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Reflexões curtas, conexões entre ideias, reações. As mais recentes (93) vêm de áudios e textos que mando pro meu bot de Telegram desde abril de 2012. As outras (0) são tweets antigos selecionados manualmente, de 2009 a 2026.

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O jogo da velha 3D e as conversas de corredor

Eu encontrei uma professora, doutora em computação, que curiosamente foi minha caloura na época que eu estava no mestrado e fui monitor de uma disciplina na USP que se chamava MAC 122, que era a primeira matéria que encarava algoritmos de verdade e estrutura de dados.

E ela veio me perguntar se eu lembrava de uma competição que eu fiz de jogo da velha 3D, que era o último exercício-programa que deveria ser entregue da disciplina. E era uma época que eu estava muito animado com Java e essa brincadeira de jogos um combatendo o outro, num momento que inteligência artificial era algo muito rudimentar, ainda mais com pouco acesso computacional.

Enfim, o que ela relatou é de como era interessante você parar para pensar na estratégia de um jogo que você nunca tinha visto, no caso o jogo da velha 3D, e depois colocar um computador para batalhar contra o outro. A gente criou um formato de output padrão e com isso, no último dia de aula, a gente colocou uma disputa para ver quem venceria. E o algoritmo precisava aceitar N dimensões.

Ela disse que foi uma experiência muito interessante porque causava essa conversa entre os corredores de ideias de estratégia. E ela também disse que hoje, entre alunos e alunas de computação, isso fica mais escasso porque, por mais que já no Google houvesse estratégias para jogos como esse, tudo se acelerou com a inteligência artificial, onde o acesso fica ainda mais fácil e você cai rapidamente para a conclusão. Não há mais uma troca entre as pessoas e uma discussão, que certamente é um esforço produtivo, que traz experiência e conhecimento para quem está aprendendo.

Eu me lembro vagamente desses exercícios. Isso já deve fazer uns 23, 24 anos. Mas tenho na memória uma imagem das bolinhas do jogo da velha caindo de maneira animada, usando o Java 3D, que era uma biblioteca que tentou prometer algo para jogos da época, mas obviamente não faria sentido nenhum.

Percebo como eu sempre estive nessa parte de inteligência de jogos, jogos 3D, apesar de que nunca me aprofundei em nenhuma dessas questões.

Atualização: encontrei uma versão de 2010 desse exercício-programa, ainda na MAC 122, com o torneio entre os programas dos alunos no fim do semestre.

#educacao #inteligencia-artificial #coding
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Espólios da Califórnia: Chocolate

Aproveitei a viagem com a StartSe para visitar uma loja icônica: a Chocolate Covered em São Francisco. Acredito que haja chocolates de mais de 150 fabricantes artesanais de bean to bar.

O butim: as barras e discos trazidos na mala

Esses discos redondos da Taza, que, em teoria, têm alguma origem mexicana, mas são fabricados nos Estados Unidos, são muito bons. Eles têm uma textura rústica que eles chamam de “stone ground”, que é do moedor de pedra. Essa Raaka e essa que tem até o nome de Stone Grindz também têm essa proposta, apesar de que, nesse último, não percebi uma textura diferente.

O colorido, incrível, é da Islândia, e as meninas amaram. Os outros ainda estou para provar.

Aqui algumas imagens da emblemática loja:

Estantes da Chocolate Covered: paredes de barras do chão ao teto

Levei chocolates brasileiros da Caza e da Odle para o Jack, o famoso dono da loja:

Selfie com o Jack, dono da Chocolate Covered, segurando as barras da Caza e da Odle

E a listagem completa desses fabricantes, com links:

  • Taza Chocolate (EUA, os discos stone ground)
  • Fjåk Sjokolade (Noruega, o de brunost, queijo marrom norueguês)
  • Stone Grindz (EUA, almond butter com sal de lava)
  • Raaka (EUA, cacau não torrado: Amaranth Vanilla, Coconut Milk e Pink Sea Salt)
  • Fossa (Singapura, yuzu com flor de sal)
  • Volo (Califórnia, dark milk 62%)
  • Omnom (Islândia, o colorido de Milk + Caramel)
  • Naïve (Lituânia, a caixa preta)
  • Metiche (México, 70% cacao — bean to bar de Guadalajara, só cacau mexicano)

Interessado em chocolates brasileiros muito bons? Aqui um post sobre os meus preferidos.

#chocolate #cotidiano #pessoal
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O vício no celular

O primeiro ponto que precisamos concordar: estamos viciados. Não é um eufemismo. Esse professor Arthur Brooks faz uma analogia com o alcoolismo na Rússia em uma época distante. Como havia muitos alcoólatras, ninguém se reconhecia como sendo um. Simples assim.

Precisamos de mais tempo sem estímulos. Não podemos ficar apenas com o banho como momento de tédio e introspecção. Dizem por aí que em breve vão captar nossos sonhos para que a gente também de alguma forma “trabalhe” dormindo, assim como já trabalhamos durante nosso lazer (postando nas redes sociais).

O professor dá alguns passos importantes para tentar se reprogramar. Vou citar o básico. Mas não assistir o vídeo, ou pedir o resumo para o Gemini, já é um sinal do seu vício em “produtividade”.

  • não use o celular na primeira hora do dia nem antes de dormir
  • deixe a tela do seu celular preto e branco (pode ser só das 10 da noite às 8 da manhã no começo). Você perderá um pouco de interesse pela tela.
  • coma sem usar o celular.

Há outras táticas citadas, mas me concentrei no que estou tentando fazer.

E retomei o uso do caderninho de anotações, em vez de ficar sacando o celular o tempo todo para usar o Google Tasks.


Faisca comenta:

  • O Arthur Brooks dá em Harvard uma das disciplinas mais disputadas da escola de negócios, sobre liderança e felicidade. Antes da vida acadêmica, foi trompista profissional numa orquestra na Espanha.
  • A parte dos sonhos não é tão ficção: em 2021 a Coors fez um experimento de “incubação de sonhos” para plantar a marca nos sonhos das pessoas antes do Super Bowl. Cerca de 40 pesquisadores do sono assinaram uma carta aberta alertando contra publicidade em sonhos.
  • A tela em preto e branco tem respaldo: um estudo com universitários americanos mostrou queda no tempo de tela só de tirar a cor. Não é à toa que existe gente muito bem paga escolhendo o tom exato de vermelho da bolinha de notificação.
  • Ironia devidamente registrada: esta nota sobre vício em celular foi ditada num celular e publicada por um bot. O caderninho agradece.
#comportamento #tecnologia #friccao
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A era do Dash-Shaped Professional

Dash-Shaped Professionals. Eu boto muito tempo na tecla do profissional em T (já falei disso nesta nota), que às vezes até tenho medo de citar o termo, pra eu não ficar carimbado com essa visão. Na verdade é bastante óbvio que, no mundo da sociedade do conhecimento, você tem uma certa amplitude e acaba se fazendo necessário, especialmente se você está liderando ou trabalhando com muitos decisores simultâneos.

Animação: o I vira T, o T vira travessão

E aí fica essa discussão do profissional especialista versus generalista. Inclusive é a discussão daquele livro Range, que no Brasil ganhou o subtítulo “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”. Todo mundo tenta bater numa conclusão que não é nem especialista nem generalista.

Mas o fato é que, nessa velocidade de transformação do trabalho, e certamente agora nos últimos quatro anos, com a pressão da inteligência artificial, a gente é levado a ser ainda mais generalista. Você precisa conhecer de tudo um pouco, o que te força a ter menos tempo de profundidade.

Somando isso com esses mecanismos que diminuem a nossa fricção e a nossa necessidade cognitiva, fica ainda mais difícil de você gastar mais tempo na sua própria especialidade. Então cada vez mais a gente vai se forçando para o travessão, para o dash.

Eu acho interessante que esse dash tenha o sentido de ser essa barra horizontal: você generaliza e não tem profundidade em nada. E também o dash tem uma conotação interessante atualmente, quando a gente cita os em dashes, que eu não sei exatamente a tradução em português, que seriam travessões. Esses separadores que na língua inglesa as pessoas costumam usar. No português a gente geralmente usa entre vírgulas, mas muita literatura americana, jornalistas, usam para fazer um aposto. E a inteligência artificial ama esses apostos, usando esse formato do travessão, dos dashes, dos em dashes.

Então, acho que a gente chegou na era do Dash-Shaped Professional. Aquele que tem que fazer tudo rápido, que também é uma tradução do dash. Tudo genérico e você precisa ser um generalista em todas as coisas.

A velocidade, a pressão e a inteligência artificial geram esses em dashes e esse dash. Essa força de velocidade que não nos permite se conectar com profundidade em nada.

Não dá espaço para o tédio, não dá espaço para o pensamento. Hoje em dia, o único momento que você ganha alguma profundidade de pensamento é quando você está tomando banho e não tem nem o tique de olhar o seu próprio dispositivo móvel.

🤖 nota do Faisca

o Machado de Assis usava bastante o aposto entre travessões; o par de travessões já foi elegância corrente no português.

#profissional-em-t #inteligencia-artificial #carreira
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Os três elogios depois de uma palestra

Tem muitos anos que eu ouvi uma dessas anedotas de algum palestrante. Ele falava que quando a gente assiste uma apresentação de alguém, ou mesmo que seja uma aula, você pode sair ali com três diferentes tipos de elogios.

Primeiro é você falar: “Nossa, esse palestrante é incrível, esse cara é impressionante mesmo, que inteligência, que linda”. Você sair de lá e falar: “Poxa, esse assunto é incrível, muito interessante, é algo que faz todo sentido”. E a terceira é você olhar e falar: “Poxa, eu sou capaz de entender, de ser desafiado. E eu posso evoluir com essa informação, posso utilizar. Ou fiquei bem instigado”.

Pode ser o foco no ego do palestrante, pode ser o foco no assunto, ou pode ser o foco que traga para a audiência. Tentar se conectar com o público, se colocar nos sapatos deles, poder entender como que isso pode impactar e gerar reflexões para a própria pessoa, vida e trabalho, é a melhor forma de transmitir o conhecimento. Tanto vai ser verdadeiramente mais impactante quanto o efeito gerado, a percepção de que aquela aula foi boa, será maior.

Enfim, é apenas um desses casos anedóticos que, quando a gente resume muito, quando você aprende pela inteligência artificial, não adianta: você precisa viver essa experiência.

Por isso eu não gosto tanto daquelas palestras que começam com a pessoa se apresentando e falando tudo o que ela fez, os títulos, as consagrações e o currículo dela. Porque parece que vai pelo primeiro caminho. Não é uma regra, mas óbvio que é esquisito.

