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Startups, cultura e modelos mentais

Startups, cultura e modelos mentais.

Essa semana tomei um café com uma ex-colega do ensino médio, uma mulher muito inteligente, engenheira, perfil forte de exatas e que trabalhou durante duas décadas em bancos, mais especificamente na Faria Lima. Atingiu altos cargos de liderança e nesse momento tá mudando completamente de carreira por diversas questões.

E ela escolheu criar um projeto próprio, uma empresa, um negócio e lembrou de mim porque queria utilizar a inteligência artificial para acelerar alguns processos de criação, de marketing, de planejamento. Estava com bastante medo, pois os advogados o tempo todo a desafiavam e enunciavam inúmeros problemas em relação à propriedade intelectual, ao uso das ferramentas e muito mais.

Quando ela me mandou mensagem no WhatsApp para conversar, tinha dado um pouco essa abertura, o que eu já achei esquisito. Por que esquisito? Pois no momento que você está montando sua própria empresa, você tenta tirar o projeto do papel e ver se existe aderência com o mercado (o tal do market fit que gostam de usar como palavra bonita em inglês).

E quando eu a encontrei pessoalmente, percebi que era ainda mais grave. Os advogados e colegas do trabalho dela ainda diziam que ela não deveria apresentar o projeto nas empresas que ela estava visitando, pois poderiam copiar a sua ideia e roubar a propriedade intelectual e até mesmo fazer mais rápido do que ela. O escritório queria que ela forçasse os potenciais clientes (que são negócios pequenos e familiares) a assinar um NDA para ouvir a ideia do papel. É matar mosca com bazuca.

Bem, cada vez mais eu acho que no mundo dos negócios a sua velocidade de execução, distribuição, capacidade de se conectar com o mercado é muito mais importante do que uma ideia anotada num papel. Mas é curioso ver que todos esses medos que recaem sobre ela estão obviamente ligados à cultura que ela experienciou durante duas décadas de trabalho, em uma corporação maior, extremamente regulada, onde muitos problemas podem acontecer se a empresa não for extremamente organizada. O mecanismo de governança faz parte até do nascimento da empresa.

Esse não deve ser o caso de uma startup. Se você está montando um banco, vai ser obviamente diferente. Mas, caso sua área de atuação seja algo que tem riscos muito, mas muito menores, é importante tirar do papel, testar com o público e rapidamente iterar para encontrar um produto que faça sentido.

É uma pequena anedota, mas esse caso real me chama bastante atenção. Porque a gente esquece que aquilo que trabalhamos durante muito tempo entra no nosso mecanismo de pensamento. Ou, mais uma vez, se você gosta do bingo da startup, o tal do mindset.

Por mais que essas palavras da moda são exageradamente vendidas por coaches e mentores, obviamente há algo a ser refletido. Dependendo do tipo de empresa que você está criando e do trabalho que você está fazendo, a forma como você encara tudo o que você fez anteriormente tem um peso muito grande, que é a sua experiência. E às vezes ela pode ser adequada, outras vezes pode estar desalinhada com aquilo que você quer fazer, o que torna o desafio ainda maior.

#startups #carreira #comportamento