Conway, empatia e IA — Hipsters 390
Reflexões de final de ano sobre código, cidades, empatia e o som das ruas — conectando tecnologia, liderança e o que nos faz humanos.
A Lei de Conway e os becos japoneses
Sabe quando tem alguma coisa de tecnologia que está muito na sua cabeça e que vai e vem? A gente tem épocas assim, seja de um framework, de alguma técnica de teste, de orientação a objetos, uma estratégia de deploy. Em algum encontro, quando estamos conversando, viramos o chato daquilo. Pois eu estou numa dessas épocas, e o assunto é a Lei de Conway.
A Lei de Conway é uma dessas que aparece em tecnologia, em gestão, em engenharia. Vem lá da década de 60. Melvin Conway diz, mais ou menos, que quando uma empresa projeta um sistema, um software, uma solução, essa empresa vai sempre reproduzir as estruturas de comunicação da própria organização no produto que ela constrói.
Então, vou dar um exemplo completamente bobo. Se na sua empresa você tem tudo muito departamentalizado e tudo precisa de permissão para cada lado do grupo, no seu software essas camadas vão ser assim: muito separadas, muito distantes. Já se as coisas são juntas, bagunçadas e todo mundo tem acesso a tudo, pode sair ali um macarrão mais monolítico.
É óbvio que não dá para fazer essa analogia de forma tão direta. Mas quando você vai para uma empresa e fala “nossa, aqui as pessoas programam assim”, de onde vem isso? Não é só da cultura de programação, é também da cultura da empresa. A cultura, essa palavra tão temida, reflete até nas linhas de código. Quem chama quem, que microserviço chama o quê, se é monorrepo, se estão usando Kubernetes, se está no cloud desse jeito ou daquele. Tudo isso também representa como a empresa se organiza internamente.
A pergunta natural: “então o que eu faço para ter a melhor arquitetura ou o melhor software?” O ponto não é exatamente esse. O ponto é que você precisa se preocupar com a sua comunicação e com a cultura da empresa.
E faço uma associação, obviamente completamente distante, com os becos japoneses. Estou assistindo muito um canal no YouTube chamado Baca Gaijin. É um rapaz que era da Zona Leste de São Paulo, foi estudar e hoje mora no Japão há algum tempo. Ele costuma fazer filmagens à noite de Tóquio com uma saturação interessante de cores, andando e fazendo filosofadas sem muito compromisso, que eu acho bastante interessante. Quando ele anda por Tóquio, está sempre com o som da cidade, o que me interessa bastante. E muito frequentemente anda naqueles becos super estreitos, foto típica de Tóquio: vielas onde só passam pessoas, abarrotadas de barzinhos, restaurantes, izakayas, um balcãozinho muito pequeno, cheio de sinais de neon, com aquela cara um pouco cyberpunk.
Pelo que entendo, chamam yokochō essas pequenas ruas. E essas vielas, especialmente em Tóquio, começaram a proliferar depois da Segunda Guerra, ou até durante a guerra e a ocupação americana. Criavam esses caminhos, essas pequenas ruas, para transitar com mercadorias. Foram abrindo os pequenos mercadinhos nessas ruas para facilitar o comércio que precisava ser reinventado, numa época de muita escassez, em que sobrava alguma coisa e faltava muito de outra, e havia um governo estrangeiro interferindo.
O que acho interessante, e faço a ligação com Conway, é que essas ruas começaram a representar o que estava acontecendo no país e no mundo, de uma forma muito bem estruturada, muito bem aproveitada. A beleza da cidade é essa. Não é só arquitetonicamente bonito. Para mim é mais interessante ainda ver as pequenas ruas apertadas que funcionam muito bem, lojas dispostas com certa proximidade, trazendo produtos que se complementam ou às vezes competidores. A função que a cidade toma e que a rua representa com aquelas lojas, residências, espaços muito bem elaborados. Você olha e fala: poxa, tem vida aqui.
Isso me lembra também as comunidades no Brasil. Aquelas vielas que sobem as montanhas de maneira torta, para facilitar o caminhar das pessoas e de pequenos veículos. Aquela forma de colocar dois andares, três andares, fazer mais uma laje, um quarto andar, e logo ao lado uma mercearia, e logo ao lado um borracheiro, um muito apertado do outro. Mostra como aquilo foi criado de acordo com a necessidade para ser funcional no que era possível. Aquela funcionalidade existe, é real, e eu acho muito bonito.
