Empreender: ideias e execução
Esses dias me perguntaram o que é empreender. É sempre difícil definir uma palavra com que a gente está bastante envolvido. Eu acredito que empreender é construir em cima de uma ideia. Para isso é necessário uma excelente execução, um plano que tenha aderência ao mercado.
Ter uma primeira venda, um primeiro cliente, é essencial. Sem contar que é um marco muito grande: você vê que outras pessoas estão usando e tirando proveito da execução da sua ideia. Encontrei até algumas frases do Peter Drucker, que fala que a única definição válida de propósito de um negócio é criar um cliente.
Eu não acredito que tenha a ver com escalabilidade, tamanho de mercado e você ganhar sua liberdade de tempo e econômica, que é muito a linha de pensamento do Vale do Silício, de startups e venture capital. Um dos mecanismos mais óbvios pra aumentar a chance desse empreendimento ter sucesso é que pelo menos você seja seu próprio cliente, o famoso eat your own dog food, skin in the game e as várias variantes em relação a você ser o próprio consumidor do seu produto. Isso vale desde uma padaria e um café, onde você participa, conversa, come lá e troca ideias com as pessoas, até mesmo uma grande empresa ou produto digital.
Muita gente pergunta minha opinião sobre uma startup ou um empreendimento (como já escrevi respondendo a um jovem de 16 anos). Quando eu acho um pouco difícil de que ela vinga, eu pergunto: quem seria seu primeiro cliente? Qual é o canal de distribuição? Quem vai comprar e por quê? Existe mesmo essa dor? Se você consegue enxergar uma pessoa consumindo e precisando disso, de uma maneira muito concreta, eu acho que é uma ideia válida e que você vai conseguir empreender em cima dela.
Aquele cara famoso de inovação, o Schumpeter, que já tem mais de 100 anos, fala que empreendedor não é nem o grande inventor e nem o grande capitalista. É ele que faz as novas combinações do que está acontecendo no Zeitgeist. Tira essa ideia do papel e põe para o mercado, que a ideia em si não é o que tem o maior valor. E aí sim alinha com o Naval Ravikant (já fiz um post sobre as ideias dele) e os outros do Vale do Silício: empreender é realizar essa ideia.
Eu fui até ver que escrevi um post em 2010 em que comentava aquele teste do marshmallow que ficou muito famoso na época. Fiz uma analogia com essa velocidade que todo mundo impõe, que empreender, o sucesso é você vender a empresa. E não faz sentido nenhum.
O sucesso do empreendedor é ver a sua ideia tirada do papel e com o público, com o mercado, trabalhando em cima e criando uma comunidade em torno daquilo.
Inclusive, essa versão mais lenta de empreendedorismo é a que aparecia ali nos tempos áureos do DHH e do Jason Fried, do livro Rework e da 37signals.

E eu lembro que no Rework falava bastante sobre isso, de que o planejamento é você ir adivinhando. A verdade é que empreender tem muito de intuição, da sua experiência prévia, do seu conhecimento do mercado, das pessoas, da comunicação, de você estar numa comunidade e absorver aquele sentimento de necessidade, de para onde as coisas estão indo. É muito difícil colocar isso em métricas, em planilhas e OKRs, especialmente no início, onde você precisa testar e vai errar bastante. O próprio Lean Startup fala de você sair do prédio em que está trabalhando para testar com o público.
Quando eu tentei responder a definição de empreender, fiquei com esse aspecto amplo de você executar um projeto pessoal, uma ideia, não necessariamente criar uma empresa. Essa capacidade acaba sendo necessária em quase qualquer profissão nesse universo em que a gente vive, onde a especialização está sendo trocada por um aspecto colaborativo de saber usar ferramentas, colaborar entre pessoas e entender os seus colegas de trabalho e a cultura organizacional.
Encontrei também a definição da Y Combinator, que o Paul Graham falava: make something people want. O make é essa capacidade de você concretizar uma ideia. E o people want é você encontrar o primeiro cliente, pelo menos. É o tal do market fit.
Então eu diria que empreender é executar uma ideia até o seu primeiro cliente. Seria a minha definição de sucesso de um empreendimento.
Citados neste texto: Vale do Silício · Naval Ravikant · Teste do marshmallow · Paul Graham · Joseph Schumpeter · David Heinemeier Hansson · Jason Fried · Rework · 37signals · Peter Drucker · Y Combinator · The Lean Startup