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Acampamento Miasma, metamodernismo e estresse pós-dramático

Fiquei digerindo o Acampamento Miasma por alguns dias e há muitos motivos. Ele se torna um exemplo bastante característico desse momento do cinema chamado de metamodernismo, baseado em um ensaio de 2010 de Timotheus Vermeulen e Robin van den Akker.

Pôster nacional de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte

Essa mistura em camadas, onde a audiência, a diretora, personagens e atrizes, todos juntos, e as barreiras se quebram, se consolida muito no Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, o filme que ganhou o Oscar e que marca bastante essa virada. Inclusive o diretor Daniel Kwan cita o termo. Eu assisti um vídeo do Thomas Flight, o Why Do Movies Feel So Different Now?, indicado por amigos, que tenta colocar a diferença dos filmes pós-modernos versus o metamodernismo atual:

Além de ter gostado muito dessa mensagem principal do filme, o mecanismo de como é transmitido e contado é extremamente interessante.

Eu recordei de algum desses casos onde atores e atrizes passam um tempo estudando a personagem, fazendo estudos de laboratório, estudos de campo. Quando o filme ou a peça de teatro termina, ela tem bastante dificuldade em sair do personagem. Algumas pessoas tentaram cunhar também o termo de estresse pós-dramático, outros falam de character bleed.

E eu conheço histórias, até em peças de teatro comum. Meu pai sempre me contou que, no fim da adolescência, eles interpretaram Homens e Ratos, do Steinbeck. O colega que interpretava o personagem mais bronco, durão, que não tinha muito intelecto, se prendeu ao papel e sofreu bastante depois da peça. Sempre ouvi essa história com um pouco de exagero, até porque não sabia dizer o quanto isso poderia acontecer.

Curiosamente, depois de um tempo eu fui visitar o seminário onde ele estudou. Num grupo de ex-alunos, esse colega do meu pai estava lá. Por um acaso, no meio da conversa, alguém citou: “Poxa, e a nossa peça do Homens e Ratos?” Naquele mesmo instante, esse colega interrompeu a fala e disse de forma bastante vocal: “Nem me fale dessa peça”.

Fiquei bastante impressionado. É como se o caso que o meu pai sempre me contou se tornasse tangível naquele instante. E para ser bem sincero, era ainda mais forte do que eu imaginava.

O Acampamento Miasma tem essa mistura da diretora do filme com a diretora Kris de dentro do filme. E a Kris, por sua vez, com a personagem principal do filme antigo. Todo mundo transfere percepções e emoções um do outro. Não tem apenas um character bleed ali. Não é exatamente isso. Tem alguma coisa que vaza, extravasa, inclusive para a própria audiência. O filme se mistura com a gente. E dentro do próprio filme, a Kris, quando está assistindo o Acampamento Miasma quando criança, também absorve e tem essa transferência.

Além do conteúdo e da mensagem do filme serem muito bons, o formato e o mecanismo de comunicação com a audiência são excepcionais. Um grande exemplo de metamodernismo e mais fácil de se absorver do que outros.

Eu não assisti outros filmes da diretora, mas entendi que o segundo filme dela (o I Saw the TV Glow) é justamente sobre um seriado que vaza pra vida. Nessa linha, tem um filme que agora enxergo também como metamodernista, que me marcou bastante, que é o Adaptação., do Charlie Kaufman, ou melhor, do Charlie Kaufman e do seu pseudoirmão gêmeo, que existe apenas dentro do filme, mas vaza para fora do filme. O metairmão Donald Kaufman literalmente vazou para a realidade: foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado junto ao Charlie, o único indicado fictício da história da Academia.

#filmes #pseudointelectual #storytelling