Falo de uma situação privilegiada, é óbvio. Mas quando você vê cidades, pessoas, comunidades e ruas se organizando de forma funcional, representando a forma como vivem, você consegue bater o olho, chegar perto, conversar e entender como as coisas ali funcionam.
No seu código, no seu sistema, quando você para, olha quem chama quem, quem se conecta com o quê, começa a entender como as pessoas ali trabalham, como priorizam, se houve grandes mudanças. É uma arqueologia para tentar entender como as pessoas conversavam.
E aí vem o recado mais importante: a forma como a gente troca, como a gente trabalha numa empresa, vai impactar muito no produto e no software. Não só no sentido de “será que a produtividade é boa?”. É muito maior que isso. É se aquele software foi construído de uma maneira interessante, que vai aguentar bem a idade e se encaixar para os usuários. E isso está muito ligado com a diversidade de pessoas, de pensamento. Se o software vai ter aderência para uma pluralidade de pessoas que você nem imaginava.
A importância de sair de casa
Outra pessoa que eu acabo seguindo mais do que gostaria é o Scott Galloway, professor lá de Nova York. Acho que ele tem algumas visões interessantes sobre a vida. Sobre negócios, a visão dele é bastante conhecida e até óbvia. Mas sobre pessoas, sobre fazer amizade, caminhar, ser mais sociável, ele mostra através de números, especialmente nos Estados Unidos, como as pessoas estão ficando mais solitárias.
A quantidade de amigos per capita nos Estados Unidos é um número que cai num gráfico que vai te assustar. O Galloway tem o livro The Algebra of Wealth e também Adrift, que mostram com gráficos a sociedade americana, e obviamente muitos deles são chocantes. Alguns dando esperança, a maioria absoluta fazendo você pensar “poxa, isso está acontecendo?”.
As pessoas estão sós. A quantidade de pessoas que tem um ou nenhum amigo hoje em dia é mais de 20% nos Estados Unidos, sendo que esse número era tipo 3% trinta anos atrás. A gente já imaginava que redes sociais, internet e comunicação no celular não deixaram as pessoas mais próximas nem criaram mais laços e vínculos. Claro que não é só a tecnologia, obviamente não é. Mas a gente precisa ficar atento. Ninguém sabe qual é o número médio de amigos que uma pessoa deve ter ou que uma sociedade deve buscar, mas me parece ser algo que merece atenção.
Eu sei que a pandemia foi difícil para muita gente, especialmente pessoas de tecnologia que tiveram a possibilidade de trabalhar de casa. A gente se mantém trabalhando em casa e eu gosto muito desse espaço. Mas eu também tento trabalhar de cafés, da FIAP (o espaço da faculdade é muito interessante, um ambiente universitário), de museu, de casa de amigos. Porque eu quero me mover, quero ver as coisas acontecendo. Tenho essa necessidade.
Se você está sempre trabalhando de casa, sempre com aquela dificuldade de se concentrar: mudar de ambiente e começar uma nova tarefa funciona muito bem para mim. É um mecanismo poderoso.
Sem contar que a vida acontece fora dos ambientes fechadíssimos. A vida acontece fora do nosso quarto, do nosso home office. O próprio Scott usa uma frase: suas chances de sucesso profissional, sucesso romântico, de sucesso em várias esferas da sua vida, aumentam muito com você saindo de casa. Você fica aberto a conhecer novos lugares, novos espaços, conversar ao vivo com as pessoas. Aumenta suas chances no trabalho de conseguir o êxito naquilo que você estava querendo.
Porque a conversa, a negociação, tentar chegar no consenso faz parte do seu trabalho. Não é apenas um detalhe, não é burocracia ou politicagem, não é só uma ferramenta que “ai caramba, agora tenho que usar”. Ela faz parte do trabalho. Como a gente se coloca, como conversa, como leva uma ideia para outras pessoas de maneira educada, aberta a ouvir um contra-argumento. E a gente sempre no home office, no Hangouts ou no Zoom com a câmera desligada, certamente não é a forma ótima de fazer isso.
