Asimov, Turing e o relógio de Cortázar — Hipsters 285

Reflexões de fim de ano sobre imersão, aprendizagem e tecnologia. Histórias que vão de Asimov ao Waze, de uma freira de 95 anos à poesia de Cortázar.

Predeterminismo, Asimov e Waze

Eu sou uma pessoa muito ruim de assistir séries. Na verdade, nunca gostei, confesso. Acho que fica muito longo, e as séries modernas sempre têm aquele drama, romance, envolvem todos os pontos de uma novela. O ponto principal acaba se perdendo no meio do caminho.

Mas eu acompanhei a primeira temporada da Fundação, baseada nos livros do Asimov, na série gigante que eu nunca li. A única coisa que li do Asimov foi Eu, Robô, há muito tempo, a coletânea de contos. Gostei muito. Mas fui profundamente impactado pela série. Depois fui correr atrás de qual era a diferença para os livros e tal.

Não darei spoiler, apenas o mote. O que acontece: no Império Galáctico de 500 zilhões de pessoas, com o Imperador reinando, um belo dia um matemático cria uma teoria que Asimov chama de psicohistória. Através dessa teoria ele consegue, de certa forma, prever o futuro. Prever o comportamento de grandes massas populacionais. Ele sabe o que vai acontecer daqui a 100, 500, mil anos. Em termos gerais.

Ele não consegue ver a sua vida, a minha vida em particular, o que vai acontecer daqui a 30 anos. Mas em conjunto, pensando os planetas, as pessoas e o movimento de massa, ele consegue dizer com exatidão. É uma provocação científica, matemática, até computacional: de que alguém um dia poderia descobrir uma ciência capaz de prever o futuro da humanidade. Não é o meu futuro, não é o seu futuro. É o futuro da humanidade. Algo complexo. Imagina, considere que isso seria possível. Que um belo dia alguém consiga criar uma ciência assim. Não estou discutindo se dá ou se não dá. É justo a proposição. Se um dia isso for possível, quais são as consequências?

Tudo isso do Asimov bate com muita coisa que eu sempre gostei. Bate com Matrix. Bate com o tal do demônio de Laplace. Laplace fez a seguinte provocação: se alguém me der uma foto do universo no instante de agora, eu consigo ver o próximo instante e o instante anterior. Porque se eu consigo enxergar todos os átomos, moléculas, elétrons, fótons, a posição agora, sua velocidade e sua direção, eu sei qual vai ser o próximo momento. Com isso, todo o futuro seria desvendado.

Mas é interessante que, se fosse assim, Asimov precisaria saber qual é o meu futuro, não só o futuro da humanidade. Eu lembro de conversar com o meu irmão e ele falar: “Ah, furado esse negócio da Fundação. Por que ele só conhece o destino da humanidade, mas não de uma pessoa em particular?” Vi que o Asimov tem argumentos para isso. Ele coloca que essa ciência funciona como o estudo dos gases na física. Os físicos sabem dizer o comportamento da expansão de um gás, de temperatura, de pressão, o que vai acontecer. Mas se você me perguntar sobre uma das moléculas do gás nessa sala, nesse tubo, eu não sei te dizer para onde essa molécula vai. Em conjunto eu sei te dizer se vai explodir, se a pressão vai esquentar. Algumas ciências conseguem ter esse olhar macro sobre os elementos, sobre o que vai acontecer. Não micro. No micro você se perde. Você não consegue ter essa precisão. Pelo menos não por enquanto. Ou talvez nunca.

Então poderia ser possível imaginar. Não é ficção científica deturpada. É impressionante pensar que uma ciência assim poderia existir. Se eu sei qual é o futuro da humanidade daqui a mil anos… Por exemplo, o aquecimento global. Se a gente conseguisse dizer daqui a 100 anos exatamente o que acontece. E meio que é por aí. Alguns desses alertas, de pandemia, de aquecimento, dos grandes problemas, das grandes misérias, são alertas que as pessoas chegam numa conclusão: “Olha, isso aqui vai acontecer assim se a gente não mexer agora.”

