Quarentena, Júpiter e curiosidade nerd — Hipsters 233
Cinco histórias sobre curiosidade, profundidade e o que um ano de quarentena me ensinou sobre aprender de verdade.
A quarentena, Júpiter e os besouros
Essa quarentena não foi trivial para ninguém, especialmente os primeiros meses, que a gente respeitou bem mais. No final de fevereiro, começo de março, eu me isolei em uma casa pequena que a gente tem no interior de São Paulo, bem relativamente no mato. Fui eu com os meus sogros e as minhas duas filhas, que têm 2 e 4 anos. A gente passou lá 57 dias, totalmente isolado. Inclusive, as minhas filhas ficaram sem ver a mãe delas durante todo esse tempo.
O que eu acho interessante é que, para quem vive na cidade, cresceu menino de prédio como eu cresci, fica muito marcante o ciclo da vida durante uma experiência assim. Desde ver as plantas crescendo, as flores, algumas daquelas coisas que a gente estuda na escola e que eu nunca tinha vivenciado. Nem mesmo nas curtas férias em fazenda ou no interior do Brasil. Ver as flores realmente abrindo e mudando a cara do verde das plantas é algo que me chamou bastante atenção e curiosidade.
Mas, mais do que os animais e plantinhas crescendo, essas coisas de que a gente de tecnologia está cada vez mais longe, o que me chamou mais atenção, o que pega isso da gente de cientista, de programação, de código, de matemática, sem dúvida foi o céu.
Ter reparado todos os dias no céu, nas mudanças da lua, nas mudanças de posição dos planetas, foi muito impressionante. Porque o tempo todo a gente estuda sobre os oito planetas do sistema solar, a gente sabe as curiosidades, a gente vê o que as missões estão fazendo, o que a NASA, a agência espacial europeia, japonesa, indiana está fazendo por aí, o que os astrônomos e astrofísicas estão estudando sobre buracos negros. Mas quando você olha para cima e vê que, olha, realmente tem alguns pontos que brilham mais, brilham menos, e nesse céu que parece fixo tem alguns pontinhos que não estão fixos, porque a cada dia que passa eles estão em uma posição um pouquinho diferente em relação aos outros, isso é outra coisa.
Esses pontinhos são os planetas e os objetos celestes que não estão tão longe assim da gente. Se você repara sempre naquela “primeira estrela” que aparece no céu, que tem uma magnitude bem forte, que é Vênus, ela não é uma estrela, é um planeta vizinho nosso. E esse planeta está, a cada dia, em uma posição diferente. Se você se referenciar às Três Marias, que é o Cinturão de Órion, se olhar para o Cruzeiro do Sul, esses planetas estão cada vez em um lugar diferente. Júpiter, Saturno, Marte, Vênus: eles mudam de lugar, mas seguem uma linha, porque estão quase que no mesmo plano orbital.
Eu fico muito interessado em pensar que pessoas há dois mil anos já tinham tirado algumas conclusões e percebido que a Terra não era o centro, porque alguma coisa estava acontecendo, esses outros pontos estavam circulando alguma outra coisa. Como alguém conseguiu tirar essa conclusão sem ter nenhum aparato? Porque o telescópio só vai aparecer forte no século XVI, começo do XVII, 1600 e pouquinho, quando Galileu faz a descoberta dos quatro satélites de Júpiter.
Mesmo antes disso, e o Fábio Akita faz isso num vídeo dele sobre computação quântica, muito antes de ter essa teoria de que os planetas giram ao redor do Sol, os navegadores já usavam o céu para se orientar. “Segue essa estrela, segue aquele pontinho do céu”, sem saber que aquilo era uma estrela, sem saber a distância, sem saber que os outros eram planetas que giravam ao redor do Sol, e não da Terra.
É muito interessante ver que às vezes a gente usa conhecimento sem saber o porquê. Nós de tecnologia fazemos isso o tempo todo. A gente usa alguns recursos do computador, da linguagem, da programação, do framework, sem saber como funciona, por que funciona. Os navegadores já usavam o céu para isso, e só basicamente mil anos depois a gente descobriu por que aquele método de navegação funcionava. A Terra é redonda, gira ao redor do Sol, e assim por diante.
Na computação quântica é parecido. A gente usa recursos, aquele entanglement, essas coisas que eu não entendo, e os cientistas também não entendem direito, e mesmo assim já tiram proveito disso. É muito interessante a gente descobrir os efeitos práticos de alguma coisa enquanto ainda não entende o que é essa alguma coisa, como funciona.
Eu queria dar destaque para Ole Rømer, um dinamarquês, um astrônomo, que lá em 1676 estava observando as luas que giram ao redor de Júpiter, as quatro que tinham sido descobertas por Galileu: Io, Ganimedes, Calisto, Europa. Se você com um telescópio, ou até com uma câmera que tem zoom, como eu fiz durante essa minha estadia na quarentena, você consegue ver os quatro pontinhos em volta formando uma linha com Júpiter. É muito emocionante, porque você sempre viu as fotos, sempre te falaram, você sempre acreditou, mas quando você tira a foto e vê os quatro pontinhos pequenos, é impressionante.