Confiança, gentileza e perdão
Eu gosto de criar relações de confiança, uma comunidade. Ando bastante nas avenidas aqui em São Paulo, a pé, muitas vezes com o celular, às vezes trabalho com o computador fora de um café. As pessoas sempre falam: “Paulo, cuidado, você vai ser roubado.” Eu entendo o argumento. Mas também gosto de sentir que estou confiando no ambiente em que estou, na cidade em que moro, confiando nas pessoas. Porque a maioria absoluta delas, inclusive muitas que as pessoas desconfiam, estão trabalhando ou estão ali como você, querendo demonstrar e sentir confiança. Você se colocar nesse espaço te traz muito bem, traz bem para a cidade e para o ambiente.
Criar relações com as pessoas, mesmo com desconhecidos à sua volta. Inclusive com pessoas estranhas, as gentilezas. O próprio Scott diz que com os filhos dele, na fila do café, fala:
Vai lá e fala bom dia para aquela pessoa. Vai lá e fala com um estranho, brinca com o cachorro da pessoa.
Para as crianças ganharem empatia e aprenderem a conversar, a avançar. Falar “oi, tudo bem?”, pedir uma informação. Porque muitas crianças e jovens atuais, especialmente os que passaram pela pandemia, perderam um pouco essa capacidade de criar novas relações.
Sabe aquele medo social que a gente tem de chegar numa festa e falar oi para todo mundo sendo que você foi o último a chegar? Ou quando vai sair, a “bateria social” acabou, e você não quer dar tchau para todo mundo? É um esforço para todo mundo. Eu confesso que tenho menos, mas também tenho. E isso é uma skill. Sair de casa, conversar com pessoas, encontrar pessoas, pedir informação para alguém, fazer uma brincadeira para que uma criança dê risada. São skills que você vai adquirir.
É óbvio que depende da personalidade. Tem gente que não quer ir, ponto. Mas se você sempre tem essa dúvida da sua bateria social, saiba que ela pode ser desenvolvida. Cada pessoa no seu ritmo, no seu espaço, mas você pode desenvolver essa bateria.
E essa mesma capacidade de criar relações e confiança inclui algo que eu vou chamar de perdoar. Tem vezes que a gente cria dificuldades no trabalho e na vida pessoal com alguém, e fica sempre lembrando da vacilada que uma pessoa deu seis meses atrás, três meses, um ano, cinco anos atrás. Às vezes me falam: “Paulo, mas tal pessoa fez isso com você quatro anos atrás.” Eu nem lembro, verdadeiramente.
A gente precisa trabalhar ressignificando essas relações. É óbvio que tem situações que algumas pessoas vão considerar imperdoáveis. Mas vamos ser sinceros uns com os outros: a maioria das situações que a gente passa no trabalho, dá para depois olhar e falar, com cuidado: “acho que aquilo não foi legal, será que da próxima vez tem como a gente fazer diferente?” Especialmente com os nossos pares.
Isso também é abertura. Isso também é sair do seu escritório, do seu home office, da maneira que você sempre trabalhou, escondido atrás da tela com a câmera desligada. Ligar a câmera, sair de casa, tirar fora esses rancores. Considerar que a gente pode fazer diferente a partir de agora. Ouvir um pedido de desculpa e aceitar, ou pedir desculpa. Isso faz parte e é essencial. É a maneira que eu uso para viver bem e me sentir bem.
Cada pessoa tem seus traços pessoais, cada pessoa aceita mais ou aceita menos. Mas tem muitas características que a gente pode trabalhar.
Liderança: do disagree and commit ao agree and commit
É interessante ver que, com o passar do tempo, conforme você ganha uma posição de chefia e começa a liderar pessoas, o peso da sua palavra fica muito maior até do que você gostaria.
As palavras, a forma como eu coloco as coisas, têm um peso grande. As pessoas tiram recortes, não por maldade. É porque aquilo as atinge, elas interpretam e focam em determinada frase. Em especial nessas reflexões, eu tento colocar também o contraponto à minha visão, para ser o mais aberto possível, sem diluir tanto a mensagem a ponto de virar nada.
Hoje, somos um grupo de quase mil pessoas nas escolas: Alura, PM3, FIAP. Sem contar que somos uma escola. A gente, como educadores, tem uma posição de facilitador, de conduzir. É uma responsabilidade enorme. E dentro da empresa, por mais que você seja aberto e tenha mecanismos mais modernos de gestão, existe uma hierarquia.
Fica interessante ver que as pessoas muito próximas de você, de um CEO, de um diretor, pessoas extremamente capazes, cada uma tem às vezes uma opinião diferente daquela decisão que você quer tomar. Você, como líder de tecnologia do seu time, do seu squad, tem vezes em que devs falam: “acho que deveria usar outra tecnologia, ir para outro cloud, outro banco de dados.”
