Pensamento hologramático (Edgar Morin)
Eu lembro quando estudava Biologia e era criança, ficava fascinado que a gente tinha entendido como o corpo humano funciona: os pulmões, o rim, etc. Um monte de coisa com um nível de detalhes assombroso. E, de alguma forma, eu realmente não entendia que aquilo era o conhecimento que a gente tinha até então. E que, na verdade, muito daquele aprendizado estava simplesmente errado. Trinta anos depois, muita coisa mudou. Mesmo em assuntos básicos, a gente descobre que não era bem assim. Em especial, na ciência, a gente entende que o pequeno faz parte do todo. Tem muita coisa interconectada nesses sistemas que aquele filósofo francês chama de hologramático. O pequeno está dentro do todo e vice-versa. Ele dá o exemplo do DNA e das células: dentro de uma célula tem toda a informação de um corpo, e dentro do corpo tem todas as células. Assim como a sociedade e a pessoa. Nossa cultura, do nosso país, está dentro da gente e vice-versa. Não tem como mudar um sem mudar o outro. Está tudo interconectado.
Essas descobertas me chamam a atenção na hora de ver o crescimento da criança e as perguntas que elas fazem. A Elisa, recentemente, com sete anos, me fez uma pergunta de difícil resposta: "Papai, que partes do corpo os cientistas ainda não descobriram?" Não consigo nem responder. É fascinante ver que ela já tem a ideia de que não temos essa completude do entendimento do funcionamento do corpo humano. E essa percepção dela eu não tinha. Talvez até porque o ensino naquela época era dado como "essa é a verdade", apesar de não dito explicitamente.
Hoje a gente cria as pessoas num mecanismo novo de indagação, que é melhor para muitos aspectos. A gente esquece que não estamos lá, que há muito a ser conhecido, ser retrabalhado, ser refeito e repensado. Às vezes a gente dá o vasto conhecimento humano como já 99% da verdade, falta só 1%, sendo que nem dá para quantificar as coisas assim.