Uma dessas luas, Io, gira ao redor de Júpiter em uma velocidade incrível: em 42 horas ela dá a volta, pensando que a nossa lua gira ao redor da Terra em 28 dias, mais ou menos. Nesse um dia e meio terrestre, Rømer percebeu que o tempo que ele ia medindo não era sempre exatamente o mesmo. Quando a Terra se aproximava de Júpiter, esse tempo diminuía um pouquinho, questão de poucos segundos. Quando a Terra estava no sentido de se afastar de Júpiter, na época do ano em que se afasta, esse tempo aumentava um pouco.
Ele tinha certeza de que Io estava girando ao redor de Júpiter sempre na mesma velocidade. Então, por que ele via que essa volta se completava em tempos diferentes? Às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos, variando de tanto em tanto tempo. E ele falou: só pode ser uma coisa, a luz, para chegar de lá até a Terra, leva tempo, ela não é instantânea.
Esse Rømer, em 1676, 350 anos atrás, com capacidades muito menores do que a gente tem hoje, afirmou que existe uma velocidade da luz, que ela não é instantânea. O que até hoje é difícil da gente compreender empiricamente, no dia a dia. Alguém, há 350 anos, observou e falou isso, mesmo indo contra qualquer intuição. Inclusive, Cassini e os outros astrônomos da época falaram para ele que estava errado.
Eu fico muito impressionado.
E queria trazer dessa história da quarentena outra coisa que eu só aprendi lá. A gente plantou alguns mamoeiros ali na casa, e um deles apareceu no outro dia cerrado. Literalmente cerrado. Eu falei: “Poxa, passaram uma faca e cortaram.” Um corte perfeito no mamoeiro, num tronco que não era muito grosso, parecia que alguém com uma faca deu umas duas pauladas, mas era tão perfeito, parecia até uma motosserra.
Perguntei para o meu cunhado, que é engenheiro florestal, e ele falou: “Olha, acho que isso é um besouro.” Eu falei: “Como assim um besouro?” É um besouro serrador. Existe um besouro grande, que tem um chifrão, e ele vai mordendo em volta do caule de uma árvore, até que ela fica tão frágil que bate o vento e cai. Uma segunda vez, no mesmo período, eu vi outro mamoeiro cair.
Olha só: você tem todos aqueles efeitos, um tronco caiu na sua frente, cortou perfeito. O que você tira de conclusão? Você fala: “Foi uma faca, ou alguma coisa assim.” É o que você está acostumado. Sendo que a motivação daquele efeito pode ter sido algo completamente diferente, que você não tem o conhecimento. As pessoas que conhecem o mato, os bichos, os animais, na hora já matam a solução. Olha o que a minha falta de conhecimento da natureza me fez pensar de uma coisa simples, uma árvore cortada. Eu falei “veio alguém aqui e serrou”, e a outra pessoa falou “não, eu conheço mais, isso aqui foi um animal que cortou”.
Essa primeira história mostra isso do conhecimento profundo. A gente vê os efeitos e pode tirar algumas conclusões, algumas erradas, outras não. Mas seria interessante entender o porquê que está acontecendo.
21 dias, aprendizagem e Olimpíadas
Relendo muito dos materiais que me inspiraram quando eu ainda estava na faculdade, um deles é um texto do Peter Norvig. Peter Norvig é um grande cientista da computação na área de inteligência artificial, hoje diretor de pesquisa no Google. Ele tem um ensaio já muito antigo chamado Teach Yourself Programming in Ten Years. Porque na época que eu estudei, havia livros que se chamavam Aprenda a Programar em 24 horas, e alguns em 21 dias. Aprenda a Programar Java em 21 dias, Aprenda a Programar PHP em 24 horas, e assim por diante.
A provocação do Peter Norvig era: não dá para você aprender em 21 dias. O que você faz em 21 dias, seja de uma linguagem de programação ou até de outra coisa, um instrumento musical, um esporte? Em 21 dias, você pode ter um pontapé e olhar um pouquinho alguns exemplos. Mas você não pode respirar, entender com profundidade, cometer erros, aprender com seus erros, ter uma prática intencional naquilo que está querendo conquistar, conversar com pessoas mais seniores para tirar conclusões, entender o que funciona naquele contexto e o que não funciona.
Peter Norvig escreveu esse ensaio longo, e eu escrevi uma reflexão sobre ele nos artigos da Alura, sobre o aprendizado em 10 anos. Ele escreveu esses 10 anos antes do Malcolm Gladwell escrever Outliers. Isso é interessante. O Outliers fala em 10 mil horas: para dominar alguma tecnologia, ou ser bom num esporte, ou uma pessoa incrível em música, no xadrez, ou na biologia, você precisa de 10 mil horas. Não só talento, mas prática durante um longo período de tempo, com consistência, frequência, determinação.
Porque não adianta entender a casca. Não adianta só saber navegar no mar rapidinho, não adianta só entender basicamente quais são os planetas. Você precisa entender um ou dois níveis de abstração para baixo daquilo com que você trabalha.
