Sapir-Whorf, recorte da realidade e profissões
Sapir-Whorf, recorte da realidade e profissões. A referência do filme do Villeneuve, A Chegada, para mim é muito forte. O conto do Ted Chiang me apresentou diversas provocações.
Acredito que, em especial, a popularização da teoria do Sapir-Whorf é aquela que vulgarmente a gente conhece como: a linguagem molda a forma que a gente pensa, expressa, entende? Com aqueles exemplos hoje em dia já considerados ultrapassados, de que determinado povo esquimó, o inuíte, tem dezenas de palavras para branco, outras tribos não possuem alguns números e diversos outros exemplos que até já se tornaram cultura pop.
Eu lembro que foi esse filme que me fez trazer mais forte pela primeira vez a percepção do profissional multidisciplinar. Se você tem mais que a sua visão em relação ao negócio, ao produto, ao seu trabalho, isso te ajuda a resolver problemas, te destrava.
Eu lembro muito bem que fiz uma palestra sobre o profissional em T que colocava bastante a linguagem como exemplo de que, a partir do momento que você entende aquela percepção, você tem uma outra percepção de realidade, que pode estar escancarada na sua frente, mas que você nunca deu muita bola.
Interessante foi que hoje eu ouvi o Nerdcast número 1039, sobre línguas e linguagens. Diferente de mim, tem profundidade no assunto: vários neurocientistas e profissionais de psicologia debatendo. Eles usam a expressão “corte da realidade”. E dão, inclusive, exemplos de preposições em inglês que no português a gente costuma usar a mesma. Eles colocam a pergunta: será que para o brasileiro, para quem fala português, não importa muito você colocar o anel numa caixa ou colocar o anel no dedo? Em inglês você iria usar preposições diferentes para esses mesmos exemplos.
É óbvio que um consegue entender o outro, mas talvez isso te faça perceber melhor qual a relação do objeto: se o anel está sendo colocado em cima, por fora, em volta. Será que você dá mais importância a esses fatos do que daria se só soubesse português? Quem fala inglês percebe melhor. Eles dão exemplos de tempos verbais, mas óbvio que tem línguas que têm aglutinação, outras têm declinações, outras têm perfeito e imperfeito para todos os tempos verbais, basicamente, com verbos diferentes.
Eu gostei muito dessa expressão de corte da realidade e quis usar até mesmo o recorte. Pois se você for pensar nesse mecanismo novo do trabalho, onde as especialidades se misturam e ganham mais importância no mundo corporativo, você tem uma abrangência geral. Quem conhece, vende produto, mas tem um pouco de visão de design, consegue ver com outro recorte o mesmo produto e com isso avançar na conversa.
Acho que faz ainda mais sentido a provocação de os profissionais trabalharem mais pelo estágio em que o produto se encontra, em vez de ter uma especialidade. Você vai ter mais profissionais que trabalham com exploração, outros mais na fase de crescimento, outros na fase de build do produto, outros do market fit. Isso independe se a pessoa é designer, produteira, programadora, analista de negócios ou de dados. Mas todas elas vão ter um pouquinho do recorte da realidade que a outra profissão, a outra especialidade, tem. Isso te traz mais musculatura para resolver aquele problema.
Desde a concepção do termo do profissional em T tem esses exemplos, não é? Um grupo que está discutindo muitas ideias, alguém vai lá e faz uma analogia de música e isso ajuda a clarear aquela questão.
Reforça essa necessidade, tanto por essa pressão do mercado quanto por experiência de vida mesmo. Quanto mais repertório a gente tem de línguas, de linguagens de programação, seja de profissões, seja de diversidade de background das pessoas que constituem seu time, essa experiência toda te torna mais apto para resolver problemas mais complexos.
E de novo, considerando que a inteligência artificial vai conseguir resolver problemas específicos, pequenos, bem especializados, cada vez melhor, o que nos sobra são problemas complexos, que precisam de uma visão multifacetada para encontrar o melhor ângulo de ataque.
Citados neste texto: Ted Chiang · NerdCast · A Chegada · Hipótese de Sapir-Whorf