Rituais, desempenho e crianças — Hipsters 444
Quinto episódio anual de reflexões — sobre rituais que estamos perdendo, a ditadura das métricas, o chocolate como metáfora de profundidade, a solidão pós-pandemia e como crianças e telas estão redesenhando o futuro.
O ritual do café
Minha relação com café especial começou lá no episódio 33 do Hipsters (“Cafezinho Hipster”) e evoluiu ao longo dos anos. Hoje tenho um ritual: seleciono o grão, moo, meço 16 gramas para 240 ml de água a 96°C, faço três ataques de água no V60, molho o filtro de papel antes. Já experimentei AeroPress, Chemex, Qemex.
Em 2024, a Hario, fabricante japonesa de equipamentos de café, abriu seu primeiro café em São Paulo. No Instituto Biológico, bem no centro urbano, existe uma plantação de café — tem gente que compra o grão verde e torra em casa com equipamento caseiro ou até pipoqueira. Existem torradores open-source que aceitam código Python para controle.
Mais do que café, o que me interessa é o ritual como mecanismo de separação. Num mundo em que Slack, WhatsApp, Teams e e-mail borram completamente a fronteira entre pessoal e profissional, fazer café com as mãos — moer, sentir o cheiro, esperar — é um dos poucos momentos em que desligo. Dominar sua “stack” de café cria uma relação mais profunda com algo que você consome todo dia.
A sociedade do desempenho
O filósofo Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, descreve como as métricas de performance invadiram a vida pessoal. KPIs, OKRs, números de produtividade — tudo que era do mundo corporativo agora rege nosso sono, exercício, alimentação e até lazer.
O smartwatch mede batimentos, qualidade do sono, passos. O jejum intermitente, que nasceu como prática religiosa e ritualística, virou otimização de picos de glicose e macronutrientes. O sono polifásico — dormir 4 vezes 45 minutos como supostamente fazia Leonardo da Vinci — é sobre quantificar o descanso, não descansar. Correr já não é só correr: é postar tempo no Strava, criar KPIs de pace e distância, transformar prazer em competição.
As resoluções de ano novo se tornaram metas numéricas: 5 commits em open source, aumento de X% no salário, Y certificados, Z quilos a menos, inglês no nível B2. Peter Drucker disse que o que não pode ser medido não pode ser gerido — mas isso não se aplica a 100% da vida.
Mark Zuckerberg treinando 15 horas por dia, Jeff Bezos otimizando longevidade, gente querendo chegar aos 95 anos só para “bater o número”. Os rituais — jejum, comida, exercício, estudo — foram despidos de cerimônia, significado e conexão pessoal. Ficaram reduzidos a otimização de métricas. E a gente esquece o propósito original: saúde, alegria, aprendizado.
Chocolate e a origem que transforma tudo
O mundo do chocolate bean-to-bar (do grão à barra) me fascinou esse ano. Produtoras como Luisa Bram, La Sevícios, Miró (que importa cacau de Madagascar), Dengo e Mestiço controlam toda a cadeia — da árvore à barra.
O exemplo que mais me marcou vem da Michon: eles fazem uma barra com a mesma receita, mesmo maquinário, mesma temperatura — mas usando cacau de duas origens diferentes. Resultado: cor, aroma, textura e sabor completamente distintos. A mesma fórmula, uma única variável de entrada diferente, dois produtos irreconhecíveis entre si.
Chocolate industrial torra pesado para mascarar grãos de baixa qualidade. Chocolate artesanal revela o terroir. A analogia com tecnologia é direta: se todos os inputs são idênticos — mesmo framework, mesmo prompt de IA, mesma abordagem — todos os outputs serão idênticos. O profissional que entende profundamente o processo sabe quando ajustar, quando questionar a automação, quando não usar a ferramenta.
Vida online e solidão pós-pandemia
Scott Galloway continua publicando dados assustadores sobre isolamento social. Jovens têm menos amizades. O tempo com amigos fora de casa está em mínimas históricas. A pandemia deixou feridas, especialmente em jovens e crianças.
No trabalho remoto, perdem-se as “costuras” — aquelas transições naturais entre reuniões onde você caminha, respira, muda de contexto mental. Tem gente nos EUA e no Brasil participando de duas reuniões simultâneas. Sem câmera ligada, sem contato visual, fica mais difícil perceber que o outro pensa diferente de você.
A vida acontece fora de casa — e se desenvolve lá. Na Alura, estamos adicionando mais momentos síncronos. Na FIAP, o contato presencial é um alívio para todos. Precisamos reconstruir relações humanas genuínas, não necessariamente presenciais, mas reais.
IA como companheira: o risco existencial
Se habituarmos pessoas — especialmente crianças — a uma IA que é sempre dócil, empática, disponível, que nunca discorda com força, nunca se frustra, nunca se irrita… seres humanos reais (que discordam, têm desejos diferentes, são inconvenientes) passam a ser frustrantes por comparação.
Já vivemos uma crise de isolamento digital. Se a IA aprofundar isso, vamos preferir amigos-robô. A dinâmica humana real é difícil: decidir junto o que assistir, onde comer, para onde ir. É justamente nessa fricção que crescemos. O não-humano é quem sempre concorda, sempre ajuda, nunca se frustra.
Robôs companheiros podem ajudar pessoas em crise — não descarto isso. Mas o caminho padrão, de preferir a IA ao humano, é perigoso e fácil de perder o controle. Precisamos direcionar a tecnologia para fortalecer nossas melhores qualidades, não para automatizar a complexidade emocional.
A mudança que a IA traz é comparável à do smartphone, do computador, da máquina de escrever, da calculadora — mas exponencialmente mais rápida e profunda. Assistentes de IA serão fundamentais para o trabalho competitivo. Assim como quem entendeu contabilidade passou a usar calculadora científica, quem entende os fundamentos trabalhará com IA. Mas o talento humano continua crítico: para questionar, ajustar e decidir quando não automatizar.
Crianças, telas e a cerimônia perdida
Minhas filhas têm cerca de 7 e 9 anos. Crianças falam sem filtro, com sinceridade inocente e frequentemente sábia. São esponjas que observam tudo que modelamos.
O problema das telas portáteis é a gratificação instantânea em qualquer momento e lugar. A tela grande, fixa na sala, exige que a criança pare, ande até lá, ligue — essa fricção é benéfica. Hoje, crianças (e adultos) fazem multitarefas: TV mais celular ao mesmo tempo, focados em nada direito.
Meu irmão ensina as meninas a usar emulador de DOS: instalar o Lemmings, digitar CD LEMMINGS, depois LEMMINGS (case-sensitive, com dois M). Sem auto-save — tem que anotar o código do nível num papel para continuar depois. Isso cria ritual, cerimônia, compreensão da progressão. Jogos mobile, ao contrário, têm continues infinitos, monetização constante, propaganda do próximo jogo, meio eterno sem começo nem fim.
A cerimônia importa: assistir um filme do início ao fim sem pular, entender os créditos como o “fim” da obra, não interromper para procurar o nome do ator no Twitter. No estudo, é igual: não dá para aprender com profundidade em vídeos de 2 minutos. Precisa de imersão — sentar, ouvir, anotar à mão, resumir, discutir.
Crianças precisam experimentar tédio para construir capacidade de foco. Telas eliminam o tédio instantaneamente. Conteúdo longo — livros, filmes, cursos completos — exige atenção sustentada que atrofia sem prática. A solução que estamos experimentando: reduzir telas portáteis, manter telas fixas, ensinar tecnologia antiga (comandos de DOS, VHS com rebobinar manual) para criar fricção intencional que constrói atenção.