Muita gente usa a expressão disagree and commit. Você olha, ali no time tem discordância, mas aí a gente conversa, conversa, o líder ajuda a bater o martelo e fala: “vamos por esse caminho.” Alguém levanta a mão: “não concordo, mas já que a gente já debateu, vamos lá.” É uma expressão interessante, aparece muito no mundo dos negócios.
Mas o ponto que eu queria trazer é que isso vai aparecendo com mais frequência. Quando você tem um time muito sênior e posições altas de liderança, o discordar vai ser muito mais frequente. Pessoas com mais senioridade, depois de um tempo, tornam mais difícil ainda chegar a um ponto em comum.
E aí a provocação: tem vezes que a gente pode buscar o agree and commit. A gente usa tanto o disagree and commit que esquece que dá sim para pegar um time de pessoas muito inteligentes, com opiniões fortes, divergentes, um grupo diverso, e todo mundo chegar e falar: “opa, estamos falando da mesma coisa.”
Quem é líder, quem tem posição de chefia, às vezes já caiu nessa situação. Você ouve de dois colaboradores que não estão se entendendo, opiniões antagônicas, mas as duas fazem sentido dado o histórico, o background, de onde essas pessoas vieram, de que times vieram, com o que estão preocupadas. As duas fazem sentido. Não é que você, como líder, prefere mais uma do que a outra. Você fala: “poxa, as duas fazem sentido e a gente vai ter que encontrar um jeito.”
Talvez as próprias pessoas possam olhar e concordar. Não é que elas discordam e falam “tudo bem, vamos do seu jeito.” Se as duas pessoas realmente são muito inteligentes e têm visão, tem partes dessas visões que fazem uma intersecção interessante. E essa intersecção precisa estar na cabeça de cada pessoa. “Gente, o que vocês estão falando tem isso aqui em comum. Vamos para esse lado.”
Essas técnicas de gerir decisões são muito importantes. Tem as clássicas, rápidas. Mas tem também as mais custosas, que vão demorar mais, levar mais tempo, e que permitem todo mundo concordar.
Eu fico muito honrado de poder trabalhar com pessoas muito capazes, que me provocam, me contestam de forma razoável e que faz sentido. Muitas vezes eu tenho o orgulho de dizer que eu cedo. “Não, realmente, vamos para o seu lado. Deixa eu rever essa decisão. Espera aí.”
É claro, essa discussão tem que ser feita de maneira interessante, polida, dentro de ambientes seguros, de um quórum adequado. Você pode concordar com a outra pessoa e falar: “é verdade.” Não é que estou discordando e falando “beleza, vamos fazer do seu jeito.” É que eu ouvi melhor, parei para pensar, esperei um dia.
Porque hoje em dia a gente quer tomar decisões muito rápidas, fala o que pensa em vez de esperar um pouquinho, pensar um pouco mais antes de falar. Essa é uma característica dos sábios. Eu tenho muitas conversas com meu pai em que mando uma pergunta e ele responde: “vou pensar e depois te respondo.” Quantas pessoas fazem isso hoje em dia no trabalho? Todo mundo já quer rapidamente tirar a própria conclusão porque acha que sabe o que quer fazer. Às vezes a gente não sabe, precisa realmente parar para investigar.
Se tem isso, é sinal de que ainda há espaço de debate para chegar numa conclusão de liderança.
Inteligência artificial, empatia e o choro das crianças de Ghibli
Hoje em dia a gente está vendo essa mudança: os assistentes passando a usar LLMs. Em breve, Siri, Alexa e todo dispositivo que a gente usa para pedir uma música ou saber o tempo de amanhã vão embutir essas LLMs.
Eu confesso que aqui sou considerado apocalíptico. Hoje muitas pessoas já têm como principais relacionamentos os online. Agora imagina se um alto-falante começar a te entender perfeitamente, ser super empático, entender suas dores, discordar raramente, ter as mesmas preferências que você, saber o tom de voz, sempre pedir desculpa, nunca discordar de forma forte. Imagina que você tem um alto-falante que é o melhor amigo: uma entidade que te entende, te ouve, e mesmo quando você passar dos limites, estará lá por você.