A série é muito bem feita, mas tem um monte de romance e tiro. Justo o que eu falei: queria que focasse na ficção científica e no futuro da humanidade. Ela vai um pouco para outras paixões humanas. Mas eu adorei essa provocação. Se você já sabe o que pode estar acontecendo no futuro da sua cidade, seu país, da sua família, porque tem algumas coisas meio óbvias e latentes, por que a gente não age agora? Ou mais ainda: o que a gente pode fazer? Se essas ciências se desenvolverem, imagina onde vamos poder chegar. E os conflitos que teremos. A gente vai obedecer cegamente a ciência? Já que a ciência previu que daqui a 1 milhão e 200 mil anos vai acontecer isso, a gente vai ter que mudar? Parece que sim.

E é curioso, porque eu fico pensando: “Poxa, Paulo, mas seguir às cegas? Eu nunca seguiria nada às cegas.” A gente já faz muitas coisas boas que a ciência, o computador, a inteligência artificial trazem para a gente. A gente já faz às cegas.

Quer ver um exemplo? O exemplo é o nome que dá essa primeira história: o Waze. O Waze é uma ferramenta científica que usa inteligência artificial, modelos estatísticos, para te dizer o melhor caminho, mais rápido, para você chegar em algum lugar. Repare que toda vez que você coloca o endereço no celular, o que você faz depois que o Waze te mandou? Você obedece literalmente o que aquela máquina, o que aquela ciência está produzindo e mandando você ir.

É óbvio que tem casos que você fala: “Não, espera aí, esse caminho aqui é muito ruim.” Ou: “Ixi, agora vi que tem um trânsito aqui que ali não tinha.” Mas 99,9% do tempo a gente segue estritamente a sugestão. Inclusive, se você não tomar cuidado e digitar um endereço meio errado, nome parecido, e o Waze te mandar para o caminho completamente oposto, a gente está obedecendo de uma forma tão automatizada que é capaz de nem perceber. Vai executando aquele caminho errado.

É muito impressionante que hoje a gente já obedece o computador em muitos casos. Não estou querendo assustar. Muito pelo contrário. A gente está tentando usar a tecnologia, a ciência e uma série de outros recursos para que algumas decisões importantes possamos tomar de maneira melhor e mais proveitosa. É interessante ver como a tecnologia já está determinando alguns passos do nosso futuro, como, por exemplo, o caminho que vou fazer para passar as férias e a virada do ano em algum lugar.

Mudanças, idade e passagem do tempo

Eu fui visitar em Santos, esse ano, uma prima do meu pai de 95 anos, que é freira. Desde os 25 ela foi para o convento. Desde os 25 ficou longe da família, da mãe, do pai, em um internato. Ela é da Congregação Internacional das Irmãs de São José de Chambéry.

Foi muito emocionante. A família do meu pai tem esse forte lado católico. Ali eu conheci um pouco da história. É um colégio grande em Santos, que tem cinco irmãs que ainda participam da direção, mas a direção no geral é laica. Essas irmãs estão ali e a mais jovem tem 75 anos. Curioso. A Geni, prima do meu pai, tem os 95.

É interessante porque, contando, ela fala que teve aquela educação que você imagina, de 70 anos atrás, 1950. Bastante dura, separada, aquela forma de disciplina muito rígida. As próprias igrejas, não só católicas, tinham um formato bem característico. Eu estava esperando, o meu preconceito era de que uma pessoa de 95 anos tivesse visões mais tradicionais, conservadoras em relação à sua época.

A minha surpresa incrível foi quando ela começou a me perguntar. Eu falei: “E você, Paulo, qual é a sua relação com a religião?” Eu respondi: “É, não muita.” E ela falou:

Não tem problema. Isso às vezes pode vir. Você não precisa estar necessariamente dentro da igreja católica para levar as palavras de bondade. Se você for um homem generoso e conseguir tocar o coração das pessoas, você vai ser bem recebido por Deus. Independente do celibato, independente de batina, independente de diocese, independente de como exatamente isso vai ser feito.

E continuou:

Porque as nossas irmãs mais jovens não estão aqui. Elas estão em Ruanda. Estão em Roraima. Estão nas fronteiras dos países que estão tendo conflito. Estão levando isso tudo de outras formas para outros lugares. Hoje a gente tem que ter menos clausura.

