Fred Brooks, Fowler e o que não muda na profissão
Eu continuo navegando nas minhas anotações, especialmente as que eu utilizei para criar palestras. Veja que tem algumas recorrências temáticas.
Uma é sobre o que utilizo bastante: você não é pago para escrever código. O essencial de um problema que a gente quer resolver está associado com o que é necessário ser construído. Um processo de descoberta e refino para definir muito bem escopo e requisitos. O Fred Brooks aparece bastante nesse caso.
O outro tema é sobre essa polinização cruzada, de como o trabalho tem ficado mais complexo, especialmente em ambientes corporativos, onde uma única especialização não basta, dada toda a comunicação que a gente tem que fazer com outros times. Olhar um problema de uma forma mais ampla. De um nível mais alto, você acaba ganhando necessidades num patamar horizontal: habilidades que não eram antigamente relacionadas à sua profissão.
As citações que mais se repetem nos meus slides:
“The hardest single part of building a software system is deciding precisely what to build.”
Fred Brooks, No Silver Bullet, 1986. Num deck deste ano eu anotei que a frase envelheceu bem. Se o código ficou barato e descartável, o que sobrou de difícil, e de valioso, é exatamente o que ele apontou. Decidir o quê.
“The complexity of software is an essential property, not an accidental one.”
Fred Brooks, no mesmo texto. É a separação entre complexidade acidental e essencial. A acidental é a que as ferramentas derrubam, uma camada por vez. A essencial continua lá.
“When anyone can build anything, knowing what’s worth building becomes the skill.”
Kent Beck, na Pragmatic Engineer, dezembro de 2025. Cinquenta anos depois do Brooks, a mesma conclusão pelo outro lado: quando qualquer um constrói qualquer coisa, saber o que vale construir, e o que vale manter, é a habilidade escassa.
“Architecture represents the significant design decisions that shape a system, where significant is measured by cost of change.”
Grady Booch. Se arquitetura é o que é caro de mudar, a IA acabou de mudar a régua: escrever ficou barato, mudar continua caro.
“A business analyst writing code out of curiosity, a front-end engineer dabbling in DevOps, a data engineer trying product analysis: each cross-pollination broadens both the individual and the team.”
Martin Fowler, Expert Generalists.
“T-shaped developers combine depth with breadth. They can dive deep into specific problems but also understand how it fits into a larger system.”
Werner Vogels, CTO da Amazon. E não é só ele que fala disso: Osmani, Fowler, Bill Gates.
“Junior engineers often try to widen the horizontal bar too fast without ever digging deep. Senior excellence requires that vertical anchor.”
Addy Osmani, engineering lead do Google Chrome. A barra horizontal é contexto, a vertical é confiança.
“As organizações que projetam sistemas estão condenadas a produzir designs que são cópias da estrutura de comunicação dessas organizações.”
A lei de Conway, do How Do Committees Invent?, de 1968.
“Code is suddenly free, ephemeral, malleable, discardable after single use.”
Andrej Karpathy, Year in Review 2025.