Quarentena, Júpiter e curiosidade nerd — Hipsters 233

Episódio de fim de ano do Hipsters Ponto Tech em que conto cinco histórias pessoais de 2020 — um ano de pandemia que, apesar de tudo, trouxe reflexões profundas sobre aprendizagem, curiosidade e o que significa se aprofundar de verdade.

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A quarentena, Júpiter e os besouros

No final de fevereiro de 2020, me isolei com minhas filhas e meus sogros numa casa pequena no interior de São Paulo. Ficamos 57 dias totalmente isolados. Para quem cresceu menino de prédio, aquela experiência foi marcante: ver as flores realmente abrindo, o ciclo das plantas mudando a cara do verde — coisas que estudei na escola e nunca tinha vivenciado.

Mas o que mais me impressionou foi o céu. Olhar todo dia para cima e perceber que, naquele firmamento que parece fixo, alguns pontos se movem — os planetas. Vênus, que costuma ser a primeira “estrela” a aparecer, muda de posição a cada noite em relação ao Cinturão de Órion ou ao Cruzeiro do Sul. E Júpiter, Saturno, Marte — todos seguem uma linha porque estão quase no mesmo plano orbital.

É incrível que pessoas há dois mil anos tenham concluído que a Terra não era o centro, sem nenhum telescópio. Os navegadores já usavam o céu para orientação sem saber que aqueles pontos eram planetas girando ao redor do Sol. Só mil anos depois a humanidade entendeu por que aquela navegação funcionava. Na computação a gente faz isso o tempo todo: usa recursos do framework, da linguagem, sem saber como funcionam por baixo.

Quero destacar Ole Rømer, um astrônomo dinamarquês que em 1676 observava as luas de Júpiter — descobertas por Galileu em 1610. A lua Io completa uma volta ao redor de Júpiter em cerca de 42 horas. Rømer percebeu que esse tempo variava poucos segundos conforme a Terra se aproximava ou se afastava de Júpiter. Conclusão: a luz não é instantânea — ela leva tempo para chegar. Há 350 anos, com instrumentos precários, alguém deduziu isso. E os outros astrônomos da época disseram que ele estava errado.

Ainda na quarentena, plantamos mamoeiros. Um deles apareceu cortado — um corte perfeito, como de motosserra. Meu cunhado, engenheiro florestal, explicou: foi um besouro serrador. O bicho morde ao redor do caule até a árvore cair com o vento. Eu, com minha ignorância da natureza, achei que alguém tinha passado uma faca ali. Quando você não conhece o domínio, tira conclusões erradas dos efeitos que observa.

Aprender em 21 dias ou em 10 anos?

Peter Norvig, diretor de pesquisa do Google, tem um ensaio clássico: Teach Yourself Programming in Ten Years. Na época em que estudei, havia livros como Aprenda Java em 21 Dias ou PHP em 24 Horas. A provocação de Norvig é simples: em 21 dias você dá um pontapé, olha uns exemplos. Mas não dá para respirar, cometer erros, aprender com eles, ter prática intencional, conversar com pessoas mais seniores.

Ele escreveu isso antes do Malcolm Gladwell popularizar a ideia das 10.000 horas no livro Outliers. A mensagem é a mesma: para dominar algo — tecnologia, esporte, música — você precisa de consistência, frequência e determinação ao longo do tempo.

Na prática, isso significa entender uma ou duas camadas de abstração abaixo do nível em que você trabalha. Fábio Kung, que trabalhou no Netflix, trouxe essa ideia num evento da Alura: não basta dominar o framework. Em algum momento, entenda a linguagem por trás — JavaScript por trás do Node.js, Java por trás do Spring, C# por trás do ASP.NET MVC. E talvez mais uma camada: a VM Java, a V8, o .NET runtime.

Eric Schmidt, ex-CEO do Google, conta no podcast Masters of Scale que gosta de contratar pessoas que treinaram para as Olimpíadas — porque elas desenvolveram resiliência e prática intencional. Não é qualquer treino: é saber onde melhorar, quando descansar, estudar sem praticar, conversar com o treinador. É o mesmo princípio para quem programa: planeje o que vai estudar, não fique só na execução automática de tarefas.

Vida em Vênus, código bagunçado e o profissional em T

Em 2020 detectaram fosfina na atmosfera de Vênus — uma possível bioassinatura. A Roberta Arcoverde, que grava conosco no Hipsters, foi ler o artigo na Nature e encontrou o código-fonte em Python e C disponibilizado pelos pesquisadores.