Ela colocou bem assim, e me arrepiou. Como que uma pessoa de 95 anos, que foi educada, eu chuto, pelo meu preconceito, da forma mais fechada, consegue ter essa visão que a gente considera moderna? Que eu considero uma visão jovem, contemporânea. Se ela tem esse poder, por que eu não posso também parar e pensar as minhas questões? Minhas questões pessoais, as minhas questões sociais. Ver como posso melhorar meu país, minha família, a sociedade em que eu vivo. Em vez de deixar tudo igual como eu já pensava 10 anos atrás. Ou como fui criado no geral.

Essa história da Geni, dessa mudança… Não sei, talvez ela seja assim desde jovem. Pela história parece que houve sim a mudança. E eu lembrei de outra história. Uma professora minha de biologia, quando eu tinha 15 anos, virou e disse assim:

Olha, jovens, se vocês têm algum defeito, alguma coisa que querem melhorar agora, de como vocês pensam, do jeito de vocês, vocês precisam mudar agora. Porque depois de adulto não muda mais. Então mudem agora pra melhor, porque depois não muda mais.

Eu lembro que essa aula me impactou tão forte que eu cheguei em casa até animado. Falei: “Poxa, eu vou mudar, vou tentar ser um adolescente melhor agora. Preciso ver o que estou fazendo de ruim para as pessoas, senão depois já era.” Cheguei para os meus pais para conversar isso, contei essa história, perguntei o que achavam. E meu pai respondeu de uma forma veemente, que é algo que ele nunca costuma fazer:

Paulo, se eu achasse isso, que eu não mudasse mais na minha idade, eu preferia morrer.

Meu pai realmente não usa essa forma dramática para falar. Então foi muito impactante.

Eu gostaria de ter sempre essa capacidade de mudança, de melhora, de autocrítica, de perceber. Não é uma questão de humildade, é uma questão de buscar o melhor para as pessoas que estão à sua volta e aumentar essa esfera para a sociedade. Eu acho que eu consigo mudar. Eu acho que posso ser melhor. Tem tudo a ver com a entrada do ano. Eu gosto desse momento de resolução de ano novo, por mais brega que algumas pessoas considerem. Acho que eu considerava também.

Esse é um recado forte: duas histórias dentro de uma, sobre a capacidade nossa de mudança. De saber que dá sim, e que a gente tem que encarar. Pode ser um pouco mais difícil em algumas questões, em alguns momentos de vida, em algumas situações, em pessoas que não tiveram o mesmo privilégio que eu, sem dúvida. Mas é possível.

Planejamento, comprometimento e realização

Esse tema está muito próximo do que estávamos falando, de mudança, de novo ano, do que a gente quer daqui para frente. Eu reflito isso no meu próprio trabalho, em como conduzi esse ano junto com as equipes na Alura e em várias outras equipes de startups com as quais estou próximo para aprender.

Eu planejei bem o ano de 2021 para poder ter um comprometimento com essas equipes. O que eu ia fazer, o que ia entregar, o que ia ajudar as equipes a entregar. Esse comprometimento eu tentei deixar de alguma forma público. Tinha até uma questão de marketing, mas em fevereiro e em junho fiz duas lives mostrando quais eram os próximos passos da empresa, o que a gente ia conseguir realizar, o que ia mudar na vida dos nossos alunos e alunas. O que a escola ia trazer a mais para quem estudava com a gente, em fevereiro, março, abril, e depois em junho, julho e agosto.

A gente foi entregando e realizou aquilo que planejava e que se comprometeu com os alunos e as alunas. Isso foi muito forte para quem estuda com a gente, muito forte pra mim, muito forte para as equipes dentro da empresa. Ver que aquele vídeo, aquela força, aquelas falas não eram só palavras e promessas, ou segredos e estratégias.

