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Selos, cartões telefônicos e fóruns

Estava conversando sobre a minha adolescência e minha fase de faculdade com a Cecília e acabei contando das minhas coleções. Estava um pouco envolvido com filatelia e depois com cartões telefônicos. Eu colecionava bastante.

Dos selos, eu ia para o centro de São Paulo para comprar e ver o preço, e também usava a geladeira como uma forma de deixar os selos usados de cartas pendurados ali até que secassem e ficassem fáceis de descolar do papel. Você molha, deixa um pouquinho num paninho e depois gruda na geladeira até escorrer toda a água, e depois tira o selo com certa facilidade. Meus amigos e família já sabiam: o Paulo coleciona, guarda essa carta que veio de fora para ele. Isso criava um mecanismo interessante das pessoas te reconhecerem como colecionador de selos.

Eu também herdei um álbum antigo do meu avô, que se chamava Paulo, daquele mecanismo em que as pessoas colavam os selos num álbum de papel. Eu já peguei a migração para o álbum com um plástico para proteger. Foi uma época interessante. Acabei doando para a irmã de uma amiga que estava colecionando quando eu tinha parado. Me arrependo, gostava muito dos selos da Hungria. Achei interessante que eu peguei uma migração em que os selos novos começaram a ter mais valor do que os carimbados, apesar de eu gostar muito dos carimbados, que demonstravam que as pessoas utilizaram aquilo para se comunicar.

A Cecília fez a observação de que eu fui dos selos para os cartões telefônicos, que também têm a ver com comunicação. Os cartões telefônicos foram uma época mais interessante, já que a internet estava no seu começo e eu ia em newsgroups, newsletters e fóruns esquisitos para oferecer os cartões do Brasil que eu tinha em troca. Eu tinha vários do Japão, que eram muito bonitos, e as pessoas enviavam pela confiança. Você falava: vou te enviar 50 do tema Trens e Bondes de São Paulo, você me envia esses 30 do Monte Fuji? Combinado. Você pegava, colocava o nome lá e não esperava chegar o do outro. É interessante essa confiança que ocorria com desconhecidos na internet, sem ver foto, sem validação de Big Tech. É óbvio que a internet tinha um mecanismo elitizado que já criava barreiras suficientes, é verdade.

Mas me chama a atenção a observação da Cecília de que também é comunicação. Eram objetos utilizados para que as pessoas se comunicassem. E é interessante ver que depois eu caio em fóruns, seja de Age of Empires, seja de Java, de programação, de Magic: The Gathering, até ajudar a construir um próprio, que era o GUJ. Para poder trocar mensagens, participar, ver as pessoas utilizando sistemas de comunicação. Isso se acelerou tanto nos últimos anos que os mecanismos de WhatsApp, Discord, Slack e Teams caem num ponto máximo de otimização, onde a gente troca meia dúzia de palavras, às vezes uma única letra. Tem vezes que eu me pego respondendo “Y”. Sendo que eu cheguei a colecionar selo de cartas de três páginas que demoravam um mês para chegar da Hungria ao Brasil.

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