Quem é programador Python ou C olha aquele código e toma um susto: 10 mil linhas num único arquivo, números hard-coded, sem testes de unidade, com comentários do tipo “descomente essa linha para testar”. Foram doutores de Harvard, MIT e grandes universidades da China e Rússia que escreveram aquilo. É um código funcional que descobriu (ou não) vida em outro planeta — mas que não segue nada do Clean Code ou do Pragmatic Programmer.

Isso ilustra bem o profissional em T: a barra vertical é sua especialidade profunda; a horizontal é o conhecimento complementar. A astrônoma precisa saber Python para processar dados do Hubble. O programador precisa entender o domínio do negócio. Num episódio do Hipsters, um astrofísico da USP e uma meteorologista da IBM falavam de GitHub, Python e commits com propriedade impressionante.

David Epstein tem uma TED Talk sobre generalistas vs. especialistas. Leandro Karnal tem um vídeo sobre o mesmo tema. Dijkstra, o primeiro programador registrado da Holanda na década de 50, comparava computação com astronomia: o telescópio não é a astronomia, assim como o computador não é a computação. Mas entender o telescópio te torna um astrônomo melhor.

O poder da narrativa

Minha companheira, a Marcela, trabalha com saúde e ficou na linha de frente da Covid. Minhas filhas, muito pequenas, passaram semanas sem ver a mãe. A Marcela então desenhou um livrinho — A Mamãe Matou um Vírus — com umas dez páginas explicando o vírus, seu trabalho, por que as crianças só podiam ver a mãe “através da grade”. Postou no Instagram e veio a Globo News, a Marie Claire — aquele efeito viral da internet. Foi famosa por 15 dias.

O que me ficou é o poder de uma história. Mais do que o R do vírus, o número de contágio ou a taxa de letalidade, a narrativa toca, ensina e fica. As fábulas funcionam assim. Os textos sagrados ensinam por parábolas, não por estatísticas.

Nassim Taleb fala disso: basta um cisne negro para mudar toda a percepção, mesmo que nunca tenha acontecido antes. E Michel de Montaigne — um dos escritores favoritos do meu pai e do Taleb — escreveu seus Ensaios contando histórias para provocar reflexões. O ensaio dos canibais, em que indígenas do Brasil são levados à França, é uma inversão genial: quem são os canibais, eles ou nós? A primeira história da coletânea conta de mulheres conquistadas que, autorizadas a sair levando o que pudessem carregar, saíram com os maridos nos ombros — hackeando a regra do general romano.

Na Black Friday é igual: as histórias de queda de sistema ensinam mais que qualquer manual de best practices. “O sistema de CEP caiu, o frete parou de calcular, o que fazemos?” — essas histórias concretas inspiram as equipes a se prepararem para o pior cenário.

Curiosidade nerd e a busca pela excelência

Paul Graham, criador da Y Combinator, escreveu sobre earnestness — interesse genuíno, sinceridade. Ele diz que a palavra nerd simboliza essa curiosidade por entender como as coisas funcionam. E que o oposto do nerd não é o popular, mas a politicagem: fazer só o necessário, sem querer saber por quê.

Eu diria que se você é dev e nunca parou para perguntar “como esse framework chama meu JavaScript?”, “o que significa não ter threads múltiplas no JavaScript?”, “por que o Python 3 quebrou o print do Python 2?” — está perdendo a oportunidade de se aprofundar. Não digo que você precise saber tudo, mas ter a curiosidade.

A prática intencional aparece de novo aqui: as pessoas que treinam para Olimpíadas não repetem o mesmo movimento todo dia. Num dia praticam um movimento, no outro estudam sem praticar, no terceiro conversam com o treinador. Planeje sua nerdice. 2021 está chegando: qual é o seu plano de estudo? Tudo bem mudar daqui a seis meses — mas faça a reflexão.

Vejo isso nos meus pais — meu pai estudando línguas e autores de 500 anos atrás porque gosta, porque quer entender de onde viemos. Vejo no meu irmão Guilherme Silveira, querendo entender os algoritmos por trás das redes neurais em vez de só consumir APIs. E nas minhas filhas, que fazem as mesmas perguntas que eu fazia: “Por que ninguém nunca foi para Júpiter?”, “Por que a lua aparece de dia?”

Continuem curiosos. Continuem nerds.