Eu sei que, quando as pessoas fazem resoluções de ano novo, tem alguns psicólogos que dizem que não é interessante deixar público. Não por privacidade, mas porque, se você deixar fechado, sua chance de realizar seria maior. Eu tenho algumas resoluções que troco com um amigo que mora fora. Falo: “Olha, está aqui o que eu vou conquistar esse ano, o que eu vou fazer.” De tudo: exercício, família, capacidade intelectual, estudo, execução de trabalho. Costuma ter bastante de trabalho também, confesso. Tem gente que fala que não funciona, mas acho que tem funcionado para mim. Deixar exposta a parte do trabalho tem funcionado para a Alura, pro Hipsters.

Não à toa, eu quero fazer em janeiro, e já fica aqui o convite, acredito que no dia 18 de janeiro, uma live para mostrar os próximos passos. Essa data pode mudar. Quero mostrar o que a gente está trazendo para a Alura, para o Aluraverso, para os alunos e alunas. Como eu e a equipe estamos enxergando o mercado de trabalho. A gente vai lançar umas coisas muito interessantes, e eu queria compartilhar e mostrar como enxergamos tudo que está acontecendo no cenário de tecnologia, de trabalho remoto, do mercado internacional contratando aqui, de estudo, de como aprender, de como expor seu currículo, de como tudo isso se junta e o que a gente vai fazer em cada mês para a escola ser cada vez melhor.

Funcionou no ano passado muito bem, e eu quero repetir isso de uma forma ainda maior. Quero me comprometer com projetos para o mercado de tecnologia brasileiro, não só brasileiro, de maneira forte. Fazer um barulho grande. Ter um impacto forte na carreira das pessoas, de quem está entrando e de quem é sênior. Como os mecanismos se encaixam, ajudar as empresas que precisam criar e reter seus talentos.

Fica aqui a ideia de trazer esse compromisso de maneira pública.

Relógios, astronautas e espiões

Eu estava numa apresentação do Guga Mafra, que é um podcaster bem conhecido, com algumas pessoas que trabalham comigo. A Júlia estava lá, e o namorado dela, que curiosamente chama Júlio. Eles me contaram uma história muito interessante, que veio de um tweet.

Alguém tweetou que pediu comida por um app no celular, e quando o entregador chegou, esse rapaz foi fazer o pagamento com o Apple Watch na maquininha. Quando fez o pagamento, chegou perto com o relógio, processou, deu o ok, aquele apitinho, e o entregador falou:

Caramba, mano, você é o astronauta James Bond!

O “astronauta James Bond” virou tweet, ele até colocou no perfil. O entregador ficou assustado. “Como assim, você vai encostar um relógio aqui, pegar comida e ir embora?”

A história é engraçada. “Astronauta James Bond” é no mínimo engraçado. Mas tem tanta informação aqui: de tecnologia, de futuro, de classes sociais, de covid, que me atordoou. Vou trazer algumas reflexões, aposto que você pode ter as suas.

Como é que uma pessoa não sabe que já existe pagamento por aproximação? Ainda mais se ela trabalha com entrega. Se trabalha com entrega, é provável que já viu as pessoas aproximando o celular. O relógio, eu até vejo raramente acontecendo, mesmo vivendo no centro urbano total de São Paulo. Você vê que já existe um abismo social. Tanto que tem aquela frase do William Gibson:

O futuro já chegou, ele só está mal distribuído.

Está ali em Manhattan, no centrinho de Londres, em umas ruas de São Francisco, Xangai e Tóquio. Nos outros lugares está começando, e na periferia das grandes cidades as pessoas estão para trás. Infelizmente, essa é a situação.

Essa história também me marca pela forma como as anedotas podem ter força. Mas algumas coisas não fazem muito sentido. Eu adorei a história, mas depois fiquei tentando investigá-la, querendo saber se é verdade. Porque é estranho. Por que alguém pede comida, tem um Apple Watch, e não põe o cartão de crédito no app? Porque essas apps todas, você põe o cartão ali, pede a comida, já está paga quando chega. É raro você falar “eu pago quando chegar”. Se faz isso, é porque estava com dinheiro, não estava com crédito, ou o Pix, sei lá. Mas falar “não vou pedir no cartão de crédito porque vou usar o meu Apple Watch, que tem um cartão de crédito dentro dele” me soa estranho. Ou me soa que a pessoa realmente queria mostrar que era astronauta James Bond.

