Conway, empatia e IA — Hipsters 390

Quarto episódio anual de reflexões — sobre como a cultura das empresas se reflete no código, a solidão digital, liderança por concordância, os riscos da empatia artificial e o som das cidades.

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Lady Conway e os becos japoneses

A Lei de Conway, lá da década de 60, diz que uma empresa vai reproduzir suas estruturas de comunicação no software que produz. Se os departamentos são rígidos e isolados, o código terá camadas distantes. Se tudo é bagunçado e todo mundo tem acesso a tudo, sai um monolito espaguete.

Faço uma associação com os yokochō de Tóquio — aquelas vielas estreitas, lotadas de barzinhos e restaurantes minúsculos com neon cyberpunk. Descobri pelo canal do Baka Gaijin no YouTube que essas vielas proliferaram durante a ocupação americana pós-Segunda Guerra: caminhos para transitar mercadorias numa época de escassez, que viraram mercadinhos, que viraram a cara da cidade. A função da rua passou a representar como as pessoas viviam.

O mesmo acontece nas comunidades brasileiras: vielas que sobem montanhas de forma torta, com mercearia colada no borracheiro, tudo muito apertado — funcional para o que era possível. Quando você olha seu código e vê quem chama quem, qual microserviço se conecta a qual, está fazendo uma arqueologia de como as pessoas daquela empresa conversavam.

A mensagem é: preocupe-se com comunicação e cultura. O software vai refletir isso — não só em produtividade, mas em capacidade de evoluir e atender uma diversidade de usuários.

A importância de sair de casa

Scott Galloway, professor de Nova York, mostra no livro Adrift gráficos assustadores sobre solidão nos EUA: mais de 20% das pessoas têm um ou nenhum amigo, contra 3% trinta anos atrás. Redes sociais e comunicação por celular não criaram mais laços — criaram menos.

Meu mecanismo de produtividade é ir de café em café: preciso terminar esta tarefa porque às 15h saio para a próxima reunião do outro lado da cidade. Trabalho de museus, da FIAP, de casa de amigos. Mudar de ambiente e começar uma nova tarefa funciona muito bem para mim.

A conversa, a negociação, chegar a um consenso — isso não é burocracia, é parte essencial do trabalho. E fazer isso sempre com câmera desligada no Zoom não é o formato ótimo. Galloway fala que suas chances de sucesso profissional e romântico aumentam com sair de casa. Ele manda os filhos cumprimentarem estranhos na fila do café para exercitar empatia.

Sobre rancores no trabalho: a maioria das situações que vivemos pode ser ressignificada. Alguém fez algo quatro anos atrás e você ainda lembra? Eu nem lembro, verdadeiramente. Perdoar, ligar a câmera, sair do home office — faz diferença.

Liderança: do disagree ao agree and commit

Quando você lidera, o peso da sua palavra é maior do que gostaria. As pessoas recortam frases — não por maldade, mas porque aquilo as atinge.

Disagree and commit é uma expressão clássica: discordo, mas já debatemos, vamos em frente. O que percebo é que, com times muito seniores, fica cada vez mais difícil chegar a um acordo — e cada vez mais frequente o desacordo.

Minha provocação: busque o agree and commit. Quando duas pessoas muito inteligentes têm opiniões antagônicas, muitas vezes há uma interseção que ambas reconhecem. O papel do líder é encontrar esse ponto. Para isso, é preciso parar e pensar antes de falar. Meu pai, quando eu mando uma pergunta, responde: “Vou pensar e depois te respondo.” Quantas pessoas fazem isso no trabalho?

IA, empatia e os estúdios Ghibli

Os assistentes vão embutir LLMs. A Siri, a Alexa, todos. Imagine um alto-falante que te entende perfeitamente, é empático, nunca discorda de forma forte, sabe seu tom, suas preferências, seu Spotify, seus jogos da Steam. Um coleguismo perfeito, não invasivo.

O perigo: qualquer conversa com outra pessoa real vai parecer frustrante, porque ninguém te conhece como aquele alto-falante. Como no filme Her. O exercício de empatia diminui — e empatia é o que nos permite ouvir o choro de uma criança e ser atingido por aquilo. Nos filmes do Studio Ghibli, como O Serviço de Entregas da Kiki, quando um menino está em perigo, a cidade inteira para. Esse instinto coletivo de proteção está sendo corroído.

As redes sociais já fazem isso: te mostram só o que você gosta, te radicalizam num ponto de vista. Somos ratos num laboratório sendo testados com recompensas de dopamina cada vez mais curtas. LLMs podem amplificar esse efeito.

Mas sou entusiasta no lado científico: LLMs cruzando papers de Dinamarca, Brasil, Japão e Canadá, propondo novas pesquisas. Isso já está começando a acontecer. O que precisamos é direcionar esse poder.

Podcasters e o som da cidade

O filme C’mon C’mon (A24), com Joaquin Phoenix, mostra um entrevistador de rádio que grava sons da cidade e podcasts com crianças. Me identifiquei: também gravo minhas filhas quando leio histórias pra elas ou quando brincam sozinhas.

Tentei gravar um podcast-piloto andando por São Paulo — pílulas de reflexão com o som da cidade ao fundo. Não consegui fazer acontecer. É mais um projeto que voltou para a gaveta — e está tudo bem. Mas a ideia permanece: o som da cidade é o som da troca entre pessoas, do ritmo, das lojas, dos passos. Pelo som, você entende como as pessoas colaboram — a Lei de Conway das ruas.

UX, Pix e a experiência como diferencial

Abri o Uber em vez do Waze para saber como dirigir — o hábito de chamar carro sobrepôs o de pedir direção. Quando a experiência é sem fricção, vira reflexo.

O Pix é o caso emblemático: juntar bancos, instituições e empresas para criar um sistema instantâneo, sem fricção, desde a pessoa no farol vendendo chiclete até grandes transações. A arquitetura pode ser incrível, mas sem experiência acessível, não adiantaria. Parabéns a todos os envolvidos.

Antes dos anos 2000, a métrica de orgulho era requests por milissegundo. Hoje, métricas de page speed e tamanho de app são compreensíveis por qualquer pessoa leiga. Se uma app abre em 1,5 segundo contra 10 segundos, a diferença é sentida imediatamente — sem tecnicismo. Quando uma fintech disrupta alguma coisa, quase sempre foi a experiência que mudou.