Universo, nerds e o Pikachu do jokenpô — Hipsters 337

Terceiro episódio anual de reflexões — seis histórias sobre os limites do conhecimento, a origem da vida, o espírito nerd, o valor dos convites, o amor por São Paulo e brincadeiras de criança que ninguém sabe de onde vieram.

Ouça no Spotify

Coração, conhecimento e universo

Quando estudei biologia no colégio, encarei tudo como verdade absoluta: sistema circulatório, hemoglobina, DNA. Só na faculdade entendi que aquilo era o que a ciência conhecia até aquele momento. Ninguém sabe exatamente como o corpo humano funciona — estamos em processo de descoberta e provavelmente nunca chegaremos à totalidade.

O Maurício Aniche, fundador da Alura, me indicou o livro The Youngest Science de Lewis Thomas, que mostra como a medicina até 100 anos atrás era cheia de elixires e “senso comum” que prejudicava pacientes. A medicina se tornou ciência com métodos, testes e planejamento — algo que vimos de perto durante a pandemia.

Pense em Edwin Hubble: até os anos 1920, achávamos que o universo era a Via Láctea — 100 bilhões de estrelas. Hubble mostrou que cada “nébula” era outra galáxia. O universo era maior do que imaginávamos por um fator de 100 bilhões. Da noite para o dia, tudo que ensinavam nas escolas estava errado por uma magnitude avassaladora.

A computação é uma ciência ainda mais jovem que a medicina. Desenvolvemos software falando de design patterns, encapsulamento, Clean Code, testes. Daqui a 10 anos podemos descobrir que parte do que fazemos hoje é uma grande bobagem — que existem mecanismos assustadoramente melhores para manutenção, legibilidade e segurança. Esse questionamento é saudável: o que fazemos como profissionais pode ser feito muito melhor.

Universo, vida e encantamento

A notícia científica que mais me impactou em 2022 veio de Jeremy England, físico do MIT. Sua teoria propõe que seres vivos — de bactérias a mamíferos — são mecanismos que capturam e dissipam energia do ambiente de forma mais eficiente. E que a matéria, desde o Big Bang, tem uma tendência a se rearranjar em configurações que fazem isso melhor. A vida seria a expressão máxima dessa estabilidade termodinâmica.

Se for verdade, a vida não surgiu por acaso — é uma consequência natural da física. É impressionante, e inevitavelmente místico. Alguns jornalistas comparam England com Darwin: Darwin explicou como a vida evolui; England tenta explicar por que ela surge.

Minha filha Elisa, com quatro anos, me surpreendeu num desses momentos noturnos de ler histórias. Começou a perguntar: “Mas o seu pai nasceu de quem? E a avó? E antes da avó?” — a mesma regressão infinita que os cientistas enfrentam sobre a origem de tudo. A pergunta filosófica mais fundamental — por que existe algo e não nada — aparece espontaneamente em crianças de quatro anos.

Fiquei na expectativa das primeiras imagens do Telescópio James Webb. Entrava no site da NASA todo dia procurando novidades. Essa ansiedade por descobertas é o espírito nerd: não se contentar em simplesmente usar algo sem querer entender como funciona.

Nerds, Marvel e videogame

O termo nerd ganhou minha simpatia ao longo dos anos. Comecei a jornada de podcasts dentro do universo do Jovem Nerd e fui reconhecendo minha adolescência nesse estereótipo. Na faculdade, enquanto o pessoal jogava vôlei e truco no centro acadêmico, eu levava o Dreamcast, conectava na TV grande da Atlética e ficava jogando Soul Calibur e Crazy Taxi com o pessoal do fundo da sala.

Nunca fui fã profundo da Marvel ou de Star Wars, confesso. Mas tenho admiração por quem se dedica a fundo: a pessoa que passa meses preparando um cosplay na CCXP, quem aprende Klingon de Star Trek, quem conhece cada detalhe do universo de Tolkien. Essa dedicação profunda a um hobby — ir além de simplesmente praticar e querer entender — é o mesmo motor que faz um bom profissional: curiosidade sustentada ao longo do tempo.

Pessoas, convites e honra

Existe um tipo de pessoa que me fascina: aquela que leva cada convite com absoluta seriedade. Se você diz “vamos tomar um café tal dia”, ela responde “vou sim” — e você sabe, sem mandar confirmação, que ela estará lá. Meu pai é assim. Se alguém o convidar para um casamento no interior de um estado distante, o cérebro dele trava: “Estão me convidando para um casamento. Estou muito honrado.” E ele vai.

Numa época em que a atenção é a moeda mais cara, essas pessoas dedicam presença total. Não é só comparecer — é sentir genuinamente que cada convite é uma honra. A Roberta, o Coutinho, meu pai: quando por algum motivo não conseguem ir, ficam verdadeiramente incomodados.

Essas pessoas são, invariavelmente, dedicadas em tudo que fazem. No trabalho, nos relacionamentos, nos compromissos. É um nível de comprometimento que eu gostaria de ter mais.

São Paulo, resoluções e abandonos

São Paulo é a melhor cidade do mundo. Sim, eu sou parcial. Nasci, cresci e moro aqui. Trabalho de café em café — é meu método Pomodoro: preciso terminar esta tarefa porque às 15h saio daqui para a próxima reunião do outro lado da cidade. A troca de contexto geográfica me força a concluir o que comecei.

Mando vídeos da Avenida Paulista para meus pais: “Olha que bonito o dia, as pessoas indo trabalhar.” Amo a arquitetura que não se encaixa — cada prédio virado de um jeito, sombras onde não deveriam existir, o comércio de bairro se misturando com tudo. Como na primeira estrofe de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa):

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O rio da minha aldeia é São Paulo — o cafezinho da esquina, o padeiro que sabe meu nome, o pastel da feira de sábado. Sobre resoluções de ano novo: tudo bem abandonar algumas. Abrir mão de um objetivo para atacar outro é normal. Não dá para conquistar todos. E a pressão do sucesso — pessoal, profissional — precisa ser aliviada.

Galinhas, jokenpô e Pikachu

As brincadeiras de criança me impressionam. Quem inventou “galinha cocorada”? É o pega-pega em que, para se salvar, você sobe em alguma coisa e fica acocorado imitando uma galinha chocando ovo. Quando consolidou? Quem definiu as regras? Em pleno 2023, com tudo filmado e catalogado, esse registro não existe.

E o Pikachu! Minhas filhas não brincam mais de jokenpô — brincam de Pikachu. É uma melhor de três com uma musiquinha (“pica em cima, pica embaixo, pica de um lado, pica do outro, Pikachu!”) e quem ganha aperta a bochecha do outro. No final, quem vence segura as duas bochechas — que ficam vermelhas, igualzinho as bochechas do Pikachu. É genial. Pesquisei e encontrei no YouTube alguns vídeos de professoras ensinando, com 100, 200 views. Não dá para rastrear a origem.

Ideias eclodem coletivamente. Não é de um lugar só — várias crianças, em vários estados, vão adaptando e melhorando. É o mesmo fenômeno de startups: muita gente tem a mesma ideia ao mesmo tempo porque todos vivem o mesmo problema. A diferença está na execução e na propagação.

Minha filha Olivia ainda inventou uma variação chamada “aloha” — com abraço, tchau e “se encontrando”, onde cada gesto ganha de um e perde para outro, fechando o triângulo como pedra-papel-tesoura. Quando perguntei se ia pegar na escola dela, a Elisa respondeu: “Não, porque eles não conhecem o estilo.” Faz sentido: sem a marca cultural forte (todo mundo conhece Pikachu), a brincadeira não viraliza.