Acho que quem me trouxe essa frase, que achei bonita, foi o Fábio Kung, do Netflix, num evento da Alura. Ele falou: “Acho que seria legal, depois de um tempo de carreira, você entender não só aquelas ferramentas com que você trabalha, o framework, mas a linguagem que está por trás, e talvez uma coisa que está ainda abaixo, o sistema operacional, a máquina virtual.”
Repara: hoje em dia a gente programa e fala “eu sou programador Node.js”, “eu sou programadora Rails”, “eu sou programador Spring”, “eu sou programadora React”, “eu sou programadora ASP.NET MVC”. Todos os nomes que eu dei aqui, nenhum é de linguagem de programação. A gente dá o nome do framework.
Não tem nenhum problema em ser especialista nesse framework. Às vezes a gente até aprende a fazer um hello world ou um blog em 21 dias. No Rails tinha isso: “aprenda a escrever com scaffold seu blog rapidinho, em duas horas”. Não tem nenhum problema com isso. Dominar o seu framework, a sua ferramenta, a sua chave de fenda, é incrível e necessário. Mas em algum momento você precisa dar alguns passos para se aprofundar. Não só no framework que está usando, mas na linguagem que está atrás: C# por trás do ASP.NET MVC, JavaScript por trás do Node.js, Java ou Kotlin por trás do Spring.
A provocação do Kung, e de outras pessoas, é ir talvez um nível abaixo: sistema operacional, a JVM, a V8 do JavaScript, o .NET. Entender o que está por trás do core. Você está navegando pelas estrelas, agora entenda como funciona o sistema solar. Entenda quais são as estrelas fixas, e como, dependendo de onde você está no planeta Terra, mais inclinado ou menos, inverno e verão, vai mudar muito as estrelas que você consegue enxergar, onde elas estão, por onde estão passando. Posso estar falando alguma grande bobagem, porque sou total ignorante em astronomia. Fiz um estudo totalmente superficial, em 57 dias.
Essa é uma grande provocação. Das Olimpíadas, vale lembrar: Eric Schmidt, que foi CEO do Google, num podcast do Masters of Scale, fala que um tipo de perfil que ele gosta de contratar são pessoas que treinaram para as Olimpíadas. Porque elas treinaram por muito tempo e tiveram aquela resiliência para chegar até lá.
Mais do que resistência: resiliência, antifragilidade. Essas pessoas olharam e falaram “eu quero chegar naquele ponto ali, então preciso estudar, praticar intencionalmente, preciso ter um treinamento inteligente para saber onde eu quero melhorar, quando tenho que segurar, o que preciso estudar, o que está faltando, ter um horário para praticar”.
É quando você percebe: “Poxa, estou usando esse framework, mas preciso parar de ficar googlando esse erro sem entender.” Sabe quando você corrige um bug no seu sistema sem entender o que aconteceu? Você fala “corrigi, funcionou, mas eu não sei por que funcionou”. Esse é o momento de parar e falar: acho que está na hora de eu entender um nível mais profundo.
Cada vez mais na Alura a gente fala de imersão: se aprofundar cada vez mais, entender o que está acontecendo ali. Mesmo que isso você não vá usar no dia a dia. “Peraí, mas tem um detalhezinho do JavaScript, será que {}+[] ou typeof null…” Na sua linguagem preferida também tem esses casos engraçados de operator overload. Será que não é interessante entender o que tem por trás, por que tomaram essa decisão, por que caiu nesse corner case?
Quando você tiver esse domínio total da linguagem que usa, pode ter certeza de que vai ter ganhos. Isso vai te salvar em momentos em que as outras pessoas não estão entendendo o que está acontecendo, de um bug muito grande, de um problema complicado, de armadilhas em que a gente cai o tempo todo sem perceber. Porque a gente não está entendendo que, na verdade, é a Terra que gira ao redor do Sol.
No dia a dia, na prática, para quem está vivendo, se o Sol está ao redor da Terra ou não, o impacto é pequeno. Mas se você precisa dominar, entender, e realmente quer atingir um nível de excelência grande, não adianta só manipular as ferramentas. Você precisa entender uma ou duas abstrações para baixo.
Vida em Vênus, código bom e profissional em T
Uma das histórias que me impactou nesse ano, e provavelmente impactou você, foi a bioassinatura em Vênus. Detectaram fosfina, uma molécula que, aqui na Terra, só aparece naquela quantidade quando há algum mecanismo biológico ocorrendo e fabricando. Para aquela quantidade que teoricamente detectaram em Vênus, só se tiver alguma coisa orgânica, vida, produzindo. Pelo menos na Terra. Pode ser que lá seja algum tipo de vulcão, não sei.
Achei mais do que interessante. Teve o Nerdologia do Atila Iamarino, ele comentou bastante comigo sobre isso. A Roberta Arco Verde, que grava com a gente, estava vendo o artigo da Nature que saiu, e ela viu que deixaram todo o código fonte disponível, em Python e C, da pesquisa que fizeram. Ela foi ler e mandou para a gente.