E a segunda opção é quando alguém dificulta muito o assunto, mostra o quão árduo ele é e traz o tempo inteiro palavras difíceis e conceitos complexos que obviamente a audiência não tem conhecimento ou não está preparada para aquilo.

E o terceiro formato é aquele onde você consegue fazer a construção, trazer o esforço produtivo e que a audiência repita o processo cognitivo e o construtivismo mesmo, certo? De você pegar o conhecimento e ir montando os blocos para que a audiência chegue à mesma conclusão.

É óbvio que em um curto período de tempo isso fica mais difícil, mas se ela conseguir montar duas ou três peças e algumas outras ficarem faltando, já é o suficiente para essa percepção ser bastante positiva.

#educacao #storytelling #comportamento
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Livros favoritos das meninas

Livros favoritos das meninas: eu tô organizando as centenas de livros que elas leram nessa primeira década de vida e tentando guardar quais são os preferidos, mais famosos e também os que eu li mais, não necessariamente os que elas mais gostaram. Então, uma coletânea meio bagunçada aqui, e um pouco fora de ordem.

Macaco Danado, da Julia Donaldson. Uns e Outros, de Dipacho. Outro livro é A Parte que Falta. O outro é Achados e Perdidos, de Oliver Jeffers. Amoras, do Emicida. Presos, de Oliver Jeffers de novo. As Férias do Pequeno Nicolau, do Goscinny. Vá Embora, Grande Monstro Verde!, do Ed Emberley. As Mulheres e os Homens, Equipo Plantel.

Depois vem Simbá, o Marujo, das mil e uma noites, recontado pelo Carlos Heitor Cony. Depois vem Píppi Meialonga, da Astrid Lindgren. Elas amavam ler isso aqui de forma capitulada.

Pedro Vira Porco-Espinho, Janaína Tokitaka, foram lidas muitas vezes. Bem Lá no Alto, Susanne Straßer. Nhac, Carolina Rabei. Ratinho Manhoso, da Tatiana Belinky, muitas vezes. A Árvore Generosa, Shel Silverstein. Jacaré, Não, Antônio Prata. Chapeuzinho Amarelo, do Chico Buarque. Pedro e o Lobo, do Sergei Prokofiev; já ouvi também muitas vezes a música e a contação, que acho que é da Rita Lee. Poesia da Minha Casa, Ivo Minkovicius; a Elisa sabe de cor essa última poesia.

Simbad, o Marujo, da Ana Maria Machado. Malala, de Adriana Carranca. O Livro Sem Figuras, B.J. Novak; as meninas também sabiam isso aqui meio que de cor, elas iam completando quando eu conto. Olivia, Ian Falconer. Bruxa, Bruxa, Venha à Minha Festa, esse livro é muito legal, escrito por Arden Druce; li muito quando elas eram pequenininhas. A Quatro Mãos, Marilda Castanha. Os Diferentes, Paula Bossio.

Tem um livro aqui que chama A Fazenda, tradução Mônica Alves, ilustração Angelina Sbandelli. É um desses pequenininhos de ler quando a criança é pequenininha e ela quer colocar a mão pra sentir. Não é necessariamente que ele era favorito, mas teve muito desse estilo.

Aí vem a série de clássicos recontados, que são muitos, da Tatiana Belinky, que é a maioria. Acho que é A Conquista da Cidade Sagrada, Memórias de um Burro, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, O Califa Cegonha, Simbá, o Marujo de novo, O Anão Amarelo, amaram, que é, em teoria, o primeiro conto de fadas que usa esse termo. Os Cisnes Selvagens, que é do Andersen, mas recontado pela Belinky. O Isqueiro Encantado, também dele. E O Rouxinol. Eu acho que um ou outro eu ainda não li, mas enfim.

Depois tem uma série que chama Histórias à Brasileira, que são quatro livros, também recontados pela Ana Maria Machado. Ela tem A Donzela Guerreira e Outras, A Moura Torta e Outras, Pavão Misterioso e Outras, Pedro Malasartes e Outras. Pedro Malasartes, que certamente é um dos favoritos meus e das meninas, especialmente da Elisa.

Sr. Boaventura, do Tolkien, que a gente leu em pedaços e foi algo muito maluco. Pássaro Amarelo, Olga de Dios. Olhe para Mim, que é um livro de Ed Franck. Monstro Rosa, Olga de Dios; a gente leu bastante. Causos de Pedro Malasartes, que é o reconto de Júlio Emílio Braz.

Emocionário: Diga o Que Você Sente. Esse tipo de livro a gente leu vários, por exemplo O Monstro das Cores, que é da Anna Llenas, que também é sobre as crianças aprendendo a lidar e citar o que é cada sentimento. Isso acabou ficando mais importante pra mim do que eu imaginava.

Depois tem Os Reis do Parquinho, Joseph Kuefler. Nossa, as meninas se divertem com esse. A Ilha do Vovô, meio triste, do Benji Davies, mas muito legal. O Grúfalo, quando pequenas, li muito. Julia Donaldson também é. O Filho do Grúfalo. O Grande Urso Esfomeado. Na verdade, o nome do livro é O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro e o Grande Urso Esfomeado, Don e Audrey Wood, e eu fazia contando e dividindo morango com as crianças, pra elas comerem também: eu tirava do livro e dava na boca delas, elas amavam. O Livro dos Sentimentos, Todd Parr. Então tem vários desses sentimentos. Tem Os Convidados da Senhora Olga, Eva Montanari.

Tem dois grandes, grandes de tamanho: um que se chama O Bocejo, de Renato Moriconi e Ilan Brenman, e o outro se chama Telefone Sem Fio, de Ilan Brenman e Renato Moriconi também, que são interativos, acho que da Companhia das Letrinhas, que são muito interessantes de você ler e teatralizar.

Depois tem as coletâneas de contos: tem dos Irmãos Grimm, tem O Patinho Feio do Andersen, tem A Sereiazinha do Andersen, tem o Irmãos Grimm e os 77 Melhores Contos e tem Tolstói, Contos Completos, que não é bem pra criança, mas enfim. É difícil, às vezes você lê um ou outro que é um pouco mais pesado, ainda mais pro contexto de época do que se lia de crianças.

Tá faltando livro de quando elas eram bem pequenas, mas acho que representa bastante. Tem os do Dahl, tem alguns livros de cultura brasileira, tem O Dedo Mágico do Roald Dahl e alguns outros do Dahl. Tem aquele do Marcelo, Marmelo, Martelo, que eu não sei onde tá e que elas gostavam bastante também. E tem um que chama Lá e Aqui, alguns desses de casais divorciados. Lá e Aqui é de Carolina Moreyra e Odilon Moraes.

#literatura #pessoal #cotidiano
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As três perguntas de Tolstói

Eu estava organizando os livros da Olivia e da Elisa, que agora eles são muitos. Estou querendo fazer uma doação e também escrever um post sobre os livros preferidos, tanto delas quanto os que eu gosto de ler para elas à noite. Um dos poucos rituais que eu consegui manter firme, o de ler quase todas as noites que durmo com elas.

A bagunça da arrumação: pilhas de livros infantis pelo chão do quarto

Então tem livros curtos, interessantes. Tem fábulas, coletâneas. Tem livros capitulares e até alguns que eu tenho que ir parando de pouco em pouco. Inclusive, entre os livros está a coletânea de contos infantis de Tolstói (assim como também estão os irmãos Grimm, Mil e Uma Noites e Hans Andersen… e cada um possui uma dificuldade para crianças de idades e contextos diferentes).

Por curiosidade, também separei uma montanha que deve ter uns 14, 16 livros que eu acho que eu nunca li para elas, e elas também não se lembram.

E eu peguei um que se chama As Três Perguntas, que é baseado em alguma história do Tolstói, onde um menino, Nicolai, tem três perguntas que quer responder, que são: qual é o melhor momento para fazer as coisas? Quem é mais importante? E qual é a coisa certa a ser feita?

Capa de As Três Perguntas, de Jon J Muth

Então soa bastante desse cristianismo do Tolstói e de tudo que passa pelos livros dele. É curtíssimo. As personagens têm os nomes dos grandes escritores, tem o nome do Pushkin, do Gogol e uma Sônia, que eu não sei quem é.

E o livro termina dizendo:

“Então lembre-se de que há só um momento mais importante. Esse momento é agora. Quem é mais importante é quem está com você. E a coisa mais certa a ser feita é fazer o bem a quem está ao seu lado. Isso responde, querido menino, às perguntas sobre o que é mais importante no mundo.”

A página final do livro, com a pipa vermelha

Isso me lembra também uma passagem do Voltaire, da Princesa da Babilônia, onde ele também tenta dar um direcionamento para a personagem do que é importante na vida: “Ele empregava sua vida a fazer o bem, a cultivar as artes, a penetrar nos segredos da natureza e a melhorar o seu ser”. Já escrevi sobre ela aqui no blog em 2014.

E eu também lembrei que a Cecília leu uma entrevista de um bispo católico em que alguém perguntava qual era a pessoa mais importante. Ele respondia que era com quem estava conversando naquele momento. Eu achei sensacional. Não consegui encontrar essa passagem.

Nota: descobri depois que a Sônia é a Sofia “Sonya” Behrs, esposa do Tolstói (os bichos do livro são todos homenagens russas: o macaco é Gogol, o cachorro é Pushkin, e a tartaruga sábia que responde às perguntas se chama Leo, o próprio Tolstói). E que o conto original é “As Três Perguntas”, publicado pelo Tolstói em 1903, onde quem faz as perguntas é um rei e quem responde é um eremita.

#literatura #cotidiano #pessoal
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AGI: um marco que perde o sentido ao ser atingido

AGI é um assunto que eu não gosto muito de falar a respeito. Eu concordo até mesmo com o Sam Altman, que diz que é um termo de marketing e ao mesmo tempo um conceito difícil de definir. A partir do momento que a gente atinge algum mecanismo computacional que tenha uma capacidade que o intelecto humano também poderia ter, a própria importância do conceito se perde.

Eu gosto de fazer uma analogia com o teste de Turing. Nos últimos dez anos, esse assunto, se a inteligência artificial passou ou não no teste de Turing, se perdeu de alguma forma, foi ficando uma nuvem. As pessoas já não debatem mais se passou ou não, quando vai passar, quando é que passou, qual foi o milestone específico que concluiu esse passo na tecnologia. Ele deixa de ser importante no momento em que é atingido. A discussão perde o valor, pelo menos essa é a forma que eu vejo.

Então, esse tópico dessa semana, do time da OpenAI ter resolvido um dos Millennium Problems da matemática (o problema de Navier-Stokes), um dos sete problemas, poderia ser um marcador de AGI. Mas eu também ouço pessoas falando que o que aconteceu mesmo foi em dezembro de 2025, quando os agentes de código demonstraram uma capacidade bastante impressionante de escrever software, especialmente aqueles que não precisam de muita genialidade, mas de muito trabalho. Inclusive, nessa visita ao Vale do Silício, alguém da DeepMind citou essa data e também colocou essa questão de o que é AGI, será que isso importa. Tem gente que diz que no futuro a gente vai olhar para trás e enxergar uma data, um período específico.