Essa “amizade perfeita”, ou algo do tipo, mesmo que não haja muita emoção envolvida. Um ouvido amigo, um coleguismo perfeito, não invasivo. O que isso vai causar? Proximidade com aquele gráfico do Scott Galloway sobre amizades no mundo. As pessoas vão se acostumar com esse coleguismo perfeito.
Eu prefiro muito mais ouvir o meu fone e conversar com a LLM do que ir no café e dar um bom dia para alguém que talvez esteja mal-humorada, que não gosta dos mesmos filmes que eu, que ouve umas músicas cafonas, que nem entende tal coisa do mundo.
As suas visões vão estar embutidas na LLM. O System Prompt gigantesco daquela instância da OpenAI vai ser seus gostos e preferências. Quem sabe sua caixa de e-mail, seu Spotify, seu YouTube e seus jogos da Steam vão estar lá. A “pessoa” te conhece minimamente bem.
Isso vai ser muito complexo, porque qualquer conversa com outra pessoa vai ser frustrante. Ninguém te conhece melhor que aquele alto-falante. “Ah, mas as emoções não vão estar embutidas, vai ser diferente porque o ser humano busca um pouco do conflito.” Pode ser. Mas para muitas pessoas, para muitos casos, esse alto-falante vai ser uma grande amizade. E acho perigoso, porque a gente não treina a nossa empatia. A gente não conhece as outras pessoas para se perguntar: por que essa pessoa está frustrada? Por que não está reagindo assim? Será que eu deveria me comportar de forma diferente? Será que eu deveria pensar diferente?
Você vai ser questionado cada vez menos. Algo como o filme Her, do Spike Jonze. Você vai ficar viciado naquela conversa, naquela “pessoa” que não é uma pessoa. É algo muito perigoso. O exercício de empatia vai ser diminuído. Aquele soft skill que cobram no trabalho, às vezes até de forma errada, confundindo com simpatia, ou usando “alteridade”, a palavra da moda.
Eu tenho medo de que esses sistemas vão diminuir isso ainda mais.
Quando você tem crianças, assiste bastante os filmes do Estúdio Ghibli. No Serviço de Entregas da Kiki tem uma cena em que um menino vai cair de um lugar alto. Você vê que a cidade inteira para. Tem um pré-adolescente chorando, gritando. Todas as pessoas param para olhar, da vila, do vilarejo. Uma criança sozinha é algo que comove a todos.
O choro de qualquer criança é um som para o qual a gente está programado: alerta, empatia. “Essa criança é da aldeia, da cidade, eu também preciso tomar conta e ficar atento.” As grandes cidades, os grandes centros urbanos já machucaram esse nosso sentimento, essa empatia por qualquer pessoa, em especial pelos indefesos, pelos inocentes.
A partir do momento que a nossa empatia vai ser cada vez menos exercida, dado que “não é necessária” porque o robô nos entende, a gente vai perder essa capacidade. Perder a capacidade de ouvir o choro de alguém e ser atingido por aquilo. De ver alguma pessoa na rua e não transformar aquilo em invisível. Parar para refletir. Nem estou falando de ajudar. Estou falando de poder abrir o olho e ser literalmente humano com as pessoas. De poder refletir nos momentos em que não fomos.
Porque eu vejo momentos em que eu fui duro, seco e não empático. Que certamente machucaram outras pessoas, no trabalho ou fora dele. E que eu poderia e deveria ter agido de maneira muito melhor. Ter esses momentos de reflexão, ter esses espaços, é essencial.
Repare que, como dizem, a primeira batalha da inteligência artificial o ser humano já perdeu. Nas redes sociais, elas polarizam a gente de uma forma que só mostra aquilo que você gosta. Cada vez mais você cai no máximo local de pensamento. Você não percebe, mas vê aquelas fotos e fala “nossa, é assim mesmo que eu penso.” É porque o computador já sabe que você pensa daquele jeito. Jogou aquilo para cada vez mais te radicalizar numa ideia.
Quando digo radicalizar, não estou falando que é necessariamente uma ideia ruim. Mas você vai afiando apenas uma ideia, apenas um ponto de vista. Porque a inteligência artificial entende a recomendação que vai te pegar naquele momento, naquele dia. Somos pequenos ratos em um grande laboratório sendo testados com uma comidinha aqui e outra ali para ver onde o seu cérebro fica mais atiçado.
