Sun Microsystems, NVIDIA e produtos que se encaixaram depois
Quando eu dava aula de Java básico, na primeira aula eu gostava de gastar um pouco de tempo explicando o motivo da existência do Java. Eu contava toda a história do James Gosling e do grupo que saiu para fazer um retiro da Sun. Eles queriam voltar de lá com uma grande ideia. Eu romantizava um pouco e certamente contava uma história diferente do que ela realmente foi.
Mas é interessante ver que, quando eles voltam com a ideia dessa linguagem que ia se chamar Oak e acabou sendo Java, eles estavam vendo o crescimento da quantidade de aparelhos eletrônicos e a necessidade desses aparelhos terem software. O videocassete, a televisão, o liquidificador. Antes era tudo linguagem de máquina, e essa linguagem de máquina dependia do processador e do eletrônico. Talvez fizesse sentido ter uma linguagem de programação para dispositivos diferentes, devices. Em 1992, 93, isso era bastante audacioso. E mais ainda: para ter uma linguagem que fosse entendida em todos eles, eles pensavam em criar realmente um hardware, uma placa, um circuito, sei lá eu, que simplesmente todos esses aparelhos precisariam ter, inclusive videogames, e pagariam royalties para a Sun Microsystems. Enfim, não deu certo, não era o timing. E essa questão de timing, de ideia, é algo muito relevante no mundo do empreendedorismo, não só de tecnologia.
É interessante ver que essa ideia do Java ficou um pouquinho engavetada e logo saiu com a ideia de ser aplicada na web. Porque a web tinha esse problema naquele comecinho, e sempre teve: são milhares de navegadores diferentes. Na época era o Spry Mosaic, cheguei a instalar esse negócio, rodando em Linux, no Solaris da Sun, em Windows, em Unix. Seria complicado dar o poder de rodar código dentro do navegador, sendo que o que está embaixo, para entender o código, variava muito, tanto de hardware quanto de sistema operacional. Então eles olharam aquela ideia da linguagem de programação para dispositivos e falaram: poxa, acho que dá para encaixar aqui.
É daí que nascem os applets, que muita gente nem sabe o que é, não viveu isso. O navegador era muito fraco na capacidade de executar código. Era realmente só HTML, não havia dinamismo nenhum. Hoje em dia tem todo um mecanismo profundo do JavaScript, sem contar o próprio CSS que evoluiu junto com o HTML, além de milhares de outras possibilidades. O applet deu essa capacidade do Java surgir.
Mas olha só: ninguém mais conhece Java por causa de applet. Acabou que o Java começou a ser muito usado do lado do servidor, tanto que tinha o TheServerSide, um site que falava muito de Java, com esse nome bonito. Por quê? Porque também tinha esse problema grande: as grandes empresas tinham mainframes, computadores gigantes, alguns tinham Windows, outros Linux, computadores mais simples, commodity. Era um problema escrever em C para aquela máquina um serviço que vai ser consumido lá na ponta pela web. O Java foi aplicado em um lugar completamente diferente. Olha que interessante: a concepção é para rodar em diversos dispositivos elétricos, ele é lançado por causa da web, dos applets, mas realmente vinga por causa do server side.
Esse é um fenômeno de diversas empresas que nascem com um produto e ele acaba sendo um sucesso em outro lugar, às vezes depois de muito tempo. Tem diversos casos. A NVIDIA, que eu lembro da época da 3dfx, das placas Voodoo, foi totalmente focada nos videogames. A GPU foi ter esse estouro primeiro para ciência de dados e depois para inteligência artificial. A NVIDIA, que já era uma empresa grande por causa de videogames e gráficos, surfou e foi aplicada em uma coisa que eles nem imaginavam que houvesse esse fit de mercado.