A miséria humana: o mineiro só é solidário no câncer
A coluna do Luiz Ponde, na folha de São Paulo, de 28 de março de 2011, intitulada “Só os neuróticos verão a Deus” (infelizmente apenas para leitores), me arrepiou. Ela começa assim:
“Tenho pensando demais em dinheiro e sucesso. Não porque eu os tenha em excesso (haveria uma “quantidade justa” de dinheiro e sucesso?), mas porque, sem eles, somos afogados no sentimento da inexistência. Talvez por isso tanta conversa fiada sobre sermos honestos e desapegados quando, na realidade, em silêncio, babamos por dinheiro e sucesso. Haverá amor sem dinheiro e sucesso, ou terá razão o grandioso Nelson Rodrigues quando diz que dinheiro compra até amor verdadeiro? Aqui, ele fala a anos-luz de distância da sensibilidade infantil da classe média e de seu marketing da ética que assola o mundo.”
Ponde cita Nelson Rodrigues e Fiodor Dostoievski. Mais especificamente o dilema “se Deus não existe, tudo é permitido“, conhecida paráfrase ao artigo de Ivan Karamazov. Nelson Rodrigues é invocado com a curta peça “Bonitinha, mas ordinária”. Acabei lendo para ver se gostaria tanto quanto de um livro de Dostoiévski, sem muito sucesso. O livro repete o mantra “O mineiro só é solidário no câncer“, atribuída a Otto Lara Resende. Peixoto, amigo do protagonista Edgard, tira dessa anedota o mesmo tema de Os Irmãos Karamázov: “Você diz que não é o mineiro, mas o próprio homem, o próprio ser humano. E se o homem é isso, tudo é permitido. Eu concordo. Sou da mesma opinião.“.
Essa curta frase alivia diversas questões morais que aparecem na trama, afinal, se somos solidários apenas por estarmos em uma situação melhor ao do colega, o que resta de altruísta? o que resta de amoral? Edgard luta contra esse vazio, esse ateísmo didático, para se mostrar diferente dos outros e de que há sim uma certa esperança.
Será mesmo que somos apaixonados pela tragédia e desgraça dos outros? Este post de Alexandre Soares nos lembra de que como somos atraídos por grandes desgraças. O cinema-pipoca, #1 box office, já não é apenas o Batman e o James Bond. Agora inclui os sucessos com pacientes terminais que perderam sua família abruptamente. Por que gosto tanto de American Beauty e Weather Man? Em Crime e Castigo, há uma passagem (não achei) em que Dostoievski fala sobre uma pequena alegria que subitamente nos atinge face a notícia de morte de um conhecido. Meu pai diz que “o humano só aparece na sua tragédia“. Na dos outros, também. É o problema do bem.
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