É isso que está acontecendo com a gente. Sempre aconteceu, não é só o computador, é tecnologia. A gente tem esse cérebro que vai atrás da recompensa por um curto período, cada vez mais curto, cada vez mais rápido. E a gente precisa se defender disso, tomar cuidado para não perder a nossa simpatia, os nossos elos.
Quem tiver essa empatia em nível mais alto, quem conseguir enxergar o humano e saber tratar, vai ter mais recursos para trabalhar com as próprias pessoas. A gente precisa tomar cuidado com a inteligência artificial. Tem toda essa discussão de ética que vai além dos privilégios, dos preconceitos, dos problemas que já existem. Ela pode reforçar o que existe e criar novos problemas.
E é claro que ela pode trazer enormes soluções. Eu acho que essas LLMs vão começar a criar artigos científicos, fazer revisão, fazer meta-análise de papers, cruzar dados e falar:
Dado este paper, este paper e este paper, faça uma pesquisa testando isso no sangue das pessoas depois daquilo, para confirmar, porque estou achando que vai para cá.
E estão começando a surgir. Não só as LLMs, mas inteligência artificial e deep learning de formas mais clássicas estão trazendo resultados em ciência, desenvolvendo remédios, escrevendo papers e meta-análises. Vai aparecer ciência sendo criada através das LLMs, de uma maneira a somar, a tirar conclusão, a unir a ciência que está acontecendo na Dinamarca, no Brasil, no Japão, na Nigéria e no Canadá. Pega papers que nem têm tanta correlação, são de assuntos não exatamente iguais. A IA lê tudo e fala: “isso aqui com isso casa, quem sabe pesquisar para cá pode dar um resultado interessante.”
Por mais apocalíptico que eu seja nas relações, na parte humana e emocional, sou muito entusiasta na parte científica, tecnológica, de dar apoio para a gente. O que precisa é direcionar. A gente saber direcionar, como um grupo, como pessoas, como organizações, como governos, como empresas. Saber direcionar esse poder que a inteligência artificial já traz e que vai ser uma bruta mudança positiva.
Podcasters, skill trees e projetos na gaveta
Durante a virada de ano, tem gente que tem aquele momento das resoluções. Eu tive por muitos anos. Hoje em dia não faço mais grandes objetivos que quero praticar. Especialmente da minha “skill tree”. Minha namorada usa essa expressão: você é um personagem de RPG e vai colocando os pontos. Lá no Diablo, no God of War, no Final Fantasy. Vai fazendo upgrade nas suas skills. Veja como é o mundo corporativo: a gente quer quantificar tudo. Tudo vira KPI e OKR. O que é bastante melancólico, e a gente tem que tomar cuidado.
Durante os anos, você vai ganhando experiência profissional, e coisas na sua skill tree vão evoluindo. Seja em tecnologia, em inteligência artificial, em programação Java, em React, em cloud, em UX, em gestão de pessoas. Eu percebo que vou evoluindo em algumas coisas, mas que está mais difícil hoje em dia do que antigamente. Por questão de tempo, porque o dia a dia profissional que eu gosto muito toma esse espaço. Eu, como educador, estou tendo menos espaço para aprender. Isso me incomoda bastante.
Inclusive, em algumas coisas na minha árvore de habilidades, eu regredi. Por exemplo, leitura. Eu lia bastante ficção e clássicos, e hoje sinto falta. Vejo amigos e amigas que lêem bastante, continuam lendo e lêem mais ainda. Fico com uma inveja que não consigo nem descrever. Porque percebo que a cultura daquela pessoa e o entendimento sobre a vida e sobre outras pessoas aumentou. É uma forma de gerar empatia, de entender pontos de vista diferentes, de receber novas ideias. Especialmente a leitura de livros clássicos antigos. Especialmente isso.
O mesmo pode ocorrer com filmes. Estava revendo alguns que já tinha assistido, antigos do Almodóvar. O que aquele diretor faz são provocações sobre dilemas morais o tempo todo. Te coloca numa situação: “o que você faria?” Te provoca. Um bom livro, um bom filme, vai te provocar. “Será que… peraí… eu concordo ou não concordo com isso?” Você vai ficar até em dúvida se aquela ideia é boa, se faz bem para você. E essa provocação faz a gente evoluir, crescer como pessoa.