Tem um fato interessante ali. Se você, como programador Python ou programadora em C, olhar aquele código, vai falar: “Nossa, mas esse código está muito bagunçado.” Não segue as boas práticas da engenharia de software que o The Pragmatic Programmer, o Clean Code pregam. Se olhar, vai tomar um susto: tem 10 mil linhas num único arquivo, cheio de fusão, com números hard-coded. “Ué, isso aqui, quem dá manutenção nisso? Não tem teste de unidade, tem uns testes assim, um monte de // comentário, tipo ‘descomente essa linha, aí você põe seu arquivo de teste para ver se está tudo ok’.”
Você fala: poxa, são doutores e doutoras em astronomia que escreveram isso. De Harvard, MIT, universidades grandes da China, acho que da Rússia também, tem uma astrônoma portuguesa super famosa. “Ué, como assim, pode escrever isso?”
E eu acho que isso faz a gente refletir sobre o profissional em T. Esse conceito já vem de muito tempo, da década de 90, surgiu mais no pessoal criativo, de nível gerencial. A ideia é: você se aprofunda na sua área, astronomia, astrofísica, física, e em algum momento também vai precisar entender um pouquinho de outros assuntos paralelos.
O formato do T tem a barra vertical, que é o quanto você vai se aprofundar e entender uma ou duas abstrações para baixo na sua área, dominar totalmente o que faz. Mas também tem a barra horizontal: você vai entender um pouquinho de código, de Python, de outras áreas que complementam. Porque cada vez mais isso é necessário. Não é à toa que os squads envolvem outras profissões na mesma mesa, para minimizar aquela passagem de bastão.
Esse profissional multifacetado, multidisciplinar, eu diria até transdisciplinar, de aplicar a sua disciplina em outra área, não é mais só o gerentão diretor que conhece muito de uma área mas também sabe gerenciar pessoas e vendas. Somos nós, que escrevemos código, entendendo um pouco de astronomia se estamos trabalhando em um laboratório de física. Ou o astrônomo que vai entender um pouco de programação se precisa usar os dados que o Hubble detectou de Vênus, que é um monte de matriz maluca, e precisa saber o que fazer com isso.
Não é à toa que a gente gravou um podcast aqui com um astrofísico, professor da USP, doutor, e uma meteorologista que trabalha na IBM com o pessoal do Watson. Se você for ver a conversa com eles, estão falando de GitHub, de Python, de commit. Falavam com uma propriedade muito forte. Com certeza entendiam mais do que as pessoas que escreveram o código da pesquisa de Vênus, que vem, obviamente, herdando código de outros pesquisadores que foram seus mentores. Quem conhece bem a academia sabe que a gente herda código dos outros pesquisadores.
Reforça essa direção do profissional em T, do Dev em T. E isso aparece em outras profissões, começa a ser real essa necessidade. O professor Leandro Karnal, super famoso, tem um vídeo no YouTube em que fala: generalista ou especialista, o que você deve ser? Tem também o David Epstein, que tem uma TED Talk super famosa sobre isso. Ele dá um exemplo de médico: a era dos médicos especialistas na falangeta do dedo esquerdo para microfissuras de quem faz esporte, essa era está um pouco mais complicada. Hoje em dia, essa médica, esse médico, precisa entender um pouco das outras áreas para enxergar o paciente como um todo. Quem sabe, até de matemática, como eram os grandes filósofos lá atrás, os gregos, que também eram os médicos da cidade.
Ele não diz, nem eu estou falando, que você não deva se especializar, entender com profundidade o que trabalha. Eu acho que você deve sim. Mas para ter, por assim dizer, um valor ainda maior para a sua empresa, para o seu trabalho, é interessante conhecer o trabalho das outras pessoas. Para que você não vire um dia e fale: “Peraí, isso aqui não é o meu departamento, então eu não vou fazer isso. Já que eu não entendo nada de git, vou esperar o dia que essa pessoa vai chegar aqui. Enquanto isso, eu não vou mexer nisso.” Senão a gente cria muito gargalo numa equipe. Esse conhecimento é cada vez mais multifacetado, é um fato, gostemos ou não.
Tem também o Dijkstra, que é um grande cientista da computação holandês. Inclusive, foi o primeiro programador da Holanda, na carteira assinada, na década de 50. Já é falecido. Quem estudou ciência da computação ou outras faculdades relacionadas, ele aparece em diversos algoritmos, não só no algoritmo de caminho mínimo que é o mais famoso que criou. Ele fala de telescópio e astronomia:
Na computação, o computador não importa, a computação é outra coisa. Porque na astronomia, o telescópio também, você não precisa entender o telescópio para fazer astronomia.
Concordo. Mas se você entender também do telescópio, dos transistores, como Dijkstra entendia, se entender bem o que está acontecendo debaixo dos panos, vai sim te ajudar como profissional. Se aprofundar na sua ferramenta e entender de outros conceitos reforça essa mensagem do profissional em T.