Visualização da OpenAI do cenário de singularidade nas equações de Navier-Stokes

Mas eu acho complicado. É o mesmo de dizer que o smartphone nasceu na data que o Steve Jobs criou o iPhone? Será que foi antes ou foi depois? Ou que o computador pessoal invadiu o mercado em que data? Foi quando a IBM popularizou? Ou quando alguém inventou o Apple II? E quando a internet passou a ser ubíqua? Quando ocorre a globalização, por exemplo? É difícil de dizer, até porque são graus. Não tem um threshold que diz sim ou não, por mais que haja milhares de benchmarks. Todo mundo adora inventar seu próprio benchmark para os modelos de LLM.

De qualquer maneira, eu fico com a impressão de que a gente atingiu um patamar suficiente para executar tarefas complicadas. Eu digo até especificamente quando você tem o Computer Use, esses mecanismos em que o Claude ou o Codex pegam o seu mouse fantasma e saem clicando em abas, em telas e aplicações, preenchendo formulários e realmente trabalhando no computador para atingir algum objetivo. Isso gera milhares de reflexões.

Também tem outro post da OpenAI dessa semana, onde o Chief Scientist (Jakub Pachocki) coloca o problema do alinhamento e as questões de segurança entre os labs: precisamos ficar atentos a goals e sub-goals, onde um modelo não muito bem alinhado pode acabar insistindo em realizar uma subtarefa que não é interessante para o dono da tarefa grande, para a humanidade.

#inteligencia-artificial #tecnologia #agentes
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Terence Tao sobre os limites da inteligência artificial

O Terence Tao é um dos maiores matemáticos vivos e deu uma entrevista para o Big Think, onde faz analogias que eu achei muito pertinentes e também coloca sobre os limites da inteligência artificial.

A primeira analogia é sobre como funciona o trabalho científico, que é como se você fosse fazer uma trilha e quisesse chegar numa determinada cachoeira. Então você precisa encontrar seus caminhos e atravessar partes difíceis. Só que às vezes no meio do caminho você vê uma outra cachoeira ou algo interessante. Tira conclusões e chega em lugares que nem planejava antes.

Com a inteligência artificial é como se você agora tivesse um helicóptero. Se tivesse visto a primeira cachoeira, iria para lá direto, sem entender muito bem o caminho percorrido, os obstáculos e quais teriam sido os desafios para chegar até lá. Você cai direto na conclusão, o que é ótimo, mas acaba gerando outros problemas.

E ele cita também toda a teoria do geocentrismo e como Copérnico e Kepler: no começo, o modelo do heliocentrismo não funcionava tão bem quanto o geocentrismo numericamente, mas eles insistiram tanto, até testar diversas variações, para cair no modelo da elipse. Ele disse que, se fosse a inteligência artificial tentando diretamente, ela pararia rapidamente, porque veria que aquele modelo heliocêntrico gerava números piores e não era a direção correta.

Claro, ele é sempre cauteloso, dizendo que os modelos podem mudar. Assim como ele disse que, mesmo para trabalhar como um colaborador de inteligência artificial, ainda não há uma fluência boa de troca, onde você conhece aquele seu parceiro de trabalho e basta meia palavra para ele captar o que você está querendo falar e vice-versa.

E ele coloca, obviamente, os desafios que aparecem para os jovens cientistas. Antes a gente dava problemas fáceis para um aluno de mestrado resolver, para ganhar reputação, espaço, entender o trabalho. Hoje em dia, esses problemas fáceis que ainda estão em aberto, muitas vezes a inteligência artificial vai resolver. Então o trabalho de pesquisa inicial para um jovem cientista está cada vez mais escasso.

Achei interessante a forma que ele pensa, como ele se coloca e como ele comunica. Ele certamente é um entusiasta, mas reconhece que hoje há limites e que também pode trazer prejuízos para a comunidade científica, inclusive, de alguma forma, uma estagnação.

Um adendo. Conversando com meu irmão Guilherme, ele traz também um problema possível: com o avanço dos modelos, vai ficar mais difícil uma verificação das descobertas. É o caso do Millennium Problem que o time da OpenAI resolveu, que comentei na note sobre AGI. Por mais que se use Lean e afins, vai ser mais difícil encontrarmos falhas não matemáticas formais… afinal, os modelos erravam quantos erres tinha na palavra morango. E mais: meu amigo Angelim diz que os modelos vão sim encontrar cachoeiras no decorrer do processo de descoberta, basta pedirmos para ele ficar atento ao próprio reasoning. Não sei. Não vi ainda modelo colocando boas perguntas, apenas boas respostas.

#inteligencia-artificial #tecnologia #carreira
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São Paulo tem a cena de café mais interessante

Eu tive o privilégio de ir em vários cafés em São Francisco. Fui no Verve, no Voyager Craft Coffee, no Sightglass, no Ritual, no Barefoot e obviamente no Blue Bottle e outros desses que são um pouco mais de redes maiores.

Pode parecer bairrista, mas eu acho que São Paulo tá com a cena mais interessante de café. De todos esses cafés de São Francisco, só o Ritual e o Sightglass ofereciam mais de um grão pra você escolher, com diferentes torras, diferentes países e locais. Alguns dos outros só tinham um grão, e outros só ofereciam o tal do drip coffee, aquele café que já tá preparado no bule, onde, além do café já tá passado há muito tempo, você não tem a experiência de conversa, de ter uma troca com o barista para entender que café é aquele. Também notei uma mudança forte para os aparatos da Fellow, nascida na Califórnia, em vez dos clássicos da Hario, que ainda estão lá, mas em menor frequência.

Sightglass Coffee, em São Francisco

E eu vejo que São Paulo está mais para trás antes de chegar nesse mecanismo de ter um grão só, de tentar fazer tudo muito rápido e de deixar as coisas mais impessoais. As cafeterias de São Paulo: Fora da Lei, Catarina, Um Coffee, Sarta Café, Culto Café, qualquer um desses, independente da sua preferência, eles vão te oferecer uma conversa e uma variedade grande de grãos. E você vai encontrar isso inclusive nas pequenas galerias, como é o caso do Soul Café na Galeria da Augusta.

São Paulo também conta com locais interessantes para se comer perto dos parques, que oferecem até mesmo mais opções de grãos e de cafés do que diversos desses locais que eu frequentei em São Francisco. Dois exemplos notáveis são A Fornada, que tem uma unidade perto do Parque Ibirapuera, e o Quintal do Parque, inaugurado este ano, literalmente grudado ao Parque da Aclimação.

Achei mais enriquecedoras as experiências de São Paulo. É óbvio, passei só sete dias em São Francisco, então eu não consegui cavar os locais mais específicos, diferentes. Aliás, adiciono mais um: eu fui no Linea Caffe, que é um desses super badalados e premiados, e nem tinha pour over, só tinha o café que tava ali no bule e já pronto. Fiquei bastante decepcionado, pra ser sincero.

Já em chocolate, os espaços que vendem muito bean to bar são maiores aqui em São Francisco. Sem contar a tal da loja Chocolate Covered, que tem o Jack, que eu levei chocolate da Caza e da Odle pra ele. Ele tem uma coletânea que eu nunca vi nada parecido, nem mesmo naquelas lojinhas pequenas que tem em Zurique, e até mesmo na comparação com São Paulo, que lá naquela Santa Luzia tem um espaço especial de chocolates.

Enfim, apenas uma nota dos meus hobbies extremamente privilegiados e caros e interessantes. São gostos adquiridos. Uma vez que você entra, é difícil de sair.

#cafe #cotidiano #pessoal
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Startups em São Francisco, gigantes no vale

A gente está indo visitar, em São Francisco, três dessas empresas super hypadas de inteligência artificial. Tem a Anthropic, que é bastante óbvia, e tem a Runway e a Liquid.

É interessante ver que a gente está no Vale do Silício, que as empresas maiores, mais estabelecidas, ficam ali no vale, nas cidadezinhas menores e rarefeitas, e quem está começando e tem essa cara de startup e menos colaboradores e ainda está se provando de uma forma ou de outra, fica ali no furdúncio de São Francisco.

E eu acabei de pensar que também com os meus amigos que moram aqui há algum tempo, acontece o mesmo efeito. Quando eles chegam na Califórnia, eles vão morar no downtown em São Francisco. Depois vão indo um pouquinho mais longe para ganhar aquele conforto de uma cidade mais tranquila e mais pacata. É o mesmo efeito na pessoa física e na jurídica: acontece nos times de tecnologia.

#inteligencia-artificial #tecnologia #comportamento
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Stanford e a subcultura da garagem

Stanford tem esse ambiente verdadeiramente direcionado ao empreendedorismo. Eu sou um pouco crítico com esse discurso exagerado que coloca o empreendedor como herói, mas é verdade que aqui tudo gira em torno de tentar encontrar novas soluções, empresas e produtos.

Encontrei uma investidora de startups bem conhecida do Vale. Vejo como a cabeça dela está consistentemente tentando encontrar os problemas, pessoas e contextos onde ela pode aplicar seus conhecimentos para chegar a uma solução. Ela, em particular, tem ainda o propósito de ter um impacto positivo em educação e jovens dada toda essa transformação no mundo (que ela chamou de “step change” em vez de incremental).

Também me explicou que founders de Stanford podem nadar nas fontes da Universidade… Esse tipo de subcultura da garagem, de idolatria à criação de “valor”, é muito real em toda a região.

Selfie no pátio de Stanford, com as esculturas de Rodin ao fundo

Também tomei café no departamento de computação, no Voyager Craft Coffee. Foi interessante. Não havia pour over. A moça que escreveu “Baul” em vez de Paul no meu copo disse que era um café muito pequeno e só tinha espresso e café já pronto. Pedi um Flat White. E há um curioso interesse por Rodin em toda a região.

#educacao #cotidiano #cafe
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O bartender perguntou: a favor, contra ou neutral?

Essa semana estou na viagem do Vale do Silício e estava com o pessoal do podcast do IA Sob Controle, o Fabrício e o Marcus. A gente foi num bar em São Francisco, depois de um dia de caminhada, e tem essa cultura do barman conversar com você e trocar ideia, isso ser uma experiência, enfim.

Quando ele perguntou o que cada um fazia, os dois responderam sobre o podcast sobre inteligência artificial. E o Simon, o bartender, perguntou mais: se era a favor, contra ou neutral.