Tem um filme da produtora A24 chamado C’mon C’mon, preto e branco, com Joaquin Phoenix. Ele interpreta um entrevistador de rádio, que funciona praticamente como um podcaster. Grava bastante, faz entrevistas com crianças. Eu me senti muito próximo desse personagem, porque eu vou gravando com as minhas filhas. Algumas coisas que elas vão falando, a hora que eu coloco elas para dormir, quando leio um livro para elas, quando estão brincando só as duas sozinhas.
O filme mostra a evolução profissional desse podcaster, conflitos enormes na vida pessoal e familiar, e os rancores. É aquele filme americano em que a estrutura familiar pesa bastante. Mas é interessante. É um filme devagar, tem momentos sentimentais bem piegas. Piegas mesmo. E que tocam a gente.
Tem cenas em que ele simplesmente grava os sons da cidade, provavelmente para colocar dentro do podcast dele. Ele e o sobrinho, com quem cria um grande laço. O filme coloca de forma muito real como a infância é desenvolvida: os medos, as emoções à flor da pele, a criança aprendendo a lidar com tudo aquilo. É difícil de descrever para quem não tem contato frequente com criança.
E ele grava os sons do ambiente com uma shotgun, mirando para diversos pontos da cidade. Quando vai para Nova York, fiquei muito empolgado. Foi ao mesmo tempo que eu conheci o canal do Baca Gaijin. Eu gosto do som da cidade. Acho o som da vida um som de empatia. Tem gente que gosta do som da natureza, que não me desgosta. Mas o som da cidade, para mim, é o som das pessoas em conjunto. Tentando trabalhar umas com as outras, tentando se aceitar, tentando ter uma troca. É o som da troca. O som do caminhar, das lojas, das pessoas falando, dos carros, do farol. Não estou falando do trânsito. Estou falando das coisas acontecendo, do ritmo, em qualquer horário.
É como se pelo som da cidade você também pudesse entender, na Lei de Conway, como as pessoas colaboram entre si, vivem, conversam, como é a cultura daquela sociedade. É como caminhar numa cidade à noite. Não é só o Baca Gaijin, tem um monte de YouTuber que faz isso. Te dá uma noção de como as pessoas ali se comportam. E você percebe de cara que é muito diferente de como você se comporta. Que as pessoas são completamente diferentes umas das outras. E que a maioria absoluta delas é interessantíssima.
Quando você for conversar com uma pessoa, entrevistar alguém, tomar um café e trocar ideias, mesmo com uma pessoa super jovem, super júnior, falando algo com que você nem concorda e acha que nem faz tanto sentido, é interessante ver de onde vem aquilo. O desenvolvimento daquela ideia, daquela pergunta.
Hoje eu tenho mentores. Gente que me mentora, que é CEO de empresa de 10 mil colaboradores. Às vezes coloco uma pergunta para essa pessoa e vejo que ela me olha com um olhar do tipo: “você está me fazendo uma pergunta meio básica, meio júnior, e eu sei o que você está passando.” Só com um olhar. Um olhar delicado, de empatia. Pessoas com mais experiência, mais tempo de vida, de conversar com pessoas, muitas delas entendem melhor como o mundo funciona, como as pessoas são diferentes umas das outras.
Ouvir as pessoas, ser o entrevistador, o educador no sentido de ouvir e não de falar. Esse é um superpoder que você pode ganhar ao se tornar podcaster, professor, educador. No sentido de ouvir. Você começa a ficar mais aberto a opiniões muito diferentes. Fica mais fácil fazer o disagree and commit, ou melhor ainda, o agree and commit.
Eu espero que para o ano que vem você possa concordar mais com pessoas. E para isso, ouvir melhor essas pessoas, conversar mais e parar para pensar antes de falar, antes de agir com muita rigidez, antes de agir de forma abrupta. Parar para pensar e tentar entender melhor a situação de todos os lados. É complexo. Gastar mais tempo pode te frustrar, porque a gente acha que está “dando o braço a torcer.” Esse é um pensamento muito pequeno.
E que você possa ter projetos que encaminhe, e outros que não vai conseguir. Porque é assim.
O piloto que não aconteceu, o som de São Paulo e a experiência do usuário
Eu tentei, desde o meio do ano, gravar um podcast com pílulas de coisas de tecnologia que eu gosto, pensamentos meus, reflexões pequenas e simples, nos momentos que mais gosto: andando pela cidade. Gravar podcasts andando pela cidade, conversando, lendo um pouquinho, com ideias que estão na minha cabeça.