Vírus, o poder da narrativa e Nassim Taleb
Esse vírus impactou a vida de muitas pessoas. A minha companheira trabalha com saúde, então ela estava exposta desde o começo, atendendo o pessoal da Covid. É muito duro. Você não sabe o que você está exposto, não sabe quem está expondo, os perigos. As minhas filhas não entenderam, são muito pequenas. “Ué, cadê minha mãe? Faz uma semana que eu não vejo, duas semanas, só aqui no celular. Quando você vem me ver, mãe?” Fica muito estranho essa ausência.
A Marcela escreveu e desenhou um livrinho, uma historinha, A Mamãe Matou um Vírus. Umas dez páginas contando como é esse vírus, o que é o trabalho da mamãe, o que a gente faz, por que precisa tomar cuidado, por que as meninas estavam ali só com o papai, vovô e vovó, por que quando ela fosse lá, só poderia vê-las através da grade.
Uma história muito dura. Eu sei que muitos de vocês passaram por histórias mais duras e perderam pessoas. Um momento muito difícil. Mas ter essa narrativa, ter colocado isso como uma história, trouxe um poder muito forte. Minhas filhas entenderam melhor, pediam para ler à noite. Aí teve aquele efeito maluco de internet: veio a GloboNews, pediu para conversar com a Marcela porque ela postou no Instagram, a Marie Claire fez uma entrevista, tiraram foto do livro, apareceu em muito lugar. Ela foi famosa por 15 dias.
O que acho interessante é essa constatação: às vezes, mais do que os números, de qual é o R do vírus, qual é o contágio, quão letal, qual é a previsão, o poder de uma história é muito forte. Você pode falar: “Poxa, Paulo, mas só uma história, eu posso assustar muito ou salvar.” A história toca e pode ensinar. A gente vive assim desde as fábulas e até alguns textos sagrados. Os ensinamentos são através das histórias, não através dos números, porcentagens, ganhos, lucros. Não é isso que marca.
Eu poderia fazer um post hoje de números que vi e me marcaram. Mas não, são as histórias. Estou passando esses momentos que vivi, e algumas dessas histórias vão marcar você.
É claro que alguns exemplos são muito fora da curva e às vezes viram propaganda enganosa. Aqueles famosos “olha só, na área de data science, tem gente que ganha 20 mil reais”. O que adianta contar uma história dessas? Essas histórias não fazem sentido. Mas tem histórias que fazem muito sentido serem contadas. Não é só inspiração, elas trazem uma reflexão.
Os escritores que eu gosto são os escritores de ficção, mais do que os Gladwells da moda ou o The Innovator’s Dilemma. Eu gosto mais quando eles têm uma narrativa em vez de números provando o ponto deles. Não que você deva descartar os números, é claro, mas alguns exemplos são muito fortes.
Um desses cientistas que conta muito bem histórias é o Nassim Taleb. Inclusive, ele fala disso: o poder de uma história pode ser um exemplo, e aí pode ser a forma que você vai ficar atento. “Peraí, eu preciso tomar cuidado com isso. Se aconteceu um caso, existe a chance.” Às vezes, mesmo se nunca aconteceu nenhum caso, se nunca ninguém viu um cisne negro, não quer dizer que ele não existe. Basta um para que mude toda a percepção.
Um dos escritores preferidos do Taleb, e também do meu pai, é Michel de Montaigne. Ele tem os Ensaios, aquele calhamaço de mil páginas, que são várias historinhas onde ele está querendo dar uma liçãozinha para a gente. Às vezes não fica clara a lição. Tem textos clássicos, inclusive sobre educação. Ele é um dos primeiros pensadores famosos de educação, vale muito a ler.
Tem o ensaio Dos Canibais, quando alguns franceses levam para lá indígenas do Brasil, e Montaigne faz uma reflexão e pergunta: quem são os canibais? São essas pessoas estranhas que a gente não reconhece, ou somos nós, que tiramos essas pessoas de lá para cá? Montaigne vai contando essas histórias e vai fazendo a gente refletir. Em vez de falar “existem quatro milhões de indígenas no Brasil, eles são assim, vivem assim, será que são alheios?”, ele não põe um número. Ele conta um caso. E é muito forte.
A primeira história da coletânea que costuma aparecer de Montaigne: ele conta de conquistadores e como tratavam os conquistados. Com misericórdia ou com total ataque. E conta um caso muito engraçado: um general romano vence uma guerra, vira para o povo todo e fala: “Agora eu vou poupar as mulheres e as crianças. Vocês podem sair da vila, porque o resto eu vou acabar com tudo, inclusive os homens. Vocês podem sair daí, mas só com o que vocês conseguirem carregar. Sem cavalo, sem nada, só com o que conseguirem carregar.”
As mulheres conversam, começam a sair da cidade com os maridos nos ombros. Como o general tinha falado que elas poderiam sair só com o que estavam carregando, elas carregaram os homens. Logo, estava dentro da regra. O general vê essa cena, fica impressionado com a hackeada da regra, fica emocionado, e deixa as mulheres levarem os homens, e as crianças por consequência. Todo mundo se salva.
Ele também conta histórias onde as pessoas não foram tão misericordiosas. É interessante como ele conta com essa história, e a gente vê como o sistema pode ser subvertido. O hacking, no bom sentido: quando a gente faz código e percebe um corner case e fala “ah, já sei, vou por aqui, pronto, resolveu, não precisei refazer o sistema inteiro”.