Isso me pegou de surpresa. Porque, no Brasil, se uma pessoa te fala que ela tem um podcast sobre inteligência artificial, a primeira pergunta que você vai fazer não vai ser se existe a chance de ser contra ou a favor. Simplesmente um noticiário, provavelmente um pouco a favor.

Depois, durante a conversa, ele demonstrou que não entende absolutamente nada nem do mundo digital, nem de computação, não sabe o que é token. E ele estava dando risada sobre o monte de outdoors que tem por essa região, todas elas falando de algum serviço de internet ou de inteligência artificial.

Mas dá para perceber que existe sim um movimento forte contra, ou pelo menos que enxerga a inteligência artificial de maneira negativa, especialmente entre profissionais que não são de tecnologia dentro de um polo que vive de tecnologia.

#inteligencia-artificial #comportamento #cotidiano
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Gritos uníssonos e terceirização das decisões

Esse trecho do Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, mostra essa mistura de política com as personagens, com filosofia e relações humanas. E confesso que às vezes me assusta um movimento de manada:

Jovens franceses levantavam o punho e urravam palavras de ordem contra o imperialismo soviético. As palavras de ordem lhe agradavam, mas ela constatou com surpresa que era incapaz de gritar junto com os outros. Só conseguiu ficar alguns minutos na passeata.

Contou essa experiência a amigos franceses. Eles ficaram espantados: “Então você não quer lutar contra a ocupação do seu país?”. Ela queria lhes dizer que o comunismo, o fascismo, todas as ocupações e todas as invasões dissimulam um mal mais fundamental e mais universal; a imagem desse mal era o desfile de pessoas marchando com os braços para cima e gritando as mesmas sílabas em uníssono. Mas sabia que não conseguiria se fazer entender. Sentiu-se constrangida e preferiu mudar de assunto.

Um amigo inteligente fez um contraponto importante: levando ao pé da letra essa mensagem, a gente acaba desacreditando qualquer movimento em grupo por uma pauta. Sim, é verdade. Acredito que o que me assusta é essa nossa terceirização de decisões e estudo.

Capa de A Insustentável Leveza do Ser, edição da Companhia das Letras

Essa frase que anotei há mais de 15 anos vem à cabeça, do Karamázov: “o homem não tem uma preocupação mais angustiante do que encontrar a quem entregar depressa aquela dádiva da liberdade … só domina a liberdade dos homens aquele que tranquiliza a sua consciência.”

Ficar gritando em uníssono e poder se sentir acolhido é uma forma de entregar a liberdade.

#literatura #filosofia #comportamento
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Bill Gates e os riscos da inteligência artificial

Bill Gates escreveu um post interessante sobre inteligência artificial, sobre os riscos, benefícios e como ele acha que a gente deve agir sobre isso.

Tem muitos fatos, inclusive propostas curiosas, desde criar um organismo internacional, tipo uma ONU, apesar de ele não citar explicitamente esse exemplo, que pudesse ver de todos os ângulos, porque senão o pessoal preocupado com o emprego vai tomar uma decisão, a economia outra, a saúde outra.

Outra solução curiosa, essa de criar um mecanismo de reservas. Assim como a gente tem parques que são reservas naturais, ele teria as reservas humanas: alguns empregos, locais, regiões, profissões onde o robô não age, porque isso vai ser importante para a gente manter nossa humanidade, talvez a economia, talvez relações.

Ele cita vários problemas óbvios, como profissão, economia, riscos de armas e o uso para o mal, e também coloca o ponto importante que sempre fica na minha cabeça, das relações humanas, sociais, e como que as crianças vão crescer e se relacionar num mundo onde os vínculos e as amizades já são cada vez mais raras.

Interessante ver como esse artigo do Bill Gates contrasta um pouco com o puro otimismo do Mark Zuckerberg, da Meta, do Facebook, que também fez um artigo importante há poucas semanas. Até gravei um podcast lendo esse artigo no Hipsters. E me fez pensar também sobre esforço produtivo, para a cognição estar sempre sendo utilizada.

#inteligencia-artificial #tecnologia #comportamento
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Revisitando o Vale do Silício e o comportamento de manada

Eu vou revisitar o Vale do Silício, fazendo aquele tour por empresas, universidade e afins, depois de 10 anos. De 2016 para 2017, eu fui para lá junto com alguns empreendedores brasileiros, bem naquela época do boom de startups.

E eu fui com bastante preconceito, achando que ia ser um oba-oba onde eu estaria junto com sonhadores que não eram muito mão na massa. Eu fiquei completamente surpreso porque foi o justo contrário: encontrei lideranças e empreendedores com quem eu tenho contato até hoje e que admiro bastante o trabalho. Algumas dessas pessoas construíram empresas gigantescas, outras criaram business que foram reformulados várias vezes.

Mas o fenômeno que eu queria registrar, que não está tão ligado a isso do empreendedorismo e nem tecnologia, é esse mecanismo cultural de quando a gente pisa nos Estados Unidos. Você recebe um pacote da Amazon, a gente absorve esse nível alto de consumo, especialmente de eletrônico e de ultraprocessado, que, apesar de ter diminuído o gap, a gente ainda encontra uma variedade muito maior nos Estados Unidos.

E óbvio que isso não é só nos Estados Unidos. Quando você vai para a França, você pega a fila da padaria e indo para o museu junto com as pessoas de lá. Aí você vai para o Japão, você começa a encarar o mesmo mecanismo cultural e ser absorvido por aquilo que todo mundo está fazendo. A gente adota um pouco um comportamento de manada.

Claro que no Brasil a gente faz muitas compras de eletrônico, faz programas culturais, comemos queijos, e também sushi e lamen, e pegamos metrô. Mas quando a gente vai para um país de cultura diferente, a gente acaba absorvendo e executando aquele mecanismo muitas vezes estereotipado naquele país, naquela região.

#comportamento #pessoal
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Quatro dias com Paris, Texas

Paris, Texas. Cecília insistiu comigo para eu assistir. E acho que do Wim Wenders tinha me marcado esse recente, o Dias Perfeitos, em que ele filma aquela ode à simplicidade no Japão e ao que é o imponderável, bonito.

Pôster de Paris, Texas com Nastassja Kinski

Também entendo que algumas pessoas criticaram esse mecanismo próximo a idolatrar uma pobreza. Algo similar eu tentei assistir: aquele alemão, Asas do Desejo. O Byung-Chul Han faz menção a esse filme num documentário no YouTube.

Paris, Texas me marcou bastante. Percebo que já tem 4 dias que fica vindo na minha cabeça. Primeiro, a forma com que as personagens agem, sempre no melhor interesse um do outro. Todos os movimentos, todas as conversas, todas as ações são boas, são construtivas: irmão com irmão, pai com filho, padrasto com filho, a madrasta com o cunhado, o ex-marido com a ex-esposa, a ex-esposa com o filho perdido. Todos esses relacionamentos que tinham sido degradados, o núcleo familiar completamente estourado, aquele sonho americano não realizado.

Desde o início do filme, desde aquele momento em que o protagonista está completamente perdido no deserto, todas as pessoas passam a agir da melhor forma possível, pelo menos na minha visão. É interessante como tudo vai desenrolando, mas ainda assim não é suficiente para, entre aspas, consertar.

E as cores da bandeira americana chamam a atenção. Depois eu fui pesquisar e foi obviamente proposital. Não sei se é por ser um desses diretores bem autorais, mas fiquei com a saturação das imagens que alguns filmes do David Lynch têm.

#filmes #storytelling
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Código-fonte como Repositório de Conhecimento Tácito

A gente fica tendo que refletir sobre os impactos da inteligência artificial, dos mecanismos de engenharia de software, agora que ela escreve código bem. Numa ou outra palestra, as pessoas querem saber de mim uma visão, e tem duas frentes que aparecem com frequência e com as quais, pra ser sincero, sou cético.

Uma é que vai ficar tão barato, tão simples, gerar essa cultura digital, que você pode sempre jogar fora tudo o que existia antes. Mesmo que essa parte seja verdade, ainda é difícil a gente descrever a teoria, as definições que existem.

Considerando que a gente não sabe escrever tão bem o que o software faz, que esse contorno nunca é o mais simples de treinar, que a documentação nunca é suficiente, que a análise de requisitos não ajuda tanto, vai ser muito difícil recriar o código, pois muita informação do que o software faz está contida dentro dele mesmo. E também no inconsciente coletivo dos usuários e da própria empresa. Não é à toa que a cultura de uma organização é tão importante. Um pouco da lei de Conway.

O outro fato que eu tô pensando aqui enquanto eu espero no restaurante é essa do end game não ser código fonte. Tem gente que diz que a máquina vai escrever código em linguagem de máquina. É uma questão em teoria de performance.

Eu acho isso muito esquisito porque me parece que todo o mecanismo de LLM, de tokens, é mais propício a escrever algo que a gente tem muito abundante documentado e vários exemplos de teste de uso. E a Python e JavaScript, a gente tem isso muito mais associado ao caso de uso, a testes, ao que faz e quando faz, do que uma linguagem de máquina, mesmo que seja uma linguagem a ser criada.

Bem, talvez uma linguagem sintética faria mais sentido, mas parece que é um problema que não precisamos resolver, que já está resolvido.

Então eu acho difícil a gente conseguir esse mecanismo de escrever um arquivo, um project definition, um PRD e gerar o sistema OneShot. Simplesmente porque a gente não sabe definir muito bem o que é um projeto, como o software funciona e o que ele deve fazer. Ele é um organismo vivo, dependente dos usuários.

Outro é que eu também não acredito que a gente tenha necessidade de criar uma meta-linguagem, na verdade uma linguagem de baixo nível, que seja mais performática, porque os mecanismos de treinamento já tiram muito proveito dessas grandes linguagens, com cada vez mais exemplos, mesmo sintéticos, delas mesmas.

#inteligencia-artificial #coding
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Parricídio Figurado na Literatura Clássica

Hoje assisti Édipo Rei mais uma vez. Agora no MASP, em uma dessas interpretações modernizadas.

Lembro que fui ler a pequena peça, assim como Hamlet, por causa de alguma contracapa de Dostoiévski que fazia essa citação de Freud:

“Dificilmente pode dever-se ao acaso que três das obras-primas da literatura de todos os tempos — o Édipo Rei de Sófocles, o Hamlet de Shakespeare e Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski — devam tratar todas do mesmo assunto, o parricídio.”

E sempre fiquei com a leitura de que esses 3 parricidas não mataram exatamente a figura paternal direta. Édipo mata o pai biológico. Hamlet assassina o padrasto. E em Karamazov é o bastardo o culpado.

Três livros que gosto muito mesmo.