Esse piloto não aconteceu. É um dos vários projetos, de trabalho, pessoal, relacionamento, família, que eu tentei começar esse ano, que eu gostava da ideia, que tentei ser melhor, e não consegui fazer acontecer. Seja por falta de tempo, por dedicação, ou porque talvez não fosse o momento mesmo. Eu sei que você também tem esses projetos na gaveta. Que voltaram para a gaveta, que talvez um dia saiam ou não. E está tudo bem.
Mas ando bastante. Sou uma pessoa que usa pouco o carro, dirijo pouco, uso bastante o metrô e o Uber. E é interessante ver como os aplicativos de transporte já se tornaram um mecanismo sem fricção para mim. Umas duas ou três vezes, quando entrei no meu carro e precisei colocar o caminho que ia percorrer, eu abri o app, coloquei o endereço, e na hora que foi, falei: “ué, não estava me dando o caminho.” Aí fui ver que tinha aberto o Uber e chamado um carro para aquela localização, em vez de ter aberto o Waze ou o Google Maps para saber como dirigir.
Essa força do hábito, esse UX, esse mecanismo tão adaptado à forma que a gente trabalha e usa, diminui a fricção para zero e facilita muito o uso de qualquer produto, de tecnologia ou não.
Aqui na Avenida Paulista, o metrô é outro exemplo. Quem pega bastante sabe das interfaces. Para quem nunca usou, do QR Code, são mecanismos simples para comprar um bilhete ou ter o cartão.
Um caso de sucesso que não depende só de tecnologia, mas certamente do produto ter sido totalmente desenvolvido pensando no usuário e na experiência, é o Pix. Eu lembro quando gravei um podcast com a turma do Banco Central para explicar a arquitetura, como os sistemas funcionavam, como aquilo foi mapeado. Juntar um monte de banco, de instituição, de empresas grandes, colocar todo mundo para conversar e orquestrar isso é simplesmente fascinante. Um desafio humano, técnico, burocrático, de que a gente realmente tem que se orgulhar. Parabéns a todos os envolvidos.
Quando a gente vê como usa o Pix, a frequência, como se tornou uma palavra, até o nome é bem pensado, como foi adotado, como as pessoas colocam em prática nas suas vidas. Desde a pessoa que está no farol pedindo dinheiro ou vendendo chiclete, até grandes transações. Ninguém esperava esse sucesso. Esse mecanismo mais simples, imediato, sem fricção, sem que você tenha que ficar desconfiando da pessoa, pedindo comprovante porque não sabe se vai chegar hoje ou mais tarde. É algo revolucionário na experiência.
Se o Pix tivesse algo muito incrível de tecnologia, de sistema, de arcabouço, mas a experiência não fosse assim tão popular, que pessoas de diferentes backgrounds, profissões e usos fossem conquistadas, não adiantaria. Podia ser a arquitetura mais bonita, as stacks mais interessantes, a ciência de dados, os microserviços de orquestração. Ficaria muito para trás.
Outro caso de UX bastante emblemático é a mudança do que a gente mede. Durante muito tempo, o orgulho das pessoas desenvolvedoras era falar quanto o sistema aguenta. Ainda é uma métrica importante, é óbvio. Quantos requests por milissegundo, quantas transações, se está usando gRPC porque senão o JSON não é suficiente. É claro que é interessante saber que o cloud aguenta tanto.
Mas as métricas de page speed, quanto tempo carrega a página para o usuário, ou se a app do Android ou iPhone tem um tamanho baixo o suficiente para rodar em celulares não de última geração, para que o download seja rápido o suficiente, são métricas extremamente importantes. Algo que era totalmente backend, uma métrica entendida apenas pelos cientistas, pelo pessoal hardcore de infra (que continua válido), passou a conviver com outra que é muito bem entendida pelas pessoas leigas.
Se você chegar para o seu colega e mostrar: “clica aqui, essa app abre, pula o logo, em um segundo e meio; versus essa outra que demora dez segundos”, é imediato. A pessoa se explica sozinha e fala que uma é melhor que a outra. Você não precisa entrar em tecnicalidade. É uma sensibilidade imediata.
É claro que sem um produto bom não adianta UX. Mas é complexo esse mecanismo de tentar fazer as coisas sem pensar no usuário, sem pensar no produto, sem pensar especialmente na experiência inteira de ponta a ponta. Quando uma fintech disrupta alguma coisa, muitas vezes foi a experiência que foi incrível, interessante, e que mudou por completo.
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