Mini-religiões, valores e rituais
A Cecília tem lido esse livro da sueca Liv Strömquist, A Rosa Mais Vermelha Desabrocha, que é sobre o amor nos tempos do capitalismo tardio. Vira e mexe ela me traz alguma reflexão da obra. Nessas duas páginas, a autora defende que os rituais são importantes para o funcionamento de um casal e que eles precisam de uma disciplina de tal forma que isso cria uma “mini-religião” (termos dela).
A fé no próprio casal: de alguma forma, eles criam uma igreja particular. Lembrar de algo importante que o parceiro ou a parceira disse, ouvir uma música, repetir algumas falas, que funciona até como uma oração. Esses rituais alimentam essa noção de propósito do casal.

Se quiser que a magia dure, o casal deve se comportar feito papas de uma igreja particular que dedicam o tempo a comer tapas só os dois, balançar o turíbulo, comemorar um aniversário, comer a hóstia, lembrar-se de algo importante que o parceiro disse, deixar um velho pedaço de osso debaixo de uma almofada de veludo e trancá-lo dentro de um santuário dourado, ouvir “nossa música” juntos para relembrar a origem do milagre, repetir certos mantras do tipo “eu te amo” e “você fica superbem naquele jeans” diariamente, tal qual uma oração vespertina, ou, de preferência, cinco vezes por dia, que nem os muçulmanos, constantemente pensar no bem-estar do parceiro, se esforçar para ser uma boa pessoa, abster-se de tentações como transar com outro ou comer carne de porco, optando por sentir prazer em satisfazer as limitações impostas pela religião, saborear a energia emocional que é evocada pela fé absurda e irracional em nós dois, de que há um sentido e um propósito para nós dois, como se fosse prestar um serviço vitalício num mosteiro. Talvez, meus amigos!!! Talvez, talvez!!!!!!!!
É interessante como dialoga de novo com Byung-Chul Han, que a autora cita em outros momentos, e com o livrinho dele O Desaparecimento dos Rituais.
Navegando nos artigos e autores que eu tenho lido, caí no Michael Nielsen, um dos pais da computação quântica. Ele tem esse artigo sobre o How God Becomes Real, um livro da antropóloga Tanya Luhrmann, autora que eu nunca li. Ele insiste nisso: as práticas criam a crença, e não a crença traz as práticas. É óbvio que nada é tão simples assim, mas ele diz que uma crença não é só uma escolha, não é algo que pode ser adotado simplesmente porque é benéfico. É algo que precisa de uma convicção genuína. Muitas das práticas religiosas, os rituais, ajudam os praticantes a acreditar. O que me lembra o microcosmos do casal, criando ações e ritos dentro da própria relação, única e particular.
A belief isn’t a mere choice, something which can be adopted when it seems beneficial. Rather, it is something associated to a genuine, sincere, durable felt conviction.
Much of the purpose of religious practice is to help practitioners believe.
Esse cientista vai além e também traz que na ciência tem muita ênfase em determinar a verdade, e criar crenças fica como cidadão de segunda classe, só instrumental. Ele mesmo fala que subestimar a criação de crenças foi um erro na própria jornada dele como cientista. Ele até considera o ateísmo profundo como algo religioso em relação ao cosmos. E diz que, independente da verdade, criar crenças é afetado por repetição, pelo desejo de aceitação social e pertencimento, pela confiança na autoridade de quem está falando, além do uso de música, de dança, de ritmo e diferentes rituais.
In science, especially, there is a lot of emphasis on truth-determining, and belief-making is underrated, often considered largely instrumental to the process of discovery, and of less intrinsic interest. This underestimation has been a mistake on my part, and one these notes begin the process of rectifying. The belief-making process is tremendously important.
In this sense, the question of deep atheism seems to me religious, despite not involving God.
Regardless of truth, belief-making may be strongly affected by, among other things: repetition; our desire for social acceptance and belonging; the confidence or fluency of the speaker; the use of music, dance, rhythm, and ritual; being delivered by authority.
Para mim está tudo ligado a esse fim das fricções. Atualmente evitamos ao máximo a fricção… a pele tem ficado cada vez mais fina, onde qualquer pequeno atrito arde, queima. Aí a preferência é ficar parado, em casa, sem encarar outra pessoa. A facilidade de ficar em casa, num doom scrolling, num streaming qualquer, sem necessidade de ritual algum antes e depois, torna o ciclo vicioso difícil de ser quebrado.
Antes, quando você ia ao cinema, você precisava planejar: pensar no filme, convidar uma companhia, comprar o ingresso, chegar antes pra pegar a fila, pensar na pipoca e depois ficar aquelas duas horas ininterruptas, que lembram até um culto. Hoje, no sob demanda, você pula direto para o momento que quer assistir, na hora que quer, e ainda fica se perguntando se a outra opção seria melhor. Fica a sensação de que você poderia estar fazendo outra coisa nesse instante.
Curiosamente, esse autor Michael Nielsen cita nos agradecimentos o Henrik Karlsson, o programador e artista sueco da minha nota anterior sobre Second Brain, e no final faz uma menção à vida de Pi que achei importante. Eu só assisti o filme, mas sei que o livro é icônico.
Eu fiz essas ligações até mesmo com a Simone Weil, que aparece na obra do Byung-Chul Han e nesse artigo do Nielsen, sobre a proximidade da atenção plena com algo de cunho religioso e de transcender. Justamente a atenção plena que temos perdido e até produtificamos como mindfulness e outros artefatos.
Attention, taken to its highest degree, is the same thing as prayer. It presupposes faith and love. If we turn our mind toward the good, it is impossible that little by little the whole soul will not be attracted thereto in spite of itself.
Simone Weil, citada pelo Nielsen nesse mesmo artigo.
Essas ligações que eu faço aqui, com outras notas, entidades e temas diferentes, aparecem por causa do Second Brain.
Citados neste texto: Liv Strömquist · Byung-Chul Han · Michael Nielsen · How God Becomes Real · Simone Weil · As Aventuras de Pi · A Rosa Mais Vermelha Desabrocha · Henrik Karlsson · Tanya Luhrmann · O Desaparecimento dos Rituais