#literatura #pseudointelectual
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Prótese Mental via IA

Nos EUA tem sido frequente pessoas em terapia com relações intensas com os robôs e bots. Os grandes veículos estão dando atenção:

https://time.com/7379564/ai-emotional-intelligence-support-bots/

Os perigos da prótese mental, bem maior que deepfake: https://venturebeat.com/technology/what-if-the-real-risk-of-ai-isnt-deepfakes-but-daily-whispers

E isso me parece o mesmo problema das redes sociais nos viciarem em ciclos curtos de recompensa, dominando nosso dia: https://neurosciencenews.com/effort-recalibration-digital-media-cognition-30985/

TIME

Milhões de pessoas agora confiam à IA seus sentimentos. Elas podem confiar que as empresas que a criam vão priorizar seu bem-estar?

Pelo menos uma vez por mês, dois terços das pessoas que usam IA regularmente recorrem aos seus bots para conselho sobre questões pessoais sensíveis e suporte emocional.

Muitas pessoas agora relatam confiar mais em seus chatbots do que em seus representantes eleitos, funcionários públicos, líderes religiosos — e nas empresas que constroem IA. Isso de acordo com dados de 70 países, coletados pelo Collective Intelligence Project (CIP).

Como a diretora de pesquisa do CIP, a neurocientista Zarinah Agnew, coloca, a IA está se tornando “Infraestrutura Emocional em Escala”. E está sendo construída por empresas cujos incentivos econômicos podem não se alinhar com nosso bem-estar.

Já vimos casos de empresas de IA otimizando seus modelos para manter as pessoas engajadas, mesmo quando isso vai contra seus melhores interesses. Em abril passado, a OpenAI teve que reverter uma atualização de um de seus modelos do ChatGPT depois que foi amplamente criticada por ser excessivamente lisonjeira com os usuários. Quando a empresa parou de oferecer o modelo às pessoas, no dia antes do Dia dos Namorados, algumas ficaram angustiadas.

Humanos encontrando conforto em máquinas não é novo. No final dos anos 1990, a professora do MIT Rosalind Picard — que fundou o campo da computação afetiva — descobriu que as pessoas respondiam positivamente a computadores demonstrando empatia.

Mas duas coisas-chave mudaram desde então: graças a avanços técnicos, os sistemas de IA hoje são novas entidades, capazes de conversas sofisticadas e comportamento surpreendente; e graças aos bilhões de dólares que investidores despejaram em empresas de IA, essas entidades estão acessíveis a praticamente qualquer pessoa com conexão à internet. Só o ChatGPT atualmente tem mais de 800 milhões de usuários ativos semanais — e o número está crescendo.

Mas com milhões de pessoas formando diferentes tipos de relações humano-máquina, ainda não sabemos se a IA está ajudando mais pessoas do que prejudicando. E enquanto isso, empresas de IA estão investindo em tornar seus modelos não apenas mais inteligentes, mas também mais emocionalmente sagazes — melhores em detectar emoção na voz de uma pessoa e em responder apropriadamente.

#inteligencia-artificial #comportamento
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Falácia das Projeções Lineares

Muitas vezes a gente faz essas projeções tecnológicas e até científicas de forma linear. Quando a gente é menor, estuda a teoria malthusiana, que tinha aquela discussão de progressão geométrica do crescimento populacional versus a progressão aritmética da produção de comida e alimentos. E acontece que a produção de alimentos cresce, mas dados os novos formatos e mecanismos tecnológicos para cultivo.

E o meu pai conta que quando ele estudou, também era falado que o crescimento de São Paulo e Rio de Janeiro traria o nascimento de uma grande megalópole, porque esses bairros e cidades vizinhas se aglutinariam de tal forma que toda a estrada estaria permeada por novas cidades. Seria um conglomerado só, uma conurbação única.

Bem, a gente sabe que isso não aconteceu. Inclusive temos o fenômeno do decrescimento populacional em muitos países e mesmo nos grandes centros urbanos já do Brasil.

E hoje a gente faz essas analogias de inteligência artificial pensando na automação do trabalho, no fim do trabalho, renda universal básica e diversas outras apostas, considerando que esse gráfico continua como é ou até mais, o crescimento exponencial ilimitado que a tal da inteligência artificial geral poderia nos proporcionar.

Mas o que costuma acontecer é que todas as nossas projeções estão erradas. Aliás, por definição é uma projeção: seria esquisito acertar com exatidão, até mesmo de forma assintótica, o que vai acontecer.

E isso não só em tecnologia, onde vem a sociedade, a transformação dela, esses mecanismos de tradição, de cultura, de religião, de papel das pessoas. E a gente sempre vê que não necessariamente tudo vai para a linha do que a gente tem visto de mais moderno dentro dos grandes centros urbanos.

Tem gente que diz, inclusive, que as cidades médias vão tomar a rédea dos próximos passos de grandes países em relação ao recrescimento populacional, em relação à cultura e outros aspectos da nossa vida.

Porque eu também acho que esse decrescimento populacional, seja de Coreia, China, Japão ou mesmo dos países nórdicos, onde as projeções são abismais, pode haver efeitos não mapeados que mudam completamente o curso disso tudo.

E aquela exposição ao risco que a gente sempre tem com essas projeções, a gente precisa abraçar. Então, quem está nesse mecanismo empresarial, empreendedor ou até mesmo de carreira, deve considerar que outras hipóteses podem acontecer, bem na cinta leve.

#pseudointelectual #tecnologia
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Impossibilidade de Verificação das Decisões

A vida humana só acontece uma vez e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos é dada uma segunda, uma terceira, uma quarta vida para que possamos comparar decisões diferentes.

Kundera no livro A Insustentável Leveza do Ser. É a forma que ele aborda o eterno retorno do Nietzsche.

Que aparece aplicado em inúmeras situações. Sejam românticas, sejam políticas, sejam reações a pequenos atos do dia a dia.

#literatura #filosofia
crônica
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Crônica: Liderança e as Pazes com o Rosa

A crônica a seguir a Cecília escreveu em 15 de junho de 2021, publicada no Female Force Latam, que não mostra o crédito de autoria. Estou trazendo aqui pras notas, na íntegra.

Se você pudesse escolher um momento da história para nascer e não soubesse de antemão quem você seria – não soubesse se iria nascer em uma família rica ou em uma família pobre, em qual país, se seria homem ou mulher, negro ou branco – se tivesse que escolher cegamente o momento em que gostaria de nascer, você escolheria o agora. E foi com essa frase do Obama, que encontrei num livro que me dei conta que estamos no melhor tempo não só para estar vivos mas para sermos líderes. E gosto de pensar que isso envolve três frentes: a de mim mesma, a dos outros e a de dentro de organizações. Nenhuma existe sem a outra.

Gosto de imaginar todas as mulheres que lutaram para que estivéssemos aqui. Ninguém duvida que referências são importantes, até porque somente podemos sonhar com aquilo que conhecemos. A grande maioria dessas heroínas são anônimas e poucas terão os nomes descobertos. E isso me leva a pensar que nós somos porque elas foram. O coletivo feminino sempre assustou (e ainda assusta, das bruxas evoluímos para o estereótipo da feminista destruidora da família, irresponsável com a criação dos filhos e causa da ruína moral social?) e o motivo é nobre: força. Mulheres unidas são capazes de fazer coisas incríveis.

Estar em uma posição de destaque e ser mulher é ser julgada. Brene Brown diz que coragem começa com aparecer e nos deixar ser vistas. E o motivo disso envolver coragem é que há um peso e uma medida que os colegas homens não compreendem.

“As mulheres são punidas pela aparência que tem, enquanto os homens podem ir longe só com um terno de lã cinza.” – Naomi Wolf

Vejo isso refletido em comentários de rede social, mas algumas frases de mulheres no poder resumem bem isso:

“Se meus críticos me vissem andando sobre as águas do rio Tâmisa, diriam que é porque eu não sei nadar.” – Margaret Thatcher

E dizer que o posicionamento político é resultado do excesso de críticas e não a condição de ser mulher cai por terra com uma pesquisa no exemplo vivo que é a deputada Tábata Amaral, basta analisar os colegas de partido que compartilham a mesma ideologia e não são alvo de ódio e ameaças de mesma intensidade.

Como nerd assumida te trago um pouco de cientifiquês: em uma pesquisa realizada pelo psicólogo e professor da Universidade da Califórnia, Campbell Leaper, um experimento com meninos e meninas foi feito da seguinte maneira: distribuíram copos de limonada, alguns de gosto intragável (substituindo açúcar por sal, por exemplo). A constatação foi que a maioria esmagadora dos meninos expressavam na mesma hora: “Eca! que gosto horrível”. E a outra maioria composta pelas meninas, por outro lado, bebeu tudo mesmo com dificuldade. Somente em um momento posterior, após os pesquisadores insistirem na pergunta é que admitiram que estava horrível, acompanhado por frases como “não queria desapontar vocês”.

Eu poderia me delongar expondo os inúmeros dados de como mulheres em posições de liderança transformam organizações e comunidades (há inclusive pesquisas da ONU que envolvem resolução de conflito e a relação da participação feminina como geradora de sucesso) mas meu ponto aqui não é reforçar o estereótipo do feminino delicado, materno e atento. Essas características são adquiridas, pois ao viver e crescer como cidadãs de segunda classe (o nome é feio, mas é esse mesmo) vemos o mundo como somos. Essa sensibilidade e olhar de cuidado vem do que sempre nos foi exigido e a luta não é por deixar isso para trás, mas trazer equilíbrio e partilhamento. Vou provar meu ponto:

Em um mundo que nos ensina a silenciar, a não aumentar a voz, a não ser emotivas e que relaciona o feminino à futilidade ou a coisas ruins (uma mulher de terno é elogiada, um homem com algum elemento feminino, imagine aqui um batom ou saia, corre o risco de apanhar na rua ou em casa), exaltar aquilo que é julgado e rejeitado é celebrar que somos maiores que esses símbolos.

Por anos criei uma aura dura, uma casca, uma masculinização da minha imagem e das minhas atitudes, eu achava que isso fazia com que os outros me enxergassem e ouvissem. Hoje vejo que celebrar nossa vulnerabilidade, sensibilidade e escuta ativa é o caminho para uma liderança mais humana e transformadora.

Imagens do post original: cartum de autor(a) desconhecido(a) e tirinha de @itdathayde.

#pessoal #lideranca
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Automação Residencial e o Trade-off com Simplicidade

Tem algumas coisas em tecnologia que eu considero verdades e depois de um tempo percebo e mudo de ideia. Uma dessas é tudo isso de automação de casa.

Eu acho que esse pessoal que coloca a lâmpada que é acionada pela Alexa na casa inteira está cometendo um erro. Primeiro porque alguns desses protocolos, se você perder a rede Wi-Fi, é um caos. É óbvio, tem as outras que possuem redundância por fios e são mais inteligentes.