Eu fico com isso. Percebo que gosto de entrar nessas histórias e falar: “Não, peraí, alguma coisa não faz sentido.” Mas pode ter sido.

Fico com receio dos relógios, dos wearables. Eu tenho um desses que marca coração, para exercício. Fico com medo da gente ser realmente escravo da tecnologia, assim como a gente é, de alguma forma, obediente ao Waze. E vou linkar esse relógio na última história.

Alan Turing, mil caracteres e produtividade

Alan Turing tem um dos seus principais artigos, o Computing Machinery and Intelligence, lá de 1950, que é onde aparece pela primeira vez o teste de Turing. Também tem muitas questões sobre o que é pensar, o que é computação, o que é a inteligência de uma máquina, o que é aleatoriedade, se é predeterminismo ou não. Até aparece o tal do Laplace, que mencionei na primeira história.

Meu irmão, Guilherme Silveira, fez um vídeo no canal dele, o Giminan, sobre isso. O vídeo chama “O Verdadeiro Jogo da Imitação de Turing”, no YouTube. Ficou incrível. Muito bom vídeo, de 20 minutos. Ele vai passando pelos pontos principais que anotou, grifou partes sensacionais, questionando o que é pensar. Tem de alma, fala de imortalidade, fala de Deus, fala de ciência, fala da Ada Lovelace. Simplesmente fantástico.

Um dos pontos que o Turing coloca lá, que chama atenção, é um pouco sobre produtividade. Ele, o pai da computação, junto com Church, Von Neumann e mais algumas pessoas, fala que, estando programando bem, conseguia escrever uns mil caracteres por dia. Então o Turing escrevia mil caracteres por dia. Se cada linha de código tem aí uns 20 caracteres, ele escrevia 50 linhas por dia. É claro, a forma que ele programava era completamente diferente, era uma linguagem matemática de montador, não é comparável. Mas é interessante ver que mil era um número relevante de digitações.

Aí eu vejo o peso que a gente sente de produtividade. Quanto eu escrevo? Será que estou produzindo? Eu sinto essa pressão. Sei que muitos sentem também. Não tenho orgulho, mas no momento que estou de ócio, não fazendo nada, eu tenho um reflexo de que deveria estar trabalhando. Esse reflexo passa na minha cabeça imediatamente, e eu entro em modo de trabalho no primeiro momento ocioso, porque não quero “só” os meus mil caracteres, eu quero 1.200. Não posso negar que me dá prazer também. É super interessante ter essa capacidade de se sentir útil para uma empresa, para um amigo, para uma amiga, para um trabalho pequeno. Às vezes até me meto em código onde não devia, faço algo que até demora mais do que outras pessoas fariam, só para me sentir produtivo, para sentir que estou sendo útil e que não estou sem fazer nada.

É curioso, porque sou um dos grandes críticos dos gurus de que você tem que acordar às 5h47, “trabalha enquanto os outros estão dormindo”, sei lá, esse marketing maluco todo. Mas eu sinto uma pressão, e é complicado.

Até porque tem coisas que só vêm com o tempo. Já falei bastante sobre a ilusão dos “21 dias”, aqueles livros de “aprenda em 21 dias”. Não dá. Tem coisas que você precisa de 10 anos. Eu estava refletindo sobre o meu próprio mestrado. Fiz o mestrado em 4 anos, naquele tempo máximo estourando, porque arrastei a dissertação. Aposto que você também tem aquele TCC, aquele trabalho do MBA, que demorou muito, que enrolou porque achou que daria para fazer na última semana. Tem coisas que precisam de tempo. Não basta ser super produtivo: você precisa de tempo para fazer, para assimilar e para consolidar.

Eu lembro que só anos depois da minha dissertação de mestrado, que foi em cima de um paper do professor Erik Demaine, o mais jovem professor do MIT, recebi um e-mail. Depois até repassei para o meu orientador e para o meu colega que estava fazendo a dissertação comigo, que era da graduação. Pediram autorização para usar as imagens geradas pela nossa implementação do algoritmo de one straight cut fold, de origami computacional. Pediram para usar na disciplina do Demaine, para ele poder usar no slide. “Você concorda? Por favor, responda agree para usar essa e essa imagem.” Fiquei super orgulhoso. Foi uma dissertação que a gente demorou dois anos implementando e escrevendo, e cinco anos depois foram colocar numa aula de origami computacional do MIT.

