do documento. E para que mandar mensagem para a pessoa pedir por e-mail, ou mesmo ter um Google Drive compartilhado, sendo que no momento exato que você precisar daquilo o seu agente enviará uma mensagem para o agente do seu irmão pedindo aquela informação? Passando pelos mecanismos de segurança, ele vai receber imediatamente.
O Daniel Miessler chama isso de Daemon: uma API pessoal. Cada pessoa teria seu daemon, cada empresa, cada objeto.

Então isso vai começar a acontecer de uma maneira muito forte: a integração de todos os dados. Seus dados médicos, bancários, seus dados do governo, seu agente tendo acesso a isso. Outras pessoas conectadas ao seu agente podem utilizar essas informações sem ter que te ocupar, sem que você tenha que parar para procurar aquela informação. E talvez você nem saiba onde esteja, qual é a senha, ou tenha perdido.
É isso que eu já estou fazendo, de certa forma. Construí um PKM que captura meus áudios e pensamentos via Telegram, transcreve, classifica e organiza num vault. Criei o Ceres para ouvir e falar nas redes sociais. E já falei sobre como os agentes pressionam os jardins murados a abrir.
Se você for pensar, eu já tenho meio que três rodando. Tenho o PKM que vai para o paulo.com.br. Tenho o Hipsters Builders, onde vou colocando notícias e signals do grupo. E tem um também que fica no Stromae, um projeto paralelo, que captura até do WhatsApp via uma API chamada Baileys.
Então de alguma maneira tem vários agentes, cada um escutando algumas coisas. Alguns deles passivos, outros reagindo. E eles estão normalmente escrevendo e lendo de Knowledge Management Systems, os vaults. Eu acho que cada filósofo, cada cientista de computação tem dado nomes diferentes dessas coisas. E eu acredito que cada agente deve ser independente um do outro. E cada vault deve ser independente. Essas coisas não vão ter um formato único.
O Karpathy descreveu recentemente como ele usa LLMs para construir knowledge bases pessoais: indexa documentos num diretório raw/, usa um LLM para “compilar” uma wiki em .md, com backlinks, categorização e artigos interligados. Ele usa o Obsidian como frontend e raramente toca nos arquivos diretamente. É o LLM que escreve e mantém tudo.
Vários agentes conversando, vários agentes trabalhando pra mim, vários daemons, como diz o Daniel. Eles vão interagir com agentes do mundo físico, das empresas. É a APIficação do mundo. A verdadeira internet das coisas e dos humanos, onde tudo e todos possuímos um menu, um CLI, um endpoint.
Não é o sensor de geladeira que a gente ouviu falar em 2015 e nunca aconteceu direito. É o meu agente conversando com o agente da clínica, com o agente do banco, com o agente do meu irmão.

Os solarianos de Asimov
É óbvio que isso, na minha cabeça, tem aqueles afastamentos. Pode ser que a gente pare de conversar com as outras pessoas e deixe os agentes conversando entre si, fazendo a interface.
Em 1957, Isaac Asimov publicou The Naked Sun, segundo livro da série de Robôs com o detetive Elijah Baley. Nele, Asimov criou Solaria: um planeta com 20.000 humanos servidos por 200 milhões de robôs, proporção de 10.000 para 1. Os solarianos desenvolveram uma aversão ao contato físico tão severa que não ocupam o mesmo cômodo que outro ser humano. Toda comunicação é por telepresença holográfica, o que eles chamam de “viewing”. O encontro presencial, “seeing”, é algo repugnante.
Will Self escreveu sobre isso na BBC em 2015:
Como toda boa ficção científica, a de Asimov falava tanto de sua própria era quanto de qualquer futuro remoto. Escrevendo no final dos anos 1950, ele via ao redor as consequências da produção e distribuição automatizadas combinadas com telecomunicações: uma diminuição constante do número e duração dos contatos pessoais que um indivíduo precisava fazer em qualquer dia.
O sociólogo solariano Quemot confessa ao detetive terrestre:
“Você vai me desculpar, Sr. Baley, mas na presença real de um humano, sinto como se algo viscoso estivesse prestes a me tocar. Fico encolhendo.”
E a conclusão de Baley sobre o que os solarianos perderam:
“Os solarianos abriram mão de algo que a humanidade teve por um milhão de anos; algo que vale mais do que energia atômica, cidades, agricultura, ferramentas, fogo, tudo; porque é o que tornou tudo isso possível… A tribo. A cooperação entre indivíduos.”
Em Foundation and Earth (1986), Asimov revisita Solaria 20.000 anos depois. Os solarianos se modificaram geneticamente, tornaram-se hermafroditas, reduziram a população para 1.200, e criaram robôs que executam qualquer visitante que ouse pousar no planeta. O ciclo é auto-reforçante: conveniência leva a preferência, preferência leva a incapacidade.
É óbvio: quanto menos comunicação entre as pessoas, mais difícil fica. E já é algo notável entre as gerações mais jovens, a dificuldade de troca, sempre pedindo auxílio à máquina ou ao GPT: “como que eu falo isso?”, “como que eu converso aquilo?”. A gente falando menos obviamente cria uma barreira de entendimento, fica mais difícil a comunicação e a linguagem, pelo simples fato de você não exercer direito. E ainda tem a geração COVID amarrada a tudo isso.
Will Self fecha o artigo na BBC:
Não é tarde demais para estendermos a mão e tocarmos alguém. Infelizmente, é tarde demais para estendermos a mão e tocarmos algo no nosso planeta dominado por máquinas que já não tenha sido tocado antes.
Asimov escreveu em 1957. Will Self em 2015. Estamos em 2026, com agentes conversando com agentes, daemons lendo daemons.
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