São histórias muito interessantes. Como as histórias de Black Friday que a gente conta todo ano, que marcam porque caiu o sistema. “Ó, caiu o sistema, por quê? Ah, porque o sistema de CEP caiu. Vamos cachear? Vamos. Ah, mas se cachear, eu não consigo calcular o frete, porque tenho que calcular toda hora. Se caiu o frete, põe um número fixo.” Histórias de Black Friday que inspiram as outras pessoas a não caírem no corner case e tomarem cuidado com o pior cenário.
Taleb fala: se tem um caminhão vindo na sua direção, numa velocidade alta mas não muito alta, o que você faz? Fica no meio da rua esperando porque acha que ele vai brecar? Não. Você pula, e depois vê se ele parou ou não. Provavelmente vai parar, mas você não paga para ver. Ele faz essa analogia com qualquer pandemia: a reação deve ser muito forte contra o desconhecido, porque esse desconhecido é contagioso. Você não sabe qual é a virulência, a taxa de mortalidade. No primeiro instante, você corta o máximo possível, porque não pode tomar esse risco.
Na Black Friday é igual: você não pode tomar o risco. “E se o cloud cair, o que você faz? Tem alguma redundância?” Você precisa calcular esses casos. O poder da história é muito forte para todos esses cenários.
Nerds, política e excelência
Paul Graham, um dos grandes investidores de venture capital do mundo, criador da Y Combinator, no Vale do Silício, polêmico. Eu realmente não concordo com tudo que ele escreve, mas certamente é uma pessoa brilhante. Ele recentemente escreveu um artigo falando sobre interesse genuíno. A palavra é earnest em inglês, sinceridade, honestidade.
Ele fala sobre o interesse genuíno de você ter no seu trabalho, na sua startup no caso dele, mas encaixa perfeitamente com o nosso trabalho. E coloca o papel do nerd. Essa palavra nerd simboliza aquele interesse genuíno, a curiosidade por entender como as coisas funcionam. Como o sistema solar funciona? Como essa lua de Júpiter, Io, é eclipsada, e como as pessoas calculavam a hora para poder falar que a velocidade da luz existe e não é instantânea?
Se você está aqui até agora, você está com essa curiosidade de entender o que está por trás, o que está um nível de abstração atrás. Eu acho que a gente ganha o direito de usar a palavra nerd, para ser polêmico, a partir do momento em que a gente quer entender um nível de abstração embaixo.
Se você é dev, trabalha com tecnologia, e nunca parou para falar: “Peraí, como que esse framework entende isso? Deixa eu ver essa parte do código fonte do framework. Como o browser chama essa parte do meu código JavaScript? O que quer dizer isso de não ter threads várias no JavaScript? O Java é compilado, é interpretado? Como esse código da Microsoft consegue rodar no Linux também? Por que o PHP 8 tem isso e não tinha, e agora quebra compatibilidade? Por que do Python 2 pro Python 3 mudou o negócio do print, agora tem que ter parênteses e antes não tinha, e por que isso quebra alguma outra coisa?”
Não basta saber só que quebra. Não estou falando que você precisa saber por que quebra em cada caso. Mas precisa ter essa curiosidade, essa nerdice, esse interesse genuíno de saber como a tecnologia funciona, como os sistemas funcionam, como a linguagem de programação e o framework funcionam. É a curiosidade que leva a gente mais longe.
“Ah, Paulo, mas eu também quero emprego melhor, dar uma vida melhor, um salário melhor, ter um posto de trabalho mais interessante, que eu goste.” Sem dúvida. Mas para atingir esses objetivos, eu acho que encontrar aquilo em que você tem interesse genuíno faz toda a diferença. Exagerando, é aquele ditado que eu também acho totalmente fora: “Encontre uma paixão, trabalhe com aquilo que é apaixonado, e nunca mais vai trabalhar um dia.” Não é bem isso, porque nunca vai envolver só as nerdices que a gente gosta. Raramente vamos conseguir trabalhar só com as nerdices que gostamos. Nem as pessoas que trabalham com conteúdo nerd trabalham só com isso.
Mas eu acho que isso vai te ajudar a fazer o seu trabalho melhor, ser uma profissional muito melhor, sendo nerd naquilo que você faz. Entender o que está por baixo, ler as pessoas que criaram aquela tecnologia, aquele sistema, conversar com a comunidade no GitHub, no repositório, no fórum, participar dos eventos.
Quando a gente fala “como faço para estudar melhor, ser melhor profissional, participar da comunidade, participar do open source”, isso aí na verdade já é o segundo passo. O primeiro passo é: seja curioso, seja curiosa com aquilo que você está usando. A partir dessa curiosidade, o que você vai fazer? Participar da comunidade, participar do evento, ver o erro, não só ficar dando Google e copiando e colando do Stack Overflow. Não tem nenhum problema com isso, mas em algum momento você vai dar um nível de observação a mais. Vai falar: “Não, peraí, deixa eu entender. Porque quando eu fiz isso aqui, funcionou. Fiz e funcionou, pronto, próximo.” Não, não próximo. Deixa eu entender por que funcionou. Ou pelo menos ter essa curiosidade, porque nem sempre dá tempo.