É bastante interessante ver como algumas coisas demoram. Assim como criar uma escola, que a gente tem construído, demora. Assim como ter um podcast que tem relevância e com o qual as pessoas criam um elo, demora anos. Não adianta ser super produtivo e gravar mil episódios em um dia que não vai acontecer. Depende de outros fatores. Depende de tempo, maturidade.

A produtividade e o resultado que você vai conseguir com ela são uma fórmula complicada. Querer só otimizar um pouquinho ali do final não é o que vai trazer o resultado. É mais a disciplina, é mais a cadência. Cuidado: não estou passando pano para você que ficou seis meses sem estudar nada esse ano. Sei que acontece com muitos de nós. Mas não estou passando pano. Inclusive, eu tenho cobranças minhas: estou muito para trás na literatura, muito para trás em algumas aulas que eu estava vindo bem um ano atrás.

Produtividade, passagem do tempo e relógios

Olha só: esses três temas apareceram no título das outras histórias anteriores. Produtividade apareceu na história do Turing. A passagem do tempo apareceu na história da minha prima Geni. Os relógios apareceram no astronauta James Bond, no Apple Watch. Tudo se conecta.

Para fechar, essa história não é minha. É de um curtíssimo conto que li há mais de uma década, eu acredito, por causa da Vivian Matsui, que trabalha na Casa do Código, e que é muito fã do Julio Cortázar. Aquele escritor argentino, na verdade nascido na Bélgica, que tem o livro famoso O Jogo da Amarelinha, que eu nunca li. Eu li o Histórias de Cronópios e de Famas, que é um conjunto de contos sem muito pé e cabeça. É difícil, para mim, esses mais fora do padrão do romance clássico, tenho uma dificuldade. Mas ali tem uma série de contos antes de chegar nesses Cronópios e Famas, que são os seres que o Cortázar imagina, com todo um contexto e uma cultura por trás.

Ele tem pequenos contos, e eu vou ler o que se chama “Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio”. Relembrando: na época do Cortázar, não havia relógios digitais, muito menos Apple Watch. Você dava corda no relógio. Quando tinha aquele relógio de pulso, tinha que girar ali, puxar a coisinha, porque não tinha bateria. Mesmo que na época dele já existissem alguns com bateria, era muito comum ter os mecânicos. Olha a reflexão que ele faz sobre o relógio, sobre dar corda:

Quando dão a você de presente um relógio, estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades, esperamos que dure porque é de marca boa, suíço, com âncora de rubi. Não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — e eles não sabem, o terrível é que eles não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso.

Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio. Dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia da rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que há uma marca melhor do que as outras. Dão para você o costume de comparar o seu relógio aos outros relógios.

Não dão um relógio: o presente é você. É a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Pois é. Esse conto do Cortázar revela com muita força: não dão um relógio para a gente. Não dão um celular novo para a gente. É a gente que é dado para essas ferramentas. Para o Waze, a gente que é dado. Para o Apple Watch, a gente que é dado. Para o celular. A gente fica amarrado na produtividade, em olhar o tempo todo, em obedecer o que essas apps, o que esses eletrônicos precisam. Somos nós que estamos trabalhando para eles.

A gente precisa inverter isso. Eu preciso inverter isso. Não é à toa que me impressionam muito as pessoas que têm boa cultura digital e conseguem ficar distantes do celular. Que não respondem mil e-mails por dia. Que organizam sua agenda colocando limites. Essas pessoas trabalham melhor que eu.

A minha resolução para 2022 é que eu possa trabalhar melhor. Que o relógio seja meu. Que o celular seja meu. Que o trabalho seja meu. E não o contrário.

Desejo para você mergulhos mais profundos e que encontre seu caminho em 2022. Sei que posso mudar, como a Geni, como meus pais mostraram, diferente da minha professora quando falou que não dava para mudar. Dá para mudar. Dá para encarar e fazer melhor, como a Geni está fazendo aos seus 95, para 96 anos.

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