Mas mesmo assim, uma casa tem que ter uma UX simples, reconhecível, que outras pessoas que entrem na sua casa não precisem de um manual de instruções. Dizem que o Airbnb lá nos Estados Unidos tem passado por isso. As pessoas chegam em algumas casas e não sabem nem ligar chuveiro, nem acender a luz, porque tem mecanismos com tratamentos diferentes.

Ao mesmo tempo, eu tenho visto que algumas marcas estão fazendo coisas interessantes, não é? Tanto esses protocolos como o Tuya, a Zigbee e muitos outros, mas marcas mais focadas em lâmpadas, em som, no ar-condicionado, em que isso vira opcional e secundário.

Enfim, essa cabeça de engenheiro, de programador, a gente gosta de enfiar a mão nisso, mesmo que não tenha grandes ganhos, ou às vezes até prejuízo, sem contar o financeiro.

#home-assistant #tecnologia #ux
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Conexão Leitor-Autor

Eu li Klara e o Sol, do Kazuo Ishiguro, esse autor japonês que cresceu na Inglaterra, Prêmio Nobel da Literatura. Fui com expectativa alta, sempre tive como objetivo ler um livro de cada Nobel de Literatura. Eu estava muito longe, mas li uma ou duas dezenas. Curiosamente, terminei de ler o livro e três dias depois saiu um trailer do filme, com uma pegada mais cômica e irônica. Até interessante, mas não foi a forma que eu li o livro.

Essa questão toda do que é vida, de como a gente vai se relacionar com essas inteligências, com esses robôs, não é uma temática nova, de maneira alguma. E a forma que é colocada não é surpreendente. Sim, tem alguns trechos marcantes e muito bem elaborados, mas trata as questões grandes de mudança climática e poluição com uma abordagem bastante trivial e conhecida. Coloca de forma leve e indireta, mas é assim que, hoje em dia, é apresentado. Até o Arco, aquele filme francês que concorreu ao Oscar de animação e tem aquela pegada Studio Ghibli, faz o mesmo.

Enfim, eu acho estranho quando leio algum autor aclamado, que tem uma literatura de alguma forma fácil de virar as páginas, e eu não consigo ser tocado. Mas, como disse a Clarice Lispector na última entrevista, tem vezes que a gente se conecta com o autor e não se conecta com o outro.

#literatura #pseudointelectual
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Fricção Cognitiva no Aprendizado

A encíclica do papa é mais afiada do que eu imaginava. Ataca os pontos que gosto muito da discussão ampla sobre a IA.

Nos parágrafos sobre escola, sobre aprendizado, fala sobre o problema de não encararmos fricção:

“140: Em contrapartida, os processos educativos requerem um tempo de maturação, de confronto com a realidade que vai além das aparências, e um caminho de paciência. A questão é fundamental, pois toda a tecnologia educa quem a utiliza. Educar para o uso da IA implica, portanto, educar para decidir quando e em que situações não a utilizar. A rapidez e a facilidade com que se obtém uma resposta ou uma síntese correm o risco de extinguir o desejo de colocar perguntas, o qual dá frutos só a longo prazo. Como escreve Platão, as coisas mais profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no empenho em discutir com os outros para “friccionar”, como numa pederneira, os conceitos e as experiências, até saltar em nós a centelha da compreensão. [147] Devemos educar-nos ao jejum da IA e proteger os nossos jovens das promessas da máquina perfeita, daquela subtil sedução que parece tornar o pensamento humano inútil precisamente quando é mais necessário.”

Ele está citando esse trecho de Platão (a Carta VII, que vai aproximadamente de 341c a 344d):

“Só a custo, depois de muitos exercícios sobre cada um desses pontos — os nomes, as definições, as imagens e as percepções sensíveis — após havê-los confrontado uns com os outros em discussões amistosas, nas quais perguntas e respostas se sucedem sem inveja, finalmente brilha sobre cada objeto a compreensão e o entendimento, com a tensão máxima de que é capaz a inteligência humana. […] É preciso que, sob o atrito recíproco de nomes, definições, percepções visuais e sensíveis, depois de longa convivência em discussões benévolas, e por meio de uma dialética sem inveja, a inteligência e o pensamento sobre o objeto irrompam, à força de fadigas, semelhantes a uma luz que jorra da centelha.”

#educacao #inteligencia-artificial #friccao
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Profissional em T (T-Shaped Developer)

Eu acho interessante ver que essa expressão do T-Shaped Developer, que vem do profissional em T, e que eu viciei bastante nos últimos seis anos, tem aparecido com força nas Big Techs. O CTO da AWS, diretor de Cloud do Google, o Martin Fowler fala sobre isso, ele já falava há bastante tempo.

Isso tem ficado escancarado, à medida que o profissional de tecnologia acaba ganhando outras tarefas. Ele sai um pouco da toca, de ser um cara encapuzado de fone de ouvido, e ele começa a aparecer nas reuniões da empresa, nas reuniões do cliente, e começa a precisar entender de requisitos, de como funciona a cabeça até do usuário final.

Eu lembro antigamente quando eu comecei, isso era muito diferente, você ficava literalmente no terminal, na tela preta, brincando com aquilo que você gosta, que é tentar encontrar ordem no caos. Verificar todas as hipóteses, corner cases, quais os casos mais complicados de tratamento de fluxo de trabalho, e assim por diante.

Essa história de profissional em T aparece em qualquer área. A gente já viu uma hiperspecialização das profissões, mas com o tempo isso foi se mostrando limitante.

Tem aquela frase que especialização é para insetos, e eu até fui verificar. Biologicamente correto, porque até geneticamente eles são diferentes, e os órgãos são desenvolvidos de forma peculiar. O cérebro de uma formiga operária é diferente da soldada. Tem um pouco a ver com alimentação, eu li.

Mas para os seres humanos, como o Kruel me disse, tem as mãos. As mãos são muito generalistas para fazer as mais diferentes tarefas que a gente possa imaginar. É interessante ver que a gente evoluiu para algo muito diferente.

#carreira #profissional-em-t
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Buscar o Improvável e Fácil vs. o Provável e Difícil

“Organismos primitivos como bactérias escondidas no subsolo podem ser mais prováveis, mas peixes congelados em órbita são mais detetáveis.”

O Freeman Dyson sempre me chamando atenção. Fiquei com isso na cabeça.

A gente manda super sondas para Titan e Europa, para tentar encontrar o Provável + Difícil: vida microbiana ou bioassinaturas. Mas a gente poderia tentar o Improvável + Fácil: vida grande. É bem mais fácil uma abordagem de buscar seres vivos grandes, mesmo soando infantil.

Mas o que mais me chama atenção é que na nossa vida, em negócios, em empresas, em tecnologia… temos as mesmas questões. Às vezes a solução está na nossa cara, mas insistimos em usar mecanismos incríveis e sofisticados (Data driven?) para investigar um problema. Mas talvez a solução até mesmo uma criança daria como exemplo.

A famosa piada científica do barômetro para medir tamanho de um prédio: https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/jokes/barometro.html

#astronomia #pseudointelectual
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Ferramentas de Produtividade Pessoal

Eu já tenho mais de 17 mil tarefas no Google Tasks que eu já marquei como concluída. Eu uso há anos como ferramenta de to-do.

Eu estava conversando com meu pai, que foi grande usuário do Evernote. Hoje em dia ele usa o Excel para tomar notas, para tasks, em vez do calendário, porque o calendário dele ficou muito poluído.

É curioso ver como essas ferramentas de produtividade acabam sendo a melhor a que você sabe usar melhor, e que muda muito esses mecanismos.

Eu estou, inclusive, fazendo essa reflexão junto com meu pai, porque cada pessoa usa uma, e na era da inteligência artificial, está mais complicado em vez de mais fácil.

#tecnologia #cotidiano
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Pensamento Computacional na Era da IA

Interessante ver o Andrew Ng, cofundador do Coursera, falando dois pontos que eu também sinto estar acontecendo:

  1. A necessidade de saber programar, de ter pensamento computacional, está se tornando MAIS relevante, e não menos relevante.

  2. O mercado de trabalho pode aumentar a demanda de mão de obra de tecnologia, em vez de diminuir.

Ele fez um artigo interessante aqui: https://x.com/AndrewYNg/status/2054236506756370865

#inteligencia-artificial #educacao
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Paradoxo de Jevons

Nessas dúvidas se a inteligência artificial vai gerar mais ou menos empregos, eu vi que aquele Andrew, o fundador do Coursera, professor de Stanford, tá batendo na tecla de que vai ter mais vagas e não menos.

Isso lembra esse paradoxo de Jevons, que diz que à medida que a gente tem uma tecnologia que aumenta a eficácia da qual um recurso é utilizado, o consumo desse recurso pode aumentar em vez de diminuir. É a computação, é os sites, é pessoas de programação, equipes de tecnologia.

Então é interessante que a gente fica mais produtivo e parece que vai precisar menos da gente, mas precisa demais. Um paradoxo, inclusive. Acho que faz muito sentido.

#inteligencia-artificial #carreira
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Código dinâmico streamable e ambiente misto

Gostei demais dessa imagem do blog do Martin Fowler. IA não é apenas um novo layer de abstração em cima de linguagens e frameworks: ela está paralela.

E o jogo vai ficar ainda mais confuso quando um chamar o outro e o mecanismo de software ficar “streamable”. Onde o código estático gera prompts que geram código estático e alteram o próprio estático que gerou prompt.

Com o ambiente de execução misturado com o ambiente de codificação numa meleca Alan Kay brutal.

#inteligencia-artificial #coding
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Responsabilidade Intelectual

Naval Ravikant tem uma frase sobre livros bem dura: “People who ask for book recommendations aren’t serious about reading”. E eu concordo em boa parte: muitas vezes você sabe qual livro deve ler, pois ele já apareceu para você inúmeras vezes, em uma outra leitura, em uma citação, em uma necessidade.

O mesmo aparece sobre o que você precisa estudar, melhorar e até mudar na sua própria vida. O mecanismo de você ter responsabilidade pelas suas decisões.

Isso não quer dizer que a gente não pode “pedir conselho”, mas investigar, buscar, sentir e se organizar é sempre importante. Não é um manifesto de autodidatismo, é saber que esperar pelas soluções da sua vida intelectual não funciona tão bem.

De alguma forma eu lembrei dessa frase por uma citação do Italo Calvino:

“Os clássicos são livros dos quais geralmente se ouve dizer: ‘Estou relendo…’ e nunca ‘Estou lendo…’”.

#literatura #pseudointelectual
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Código Dinâmico via LLM Streaming

Os próximos passos do VibeCoding que alguns dos pensadores apostam é esse mecanismo de não só o código estático ser gerado, mas até mesmo prompts serem gerados. E dessa forma, o código vai ser meio que por streaming.

