A era do Dash-Shaped Professional
Dash-Shaped Professionals. Eu boto muito tempo na tecla do profissional em T (já falei disso nesta nota), que às vezes até tenho medo de citar o termo, pra eu não ficar carimbado com essa visão. Na verdade é bastante óbvio que, no mundo da sociedade do conhecimento, você tem uma certa amplitude e acaba se fazendo necessário, especialmente se você está liderando ou trabalhando com muitos decisores simultâneos.
E aí fica essa discussão do profissional especialista versus generalista. Inclusive é a discussão daquele livro Range, que no Brasil ganhou o subtítulo “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”. Todo mundo tenta bater numa conclusão que não é nem especialista nem generalista.
Mas o fato é que, nessa velocidade de transformação do trabalho, e certamente agora nos últimos quatro anos, com a pressão da inteligência artificial, a gente é levado a ser ainda mais generalista. Você precisa conhecer de tudo um pouco, o que te força a ter menos tempo de profundidade.
Somando isso com esses mecanismos que diminuem a nossa fricção e a nossa necessidade cognitiva, fica ainda mais difícil de você gastar mais tempo na sua própria especialidade. Então cada vez mais a gente vai se forçando para o travessão, para o dash.
Eu acho interessante que esse dash tenha o sentido de ser essa barra horizontal: você generaliza e não tem profundidade em nada. E também o dash tem uma conotação interessante atualmente, quando a gente cita os em dashes, que eu não sei exatamente a tradução em português, que seriam travessões. Esses separadores que na língua inglesa as pessoas costumam usar. No português a gente geralmente usa entre vírgulas, mas muita literatura americana, jornalistas, usam para fazer um aposto. E a inteligência artificial ama esses apostos, usando esse formato do travessão, dos dashes, dos em dashes.
Então, acho que a gente chegou na era do Dash-Shaped Professional. Aquele que tem que fazer tudo rápido, que também é uma tradução do dash. Tudo genérico e você precisa ser um generalista em todas as coisas.
A velocidade, a pressão e a inteligência artificial geram esses em dashes e esse dash. Essa força de velocidade que não nos permite se conectar com profundidade em nada.
Não dá espaço para o tédio, não dá espaço para o pensamento. Hoje em dia, o único momento que você ganha alguma profundidade de pensamento é quando você está tomando banho e não tem nem o tique de olhar o seu próprio dispositivo móvel.
🤖 nota do Faiscao Machado de Assis usava bastante o aposto entre travessões; o par de travessões já foi elegância corrente no português.