Transições, complexidade e o tempo — Hipsters 497

Sexto e último episódio anual de reflexões — sobre as transições que marcaram 2025, o espírito de curiosidade infantil, criar filhos sem manual, cultura em escala, IA entre o hype e a realidade, complexidade temporal e resoluções para um novo ciclo.

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Transições e mudanças

2025 foi um ano de transição grande para mim. Deixei a posição de CEO do Grupo Alura — um grupo com mais de 2.000 pessoas, entre Alura, FIAP, PM3, Casa do Código, Starts e Hipsters — e assumi o papel de CIVO (Chief Innovation/Vision Officer). Entreguei a condução do Hipsters.tech para o André Davi. Lancei novos formatos: Hipsters.talks e a temporada final do Like a Boss.

Transições são momentos em que tudo se reorganiza. Passei de quantidade de impacto — alcançar o maior número de pessoas — para qualidade de impacto como educador. É uma mudança que reflete algo mais amplo na minha vida: menos gestão, mais profundidade.

A criança adulta: generalista, especialista e curiosidade

Martin Fowler publicou em 2025 um artigo sobre generalistas vs. especialistas. David Epstein explora o mesmo tema no livro Range. Com IA mudando o jogo, a especialização ultra-estreita perde valor relativo — mas o pensamento contextual amplo ganha.

Uma colega da FIAP trouxe um conceito que me ficou: a “criança adulta”. É a pessoa que mantém a curiosidade investigativa e a capacidade de brincar de uma criança, com a responsabilidade e a experiência de um adulto. Meu pai, com 82 anos, é isso com as netas: curioso, brincalhão, leve. É o oposto de quem se cristalizou em certezas.

Continuem curiosos sobre como as coisas funcionam: computadores, internet, células, estrelas. A Via Láctea tem 200 bilhões de estrelas. Existem cerca de 200 bilhões de galáxias. A distância Terra-Lua é de ~300 mil km, um segundo-luz. A Terra está a 8 minutos-luz do Sol. A Voyager ainda viaja. Carl Sagan chamou a Terra de “pálido ponto azul” — e o Veritasium fez demonstrações em escala real da distância Terra-Lua que são de arrepiar. Esse espanto é o motor do aprendizado profundo.

Parentalidade sem manual

Criar filhos é navegar entre conselhos contraditórios: psicólogos, pedagogos, influenciadores — todos discordam. Minha abordagem: ouvir as crianças, criar parceria real, negociar, ter conversas abertas. Dizer “não” mas estar disposto a reconsiderar quando a criança argumenta. Distinguir regras rígidas (segurança) de julgamentos situacionais (o que vestir, o que comer no jantar).

Evitar tanto a permissividade total quanto a rigidez total — o pêndulo entre esses extremos é o desafio constante. O mais importante: saber que você está aprendendo junto. A preparação nunca termina.

Cultura organizacional em escala

Só entendi cultura de verdade quando a empresa passou de 100 pessoas. Antes disso, conexões pessoais mascaram a ausência de cultura explícita. Em escala, cada novo contratado é “um passo para trás” em cultura — vem de outro background, com outros valores implícitos. Precisa de comunicação e reforço contínuos.

É como a diversidade regional do Brasil: culturas locais muito distintas, unificadas por algo mais profundo. Nas empresas, o mesmo: quando usar Slack vs. e-mail vs. telefone vs. conversa presencial? Quando pedir ajuda vs. resolver sozinho vs. escalar? São os mecanismos invisíveis que definem como as coisas realmente funcionam — a “shadow IT” da cultura.

Minha filosofia: cultura baseada em confiança. “Eu confio em você, você confia em mim.” Ser direto sobre problemas sem ser duro. Se algo não pode ser feito, diga — eu vou acreditar. É difícil em escala, mas vale tentar.

IA: entre o hype e a realidade

Empresas afirmam ganhos de 10x em produtividade com IA. Mas não estão entregando 10x mais rápido. Geração de código não é o gargalo — o gargalo é descoberta de produto, análise de requisitos, negociação com stakeholders. A IA ajuda na velocidade do código, mas produtos continuam levando o mesmo tempo.

Em janeiro de 2026, um engenheiro do Google afirmou ter completado em uma semana um projeto de um ano — mas as perguntas certas são: era um projeto importante ou trivial? Quão complexa era a descoberta? As ferramentas estão melhorando (Cursor, Claude), mas habilidades interpessoais se tornam mais essenciais, não menos.

Sérgio Lopes falou no “retorno do analista de negócios” — o profissional que entende profundamente o que precisa ser construído. Fábio Kung sempre disse: domine 1-2 níveis abaixo do que você usa. Se é front-end, saiba React + JavaScript + HTTP + fundamentos do browser. Isso não mudou com IA.

Uso IA como assistente, não como substituto. Leio o feedback, não faço copy-paste. Não terceirizo autenticidade. E aviso: cuidado com antropomorfizar a IA — como no filme Her. A vida acontece fora da tela.

Complexidade e o Relógio de 10 Mil Anos

Participei de um workshop de 4 horas com Roman Krznaric, cofundador da School of Life com Alain de Botton. O livro dele, The Good Ancestor, é sobre pensar a longo prazo. Hartmut Rosa descreve a “aceleração social”: temos mais recursos e acesso, mas menos tempo. Tudo acontece mais rápido. Nos sentimos apressados apesar do tempo passar sempre igual.

A história do tempo medido é fascinante: sinos de igreja marcavam horas de oração na Idade Média. No século XVI surgem os minutos em relógios públicos. No XVII, Christiaan Huygens inventa o relógio de pêndulo (precisão de segundos). No XVIII, minutos entram nas casas. No XIX — há apenas 150 anos! — os segundos chegam ao cotidiano. A Revolução Industrial precisava sincronizar trens, guerras, fábricas. Século XX: relógio atômico. Hoje: Apple Watch medindo milissegundos, batimentos, sono, VO2. Mais medição, mais controle — mas os dados também nos controlam.

Edgar Morin propõe o princípio hologramático: a parte contém o todo e o todo contém a parte. O DNA de cada célula carrega a informação do corpo inteiro. Indivíduo e sociedade não existem um sem o outro. Isso se aplica à família, à empresa, à nação.

O projeto que mais me fascinou: o Relógio de 10 Mil Anos (Clock of the Long Now). Um relógio mecânico projetado para funcionar por 10.000 anos. O cuco aparece uma vez por milênio. O ponteiro dos séculos avança. Um som diferente a cada ano. Está sendo construído dentro de uma montanha no sudoeste dos EUA, alimentado por diferenças térmicas e sincronizado pelo sol. Sem prazo de conclusão — ficará pronto quando ficar pronto.

O propósito é provocar: contra o pensamento trimestral do capitalismo, contra a urgência que nos sufoca. Os construtores de catedrais medievais sabiam que nunca veriam a obra finalizada. Precisamos desse tipo de perspectiva.

Resoluções e o novo ciclo

Misturo metas quantitativas (livros lidos, quilômetros corridos) com temas qualitativos. Nem sempre funciono — nos últimos anos, executei mal as resoluções. Uma ideia nova que estou experimentando: o “desafio quaresmal” de 40 dias (entre Carnaval e Páscoa). Não necessariamente religioso — é um bloco estruturado de tempo. Leitura diária, exercício diário, sem carne vermelha, tempo com família, só compras presenciais (para praticar conversação — jovens estão com dificuldade de interagir com caixas de loja).

Abrace carreira, aprendizado e vida com curiosidade. Mantenha o espírito de criança adulta. Essa curiosidade vai se refletir em tudo que você faz.