Quando você executa um software, ele é criado pela LLM em parts, de forma estática, mas esse próprio código estático pode chamar a LLM e ter mecanismos não determinísticos. E isso em um mecanismo de inception recursivo, onde a LLM gera código estático, que gera novos prompts, que gera novos códigos estáticos, que podem inclusive mexer no código original 2, 3 níveis em cima.

O que torna o mecanismo completamente não determinístico, difícil de acompanhar e saber o que está sendo executado naquela hora. A replicabilidade fica ausente e a confiança no sistema, não sei exatamente como pode ser feito, não vai bastar testes, porque mesmo os testes serão adaptados e readaptados a qualquer instante.

E com o mecanismo de um código que é meio sem forma, uma gosma esquisita, onde há código estático com prompts, um alimentando o outro de alguma forma harmônica, se é que isso é possível.

#inteligencia-artificial #coding #vibe-coding
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Violência repentina na literatura clássica

Billy Budd, Padre Sérgio, Homens Ratos. Três livros curtos de autores clássicos que me chocaram com um repentino movimento violento, mas que ao mesmo tempo não cria tanto espanto.

No mecanismo “nada que é humano me é estranho”.

#literatura #pseudointelectual
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Ciência e religião como janelas complementares

O astrofísico Freeman Dyson foi criado no que ele descreveu como um “cristianismo aguado da Igreja da Inglaterra”. Ele era cristão não-denominacional e frequentava várias igrejas, de Presbiteriana a Católica Romana.

Sobre questões doutrinárias ou cristológicas, ele disse: “Não sou nem santo nem teólogo. Para mim, boas obras são mais importantes que teologia.”

“Ciência e religião são duas janelas pelas quais as pessoas olham, tentando entender o grande universo lá fora, tentando entender por que estamos aqui. As duas janelas dão visões diferentes, mas olham para o mesmo universo. Ambas as visões são unilaterais, e nenhuma é completa. Ambas deixam de fora características essenciais do mundo real. E ambas são dignas de respeito.

O problema surge quando ciência ou religião reivindicam jurisdição universal — quando dogma religioso ou científico se declara infalível. Criacionistas religiosos e materialistas científicos são igualmente dogmáticos e insensíveis. Pela sua arrogância, trazem tanto a ciência quanto a religião ao descrédito.

A mídia exagera seus números e importância. A mídia raramente menciona o fato de que a grande maioria das pessoas religiosas pertence a denominações moderadas que tratam a ciência com respeito, ou o fato de que a grande maioria dos cientistas trata a religião com respeito, desde que a religião não reivindique jurisdição sobre questões científicas.”

Dyson discordava parcialmente da observação de seu colega físico Steven Weinberg de que “Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e pessoas más podem fazer o mal; mas para pessoas boas fazerem o mal — isso requer religião.”

“A declaração de Weinberg é verdadeira até certo ponto, mas não é toda a verdade. Para torná-la a verdade completa, devemos adicionar uma cláusula: ‘E para pessoas más fazerem coisas boas — isso também requer religião.’

O ponto principal do cristianismo é que é uma religião para pecadores. Jesus deixou isso muito claro. Quando os fariseus perguntaram aos seus discípulos: ‘Por que vosso Mestre come com publicanos e pecadores?’, ele disse: ‘Vim chamar não os justos, mas os pecadores ao arrependimento.’

Apenas uma pequena fração de pecadores se arrepende e faz coisas boas, mas apenas uma pequena fração de pessoas boas é levada por sua religião a fazer coisas ruins.”

#filosofia #pseudointelectual
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A história existe na mente do leitor

Tem um escritor, Bruno Tavares, que tem uma newsletter bem boa e relativamente fácil de acompanhar. Anotei esse trecho que cita um outro escritor: gosto da definição simples e essencial do mestre Damon Knight, em seu clássico Creating Short Fiction (St. Martin’s Press, 1997):

“As palavras impressas no papel são apenas as instruções usadas por cada leitor para criar a história. A história propriamente dita só existe na mente do leitor.”

(p. 145, trad. BT)

#literatura #pseudointelectual
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Ensinar IA agêntica e o problema do não-determinismo

Estou tentando ensinar um pouco de Claude Code, de OpenClaw para Cecília e eu sinto essa dificuldade, porque tudo tem múltiplas respostas. Qualquer exercício que eu posso passar para alguém aprender, essas tecnologias super abertas, agênticas, tem essa dificuldade de que como que eu vou verificar se a resposta está certa.

Diferente de você ensinar uma linguagem de programação, que tem como você dar um input e verificar se o output está correto, assim como acontece na Maratona de Programação, na Olimpíada Brasileira de Informática — no mecanismo agêntico não-determinístico com LLM, fica muito mais complexo. Então, qual que é o exercício que eu devo dar e esperar o que de saída?

Ah, organize seus documentos para que ele faça o OCR, indexe em arquivos Markdown — pode ser. Mas primeiro, tem muito tecnicês aí, que uma pessoa leiga em tecnologia não vai entender. Mas se você também não fala nada desses termos, as pessoas vão continuar sem saber fatos relevantes sobre tecnologia que vão ser importantes para a implementação de inteligência artificial.

Então fica a questão, que continua aberta: como ensinar entre aspas inteligência artificial fechar aspas de uma maneira mais fechada, sem ser só esse mecanismo de “brinca um pouco aí e vê o que acontece”. Eu considero que os fundamentos de tecnologia debaixo dos panos, do que está acontecendo, serão fundamentais para qualquer pessoa que queira ter um mínimo de domínio e relevância na tecnologia.

#inteligencia-artificial #educacao #agentes
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Plataformização e a erosão da recomendação pessoal

Eu às vezes vejo a Cecília comprando comida no iFood, buscando pelo item, não o restaurante. Então você vai lá e digita Cheese Bacon, ou você digita Kafta Árabe, e vê o que sai, vê quantas estrelas tem o local e pede, sem saber qual é o restaurante, sem ter ido lá, sem conhecer o tipo de comida que eles fazem, sem ter uma recomendação pessoal.

Eu vejo isso como uma mudança de geração, que a plataformização, esse mecanismo de criar os grandes mercados B2B, acabam gerando esse descompasso. As pessoas perdem aquela capacidade analógica, pessoal, de pedir uma recomendação, saber onde foi.

Mesma coisa para médicos: elas vão no Instagram procurar um médico, ou diretamente no Google, em vez de saber se alguém que já foi lá conhece um bom médico, ou vai numa plataforma que tenta fazer essa recomendação de uma forma mais asséptica.

Isso vai causando um Race to the Bottom de alguma forma. Eu vi essa notícia recente de uma das plataformas da China que ofereciam bolos para venda, e redirecionavam a venda internamente em subplataformas, procurando o bolo mais barato. Fazia todo mundo, forçava os preços para baixo, e obviamente a qualidade caía em situações limítrofes.

#tecnologia #comportamento #cotidiano
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Selos, cartões telefônicos e fóruns

Estava conversando sobre a minha adolescência e minha fase de faculdade com a Cecília e acabei contando das minhas coleções. Estava um pouco envolvido com filatelia e depois com cartões telefônicos. Eu colecionava bastante.

Dos selos, eu ia para o centro de São Paulo para comprar e ver o preço, e também usava a geladeira como uma forma de deixar os selos usados de cartas pendurados ali até que secassem e ficassem fáceis de descolar do papel. Você molha, deixa um pouquinho num paninho e depois gruda na geladeira até escorrer toda a água, e depois tira o selo com certa facilidade. Meus amigos e família já sabiam: o Paulo coleciona, guarda essa carta que veio de fora para ele. Isso criava um mecanismo interessante das pessoas te reconhecerem como colecionador de selos.

Eu também herdei um álbum antigo do meu avô, que se chamava Paulo, daquele mecanismo em que as pessoas colavam os selos num álbum de papel. Eu já peguei a migração para o álbum com um plástico para proteger. Foi uma época interessante. Acabei doando para a irmã de uma amiga que estava colecionando quando eu tinha parado. Me arrependo, gostava muito dos selos da Hungria. Achei interessante que eu peguei uma migração em que os selos novos começaram a ter mais valor do que os carimbados, apesar de eu gostar muito dos carimbados, que demonstravam que as pessoas utilizaram aquilo para se comunicar.

A Cecília fez a observação de que eu fui dos selos para os cartões telefônicos, que também têm a ver com comunicação. Os cartões telefônicos foram uma época mais interessante, já que a internet estava no seu começo e eu ia em newsgroups, newsletters e fóruns esquisitos para oferecer os cartões do Brasil que eu tinha em troca. Eu tinha vários do Japão, que eram muito bonitos, e as pessoas enviavam pela confiança. Você falava: vou te enviar 50 do tema Trens e Bondes de São Paulo, você me envia esses 30 do Monte Fuji? Combinado. Você pegava, colocava o nome lá e não esperava chegar o do outro. É interessante essa confiança que ocorria com desconhecidos na internet, sem ver foto, sem validação de Big Tech. É óbvio que a internet tinha um mecanismo elitizado que já criava barreiras suficientes, é verdade.

Mas me chama a atenção a observação da Cecília de que também é comunicação. Eram objetos utilizados para que as pessoas se comunicassem. E é interessante ver que depois eu caio em fóruns, seja de Age of Empires, seja de Java, de programação, de Magic: The Gathering, até ajudar a construir um próprio, que era o GUJ. Para poder trocar mensagens, participar, ver as pessoas utilizando sistemas de comunicação. Isso se acelerou tanto nos últimos anos que os mecanismos de WhatsApp, Discord, Slack e Teams caem num ponto máximo de otimização, onde a gente troca meia dúzia de palavras, às vezes uma única letra. Tem vezes que eu me pego respondendo “Y”. Sendo que eu cheguei a colecionar selo de cartas de três páginas que demoravam um mês para chegar da Hungria ao Brasil.

#pessoal #cotidiano #comportamento
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Storytelling como Ferramenta de Liderança

Eu estou indo agora dar a minha segunda palestra usando o Stellar Deck. Tô dentro da universidade pra conversar com 200 pessoas que criam software e tecnologia. Profissionais experientes. E além de falar sobre esse momento do universo da programação e da automação, o que eu quero é incentivar as pessoas a liderarem e mobilizarem grupos através de histórias.

Eu cresci ouvindo histórias do meu pai, onde ele tinha um mecanismo interessante pra contar clássicos, contos de fada e até mesmo cultura popular do Brasil. Ele fazia questão de modificar um pouco a história. E pra isso ele lia de antemão. A noite quando a gente ia dormir, ele já tinha na cabeça uma outra versão. Era uma recontagem da história. Isso forçava com que ele já tivesse novas possibilidades em mente. A apresentação da história, a recontagem da história, ganhava outros contornos. Em especial, ele sempre colocava eu e meus irmãos dentro da própria aventura. De uma maneira surpreendente e inesperada.

