Asimov, Turing e o relógio de Cortázar — Hipsters 285
Segundo episódio de fim de ano do Hipsters Ponto Tech — seis histórias sobre predeterminismo, mudança, compromisso, desigualdade tecnológica, produtividade e o tempo que nos escraviza.
Predeterminismo, Asimov e Waze
Acompanhei a primeira temporada da série Fundação, baseada nos livros do Isaac Asimov. O mote é que, num Império Galáctico, um matemático cria a “psicohistória” — uma ciência capaz de prever o comportamento de grandes massas populacionais. Ele não consegue prever o futuro de uma pessoa específica, mas o destino da humanidade como um todo, daqui a centenas ou milhares de anos.
Meu irmão questionou: como só conhece o destino da humanidade e não o de uma pessoa? Asimov tem um argumento elegante: no estudo dos gases, os físicos sabem dizer o comportamento de expansão, temperatura e pressão em conjunto, mas não conseguem prever para onde irá uma molécula específica. Algumas ciências funcionam no macro e se perdem no micro.
Isso bate com o demônio de Laplace: se alguém tivesse uma foto do universo em dado instante — posição, velocidade e direção de cada partícula — poderia deduzir o instante seguinte e o anterior. Bate com Matrix.
A provocação que fica: se pudéssemos prever o futuro com precisão — aquecimento global, pandemias, grandes misérias — por que não agimos agora? Aliás, já obedecemos a ciência computacional no dia a dia. O Waze usa IA e modelos estatísticos para traçar o caminho mais rápido, e nós seguimos literalmente o que a máquina manda, 99,9% do tempo. Se você digitar um endereço errado, é capaz de ir no sentido oposto sem perceber. Já somos, em muitos casos, obedientes ao computador.
Mudanças, idade e passagem do tempo
Fui visitar em Santos uma prima do meu pai, Geni, de 95 anos, freira desde os 25. Ela é da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry. Meu preconceito era esperar visões tradicionais e conservadoras de uma pessoa dessa idade e formação. A surpresa veio quando ela me perguntou sobre minha relação com a religião. Respondi que não era muita. Ela disse: “Não tem problema. Você não precisa estar dentro da igreja católica para levar palavras de bondade. Se for um homem generoso e tocar o coração das pessoas, será bem recebido por Deus.” E contou que as irmãs mais jovens não estavam ali — estavam em Ruanda, em Roraima, nas fronteiras de países em conflito. “Hoje a gente tem que ter menos clausura.”
Se uma pessoa de 95 anos, educada nos anos 1950 com disciplina rígida, consegue ter essa visão que considero moderna e contemporânea — por que eu não posso reexaminar minhas questões?
Lembrei de uma professora de biologia que, quando eu tinha 15 anos, disse: “Se vocês têm algum defeito que querem melhorar, mudem agora. Depois de adulto não muda mais.” Cheguei em casa animado e contei aos meus pais. Meu pai, que nunca usa tom dramático, respondeu: “Paulo, se eu achasse que não mudava mais na minha idade, eu preferia morrer.” Ficou gravado.
Planejamento, comprometimento e realização
Planejei bem 2021. Fiz duas lives — em fevereiro e em junho — mostrando publicamente quais seriam os próximos passos da Alura, o que íamos entregar, como enxergávamos o mercado. E entregamos. Esse compromisso público teve um impacto enorme: para os alunos, para as equipes, para mim.
Há psicólogos que dizem que metas privadas têm mais chance de se realizarem. Tenho algumas metas que troco com um amigo que mora fora — de exercício, família, estudo, trabalho. Mas no trabalho, deixar exposto tem funcionado bem. A ideia é criar accountability: mire, mostre e execute.
Relógios, astronautas e espiões
A Júlia e o Júlio me contaram uma história que viralizou no Twitter: alguém pediu comida por app, e quando o entregador chegou, a pessoa pagou encostando o Apple Watch na maquininha. O entregador, espantado, disse: “Caramba, mano, você é o astronauta James Bond!”
A história é engraçada, mas tem camadas. Como alguém que trabalha com entregas não sabe que existe pagamento por aproximação? A frase de William Gibson resume: “O futuro já chegou, só está mal distribuído.” Está em Manhattan, em uns cantos de São Francisco e Tóquio. Na periferia das grandes cidades, as pessoas estão para trás.
E tem um detalhe que não fecha: se a pessoa tem Apple Watch, por que não colocou o cartão de crédito no app? Talvez realmente quisesse ser o astronauta James Bond. Eu gosto de entrar nessas histórias e tentar desmontar o que não faz sentido.
Alan Turing, mil caracteres e produtividade
Alan Turing, no artigo Computing Machinery and Intelligence de 1950, menciona que, num bom dia de programação, escrevia cerca de mil caracteres. Se cada linha tivesse 20 caracteres, seriam 50 linhas por dia. O pai da computação, 50 linhas.
Meu irmão Guilherme Silveira fez um vídeo excelente sobre esse artigo — O Verdadeiro Jogo da Imitação de Turing — passando pelos pontos sobre o que é pensar, alma, imortalidade, Ada Lovelace, aleatoriedade e predeterminismo.
Isso me faz refletir sobre produtividade. Confesso: no momento em que estou ocioso, tenho um reflexo de que deveria estar trabalhando. Entro em modo de trabalho no primeiro instante de ócio. Me dá prazer me sentir útil. Às vezes até meto a mão em código onde não devia, só para sentir que estou produzindo. E sou um dos grandes críticos dos gurus que mandam acordar às 5h47. É contraditório, eu sei.
Do meu mestrado sobre origami computacional, baseado num paper do professor Erik Demaine do MIT: arrastei a dissertação por 4 anos. Anos depois, pediram autorização para usar as imagens da nossa implementação numa disciplina do próprio Demaine no MIT. Algumas coisas precisam de tempo — não basta ser super produtivo. Maturidade e cadência importam mais que velocidade.
O relógio de Cortázar
Para fechar, leio o Preâmbulo às Instruções para Dar Corda no Relógio, de Julio Cortázar:
Quando dão a você de presente um relógio, estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades, esperamos que dure, porque é de marca boa, suíço, com âncora de rubi. Não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — e eles não sabem, o terrível é que eles não sabem — dão a você um novo pedaço, frágil e precário, de você mesmo. […] Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.
Não nos dão um celular: somos nós que somos dados para o celular. Somos nós que trabalhamos para o Waze, para o Apple Watch, para as notificações. Minha resolução para 2022: que o relógio seja meu, que o celular seja meu, que o trabalho seja meu — e não o contrário.