Antes eu não gostava de ser chamado de engenheiro de software. Talvez dev, engenharia. Mas hoje em dia acho que a gente é isso. A gente é aquela pessoa curiosa que gosta de charada, de problema, que quer encontrar a solução. Mas não só do problema. Essa engenharia de sistemas: a gente quer entender como funciona, a gente quer a parte da ciência. Ciência da computação para resolver esses problemas, e a ciência que está por trás de como resolver. Aplicar o conhecimento, resolver, mas também entender o que está por trás.
O T do profissional em T encaixa muito bem aqui. Ter profundidade, entender o que está por trás, mas também conhecer as outras áreas.
Paul Graham, nesse artigo, fala que o contrário do nerd é a politicagem. Não a politicagem nos termos de política de governantes, mas a politicagem no sentido de fazer aquilo que é necessário, que a gente realmente não gosta. Quando a gente trabalha numa empresa, tem reunião para fazer, tem que conversar com subordinados e com chefes de uma forma burocrática, preencher cadastro. São coisas que a gente não gosta de fazer, mas a politicagem faz parte.
Agora, trabalhar só com a politicagem da empresa, do business, dos clientes, aí realmente diminui a nossa vontade de querer se aprofundar. Achei muito interessante como Paul Graham coloca a nerdice e a politicagem como espectros diferentes. Acho difícil viver sem nenhum dos dois. Mas se der para usar a politicagem só onde é organização, governança, que realmente é necessário, ótimo. Ficar só com essa parte de discussão, costurar problemas, não pisar em ovos, é ruim mesmo. Às vezes eu engulo sapos também e piso em ovos o tempo todo. Mas faço muita coisa que amo, que tenho curiosidade de saber.
Eu quero melhorar em storytelling, em narrativa. Preparei esse texto para isso. Quero entender melhor, ver o resultado. Estou genuinamente interessado. Quero ser nerd nessa parte, me aprofundar. Talvez ela vai ser um pedacinho do meu T de desenvolvedor, essa parte do storytelling.
A excelência vem daí. Para ter excelência na nossa profissão, a gente precisa praticar e estudar intencionalmente. Até conversei com o Alberto Souza e o Jefferson, aqui da Alura, sobre essa palavra. Deveria ser “intencional”: a prática deve ser intencional, o estudo deve ser intencional. A gente deve praticar e estudar as coisas já com a intenção de melhorar.
Assim como as pessoas que treinam para as Olimpíadas: elas não fazem sempre o mesmo movimento. Treinam um movimento um dia, no outro dia um outro movimento. Na quarta-feira descansam e estudam sem praticar. Na quinta-feira conversam com o mestre, o professor, a professora, para entender o novo movimento. Às vezes aquele professor nem é tão bom quanto eles, e mesmo assim consegue ensinar. Tudo isso é muito planejado.
Planeje a sua nerdice, a sua prática. Não fique só com a curiosidade. Depois que teve a curiosidade, planeje. Segunda-feira, o que você vai estudar? 2021, qual é o seu plano? Ou mais, relembrando aquilo dos 10 anos: seu próximo ano, seus próximos 2 anos, qual é o seu plano? Tudo bem que daqui a 6 meses você mude. Mas eu queria que você fizesse essa reflexão: você está sendo nerd, ou está sendo só um executor, uma executora de tarefas? Só pega o cardizinho, fala “pronto, fiz, não entendi por que era para fazer, nem entendi por que funcionou”?
Isso também é uma autocrítica. Também é uma reflexão minha. Eu também executo muitas tarefas sem saber o porquê e como funcionou. O interessante seria saber: por que o cliente pediu isso, por que meus alunos pediram isso, por que funcionou, por que trouxe histórias e consegui conquistas com isso.
Para atingir excelência, você precisa se aprofundar, imergir naquele assunto, com curiosidade, no poder nerd. Eu vejo isso muito nos meus pais. Meu pai estudando línguas porque gosta, estudando os grandes autores de 500 ou 1200 anos atrás porque quer, porque gosta, quer entender a cabeça, quer entender quem somos, de onde viemos. Sei que às vezes é difícil alinhar o que a gente quer estudar com o nosso trabalho. É muito difícil. Mas o poder disso é muito forte.
Meu irmão, Guilherme Silveira, que está várias vezes no podcast e é um dos responsáveis pela Alura, é muito disso. Ele quer estudar como funcionam os algoritmos, o data science por trás das redes neurais. Não quer só ficar aplicando a rede neural automaticamente, ali do Watson ou da AWS, que está lá escondida. Não é ruim se você trabalha com outra área e às vezes só quer consumir o serviço de inteligência artificial. Mas eu admiro muito no meu irmão, e na minha irmã também, uma enfermeira que me inspira, essa profundidade que eles querem entender. Querem fazer doutorado porque querem, não só porque vai ter um emprego novo e melhor, mas porque têm um interesse genuíno.
