Gritos uníssonos e terceirização das decisões
Esse trecho do Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, mostra essa mistura de política com as personagens, com filosofia e relações humanas. E confesso que às vezes me assusta um movimento de manada:
Jovens franceses levantavam o punho e urravam palavras de ordem contra o imperialismo soviético. As palavras de ordem lhe agradavam, mas ela constatou com surpresa que era incapaz de gritar junto com os outros. Só conseguiu ficar alguns minutos na passeata.
Contou essa experiência a amigos franceses. Eles ficaram espantados: "Então você não quer lutar contra a ocupação do seu país?". Ela queria lhes dizer que o comunismo, o fascismo, todas as ocupações e todas as invasões dissimulam um mal mais fundamental e mais universal; a imagem desse mal era o desfile de pessoas marchando com os braços para cima e gritando as mesmas sílabas em uníssono. Mas sabia que não conseguiria se fazer entender. Sentiu-se constrangida e preferiu mudar de assunto.
Um amigo inteligente fez um contraponto importante: levando ao pé da letra essa mensagem, a gente acaba desacreditando qualquer movimento em grupo por uma pauta. Sim, é verdade. Acredito que o que me assusta é essa nossa terceirização de decisões e estudo.

Essa frase que anotei há mais de 15 anos vem à cabeça, do Karamázov: "o homem não tem uma preocupação mais angustiante do que encontrar a quem entregar depressa aquela dádiva da liberdade ... só domina a liberdade dos homens aquele que tranquiliza a sua consciência."
Ficar gritando em uníssono e poder se sentir acolhido acaba sendo uma forma de entregar a liberdade.