O nerd power é esse: se aprofundar, querer se aprofundar, pela curiosidade de como funcionam as coisas. Como funciona a revolução dos planetas ao redor do Sol. Como Galileu conseguiu ver as quatro luas de Júpiter em 1610. Como só descobriram a primeira lua de Saturno não sei quantos anos depois. Como as luas que têm formato arredondado ficam assim pela própria gravidade. Olha que incrível: quando falam que Júpiter tem dezenas de luas, na verdade só umas quatro são redondas, que têm massa suficiente para a própria gravidade ter feito elas em formatinho de bola. As outras têm carinha de asteroide, como são as duas luas de Marte, Fobos e Deimos. Elas nunca ficaram redondinhas porque não são grandes o suficiente para a própria gravidade amassar e fazer bolinha.
Estou dando um conteúdo raso para vocês. Eu queria entender mais profundamente, pela nerdice, pela vontade de entender como funciona.
O compromisso para o próximo ano
Essas foram as cinco histórias. A minha conclusão e provocação é que estou trazendo uma próxima etapa do grupo Alura e do Hipsters. E essa história também se desdobra em três frentes.
A newsletter de imersão: se você gostou dessa reflexão, vai lá em alura.com.br/imersao, põe seu e-mail. Estou mandando com frequência de quase um por semana, com reflexões como essa, de aprendizagem, sobre imergir no conhecimento e tecnologia. Não sou só eu, tem muita gente do time de didática, de design instrucional, a equipe de student experience, a equipe de Scuba Dev, que a gente chama aqui de Scuba Team. O time das pessoas que se aprofundam, me ajudando a fazer essas reflexões.
O canal da Alura no YouTube, que está totalmente focado em dev, em desenvolvimento de software, e no Dev em T. Você tem que aprender com profundidade o seu back-end, ou front-end, ou data science, mas também é interessante entender um pouquinho de UX, um pouquinho de gerenciamento de produtos, um pouquinho de squads, um pouquinho de agile. Porque esse T vai te permitir encaixar, reaprender, às vezes até desaprender conceitos antigos. Não é à toa que as empresas estão buscando pessoas com capacidade de aprendizagem, porque a tecnologia muda muito rápido e o que o cliente quer muda muito rápido. Não só a tecnologia por si só, mas as boas práticas, como a gente faz o software, a engenharia do software. The Pragmatic Programmer, Clean Code, que acho incríveis, também vão mudando com o tempo, apesar de que os grandes livros escritos há 20 anos perduram.
O podcast Scuba Dev: um novo podcast onde os nossos alunos e alunas contam as histórias das carreiras e fazem reflexões do que fez essas pessoas chegarem lá. Desde pessoas que tinham seguido carreira militar e que hoje trabalham com machine learning em Berlim, até pessoas que começaram a programar com 35 anos, pessoas que trabalham com saneamento básico e aprenderam Python para automatizar seu trabalho. Elas misturam diversas disciplinas, não só de tecnologia, para atingir um resultado muito melhor para as pessoas, para a humanidade, para o seu trabalho. Um dev em formato de T mesmo: se aprofunda em uma área, saneamento básico, astronomia, astrofísica, machine learning, mas também conhece outros conceitos.
Todo o Hipsters, toda a Alura, em 2021, a gente está reformulando inteiramente para entrar nesse conceito do Dev em T. Esse profissional técnico que vai se aprofundar, entender níveis de abstração, entender o que está por trás. Realmente não ficar só entregando telinha. Claro que é importante, e começar a carreira assim é incrível. Mas a gente vai falar mais do Dev em T, explicar o que é, trazer relatos, conceitos, artigos.
Eu quero encerrar com um agradecimento pessoal. Foi um ano muito difícil. Quero agradecer todo mundo que me apoia e me apoiou. Tem todas as pessoas da empresa que me inspiram muito, histórias que foram contadas na festa de fim de ano da Alura, que me emocionei.
Mas eu queria registrar o impacto da minha família no meu trabalho. Eu sempre sou a pessoa que fala para as pessoas: não confunda a sua empresa com a sua família, seu trabalho é um lugar, sua casa é outro. Tem muita gente que fala “poxa, eu adoro trabalhar aqui, parece a minha casa”. Não seja a sua casa. Mas a minha família me apoia no trabalho. Estou agora gravando do quarto da minha filha de dois anos, que foi expulsa do quarto para eu poder ter um escritório.
Agradecer a Olívia e a Elisa, por esses encantos, pelas perguntas que elas fazem sem parar, pelos questionamentos. Inclusive os questionamentos sobre o céu, sobre a lua. “Quando está sol, onde está a noite? É a lua que traz a noite? Se não é, por que a gente também consegue ver a lua enquanto está sol? Por que ninguém nunca foi para Júpiter? Por quê?”
Meus pais dizem que essas minhas filhas têm as mesmas perguntas que eu fazia. Vou considerar isso como um elogio para mim e para elas. Espero que vocês também continuem curiosos, curiosas, continuem nerds. Acho que é muito bacana essa inspiração que a família dá. Agradecer meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã, Marcela, minha companheira, meus sogros. E as minhas filhas.
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