E nesse mundo de soft skills, onde a gente é pressionado por ter capacidades de comunicação, de organização, de coordenação e, claro, de liderança, o storytelling é um ponto importante. Fazer a audiência, fazer quem está usando o software, fazer quem está lendo esse artigo se sentir mais próximo de mim é fundamental.

Meu objetivo ao criar o Stellar Deck não é só utilizar o Vibecode para costurar um software pessoal e disponível para mim. Ele é também um artefato que conecta o meu estilo de contação de histórias. E eu acredito que ele também possa possibilitar os seus mecanismos e vai alinhar bem o que você precisa contar. Você precisa pensar a ordem, como a história evolui, quais são os tons altos e baixos, como o fluxo vai e vem. O Auto Flow e o Stellar Deck fazem o resto. Basta bater o olho no Markdown que você consegue entender o que precisa ser movido para cima, para baixo, o que precisa ser adaptado, que texto precisa mudar.

Se os slides vão ficar super bonitos ou não, muito bem ajustados, eu não sei te dizer. Mas o que eu quero é que você possa apresentar sua ideia e organizar essa história. Eu vou ficar muito contente se você me marcar no Twitter com uma foto de você palestrando, de você apresentando, ou melhor, de você contando a sua história, de você contando uma história. Obrigado.

#storytelling #stellardeck #carreira
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Ilusão de velocidade no VibeCoding

Tentando relacionar o VibeCoding com a programação antiga, que cai até nos livros do Fred Brooks. No Mythical Man Month, ele fala que se você não sabe o que você quer construir, não dá para escrever código. A parte mais difícil é saber o que você precisa construir. O escopo, o contexto, as definições, as limitações.

O VibeCoding acelera a parte da codificação, mas aí a gente lembra que você não é pago para escrever código. E a partir desse momento você percebe que por mais que acelere as linhas que você comita, produz, os pull requests, os momentos de pausa aparecem porque não está bem definido o que o cliente precisa, o que você precisa, o que você quer.

Tem essa ilusão. Acabou de sair uma notícia que o CTO do Uber disse que antes de chegar na metade do ano, já acabaram o budget do uso de tokens para criar código. E veja só, eu imagino que o Uber não entregou nenhum software revolucionário nesse meio tempo para justificar esse gasto de dinheiro altíssimo que eles tiveram agora.

Eu acho interessante essa reflexão de que é uma forma que ajuda muito a codificação. Assim como os frameworks full stack, os scaffolds, os frameworks web de single page applications ajudam muito, mas eles não liberam a gente de ter que parar para pensar e entender. Eles possibilitam a construção de softwares mais incríveis, mas a velocidade em si geral, considerando os gargalos, pelo menos por enquanto, ainda não mudou.

#vibe-coding #coding #inteligencia-artificial
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Especialização Técnica Antes de Empreender

Um jovem de 16 anos veio me perguntar como falar em público. Ele é tímido e está claramente querendo “empreender”. Confesso que não gosto de conversar desse assunto com quem ainda não teve uma experiência profissional minimamente relevante. Soa vendedor de sonhos.

1º leia o Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. O nome é ruim, pois a ideia não é influenciar, é fazer amigos, é se conectar. Essa é a base para você poder falar em público e trocar atenção com as pessoas. Há outros livros e abordagens. O que importa é verdadeiramente criar a conexão e dar importância real aos seus interlocutores. Você pode sempre aprender com os outros, independente do que conhecem e o quanto conhecem.

2º reconheço sua vontade de querer rapidamente criar algo e mudar as coisas. Acho essa uma vontade boa, mas ela precisa ser canalizada. Para construir algo grande e significativo há a necessidade de tempo e dedicação. Isso demora. Rarissimamente é rápido (são poucos casos, e há o fator sorte). Tente se dedicar para aquilo que você verdadeiramente gosta e tem interesse. Isso vai te ajudar a se conectar com as pessoas. Ganhe uma especialização técnica, estude algo com profundidade e real interesse.

#carreira #educacao
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Software Pessoal e Efêmero

O software pessoal, o software efêmero, o disposable software fica mais evidente. Já faz uma década que a aceleração do desenvolvimento vem acontecendo e a gente não mais reescreve sistemas, troca plataformas. Uma analogia que aparece para isso é como o YouTube trouxe creators e trouxe conteúdo tanto efêmero, que perde valor rapidamente (fofocas, notícias, atualidades, modinhas), quanto alguns vídeos que se tornam emblemáticos e as pessoas voltam para repetir a sua visualização, o seu entendimento.

#vibe-coding #tecnologia
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Negação da Codificação Agêntica

Hoje vi um dev sênior falando sobre o estado de negação que alguns devs estão em relação à codificação agêntica: como os taxistas estavam quando chegou o Uber. A analogia é boa, mas a gente sabe também que isso trouxe muitos problemas para o mercado e centralização de poder, além de mecanismos de monopólio.

#inteligencia-artificial #coding
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Digital Garden vs Blog

Continuo tentando entender o que quero construir. Acho que é algo parecido com um digital garden, que não é bem um blog, que eu possa organizar minhas anotações. Mas talvez um garden de essays infinitos pode ficar com muita ponta solta. Terminar um texto é sim importante. Talvez haja outras maneiras de datar sem datar tanto, não sei.

https://notes.andymatuschak.org/zCMhncA1iSE74MKKYQS5PBZ

To gostando de pensar que preciso escrever bastante e exercitar.

https://vivqu.com/blog/2026/02/22/writing-as-fitness-exercise/

E agora to lotado de textos para ler de digital garden, mesmo que não seja isso que eu queira fazer:

https://maggieappleton.com/garden-history https://hapgood.us/2015/10/17/the-garden-and-the-stream-a-technopastoral/

#second-brain #web
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User-Generated Content em Jogos Online

Pensando sobre comunidades, a internet descentralizada, jardins murados. O primeiro contato com fórum não foi nem na programação, porque naquela época a maior parte acontecia em listas de e-mail, que cada um se estufa num pequeno servidorzinho e tocava lá. Obviamente tinha as oficiais de MySQL e de outros, que inclusive eu lembro de umas abobrinhas que eu escrevia, perguntando o que era localhost. Mas enfim, o que eu quero dizer é que meu primeiro contato com esse mecanismo de creator, esse mecanismo de user generated content, foi através dos fóruns de jogos online. Mais especificamente com Age of Empires. Por mais que eu tenha começado antes no Warcraft, no Doom, no Duke Nukem, ali era mais BBS e mesmo assim era internet e não tinha tanto esse mecanismo de você criar seu conteúdo junto com outra pessoa. É interessante pensar que o Rouge vem forte, obviamente, depois de sentir o Java Rant e outros fóruns, mas bebe nessa fonte dos videogames, das comunidades online. Verdadeiramente era um ambiente muito interessante. Curioso isso de tudo ter ficado tão hostil com a velocidade, e mais ainda depois da pandemia, durante a pandemia.

#redes-sociais #tecnologia
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Grafo de Conhecimento Pessoal

Coloquei no meu grafo tweets antigos que considerei relevantes como reflexão e atemporais. Coloquei meus posts do blog de quando eu gostava de escrever e lia literatura clássica e filosofia, antes dos anos 2010. Coloquei também meus posts do LinkedIn e do Facebook que considero relevantes para mim, os de Instagram que envolvem café e chocolate na sua maioria, e os do LinkedIn que envolvem educação e um pouco de empreendedorismo. E tô colocando de sinais essas notas que eu gravo no Telegram e a bot processa. E além disso, tem os posts que eu fiz através de signals e notes que criei escrevendo, trabalhando com draft, amarrando essas notas para que ficassem publicáveis e raciocinando.

#second-brain
idea
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PKM para Curadoria de Newsletter

Eu tô vendo que o uso do Personal Knowledge Management pode se ampliar. Todo o mecanismo de site de conteúdo, onde a gente captura muita notícia, fatos relevantes, é interessante a gente poder reorganizar todas essas informações de uma maneira que seja mais visual e haja interconexão entre elas. Assim fica mais fácil da gente navegar, da gente descobrir pensamentos. Então, eu tô tentando aplicar tudo o que eu fiz aqui no site paulocombr, que tem uma utilidade só pessoal e olhe lá, em algo um pouquinho mais relevante: uma newsletter pro público com quem eu trabalho. E dessa forma eu consigo ir aplicando em ambientes maiores e ter a segurança de que algo funciona e é útil.

#second-brain #tecnologia
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Contos de fadas e o trauma adulto

Lembrei de alguns livros que li para as minhas filhas e me marcaram. Acho que os Irmãos Grimm no original — elas precisam ter alguma idade. As Aventuras de Pedro Malazarte, os capitulados como Píppi Meialonga e o Pequeno Nicolau. Tem um que chama O Livro Sem Figuras, e tem o Grúfalo e esses mais da moda, um pouco americanizados. Acho que essa é uma palavra correta: ocidentalizados, porque imagino que seja europeu, mais modernos, mas que as crianças quando eram menorzinhas gostavam que ficasse se repetindo.

Eu acredito que os capitulados, que têm uma personagem central forte e que se repete, que não depende um do outro, têm aquela fácil compreensão e aquele mecanismo meio Chaves: você está esperando o próximo sem necessariamente ter entendido ou absorvido tudo do outro.

Eu gosto da recontação dos clássicos. Tem uma série que a Tatiana Belinky reescreveu, e que tem inclusive aquele conto do Anão Amarelo — que é o primeiro que a escritora usa o termo “conto de fadas”, acredito que seja lá em torno de 1600. Inclusive o meu sobrinho Francisco ficou fascinado.

E é interessante que esses contos de fadas, especialmente os antigos, mesmo adaptados para a nova geração, causam uma aflição em nós adultos. Terapeutas e jornalistas especializados e críticos de literatura já dizem que eles doem mais na gente do que na criança. Isso pega em algum lugar que a gente nem estava preparado, que ficou alguma coisa assustadora.

Bem, eu fico pensando em tentar deixar essa relação longa, mas eu vou passar na bibliotecasinha delas, que não é pequena. Hoje, nessa abundância que temos de informação — e óbvio, quem tem situação privilegiada, mais ainda — tem acesso a muita literatura. Então eu queria escolher alguns para deixar registrado como meu pensamento e como eu acho interessante algumas coisas que a gente traz para elas.

#literatura #pessoal
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Conversas com Filhos como Matéria-Prima para Escrita

Reflexões: crianças e pensamentos têm esse lugar comum que a gente costuma falar — quando a gente se torna pai e temos crianças não só para cuidar mas para acompanhar seus desenvolvimentos, a gente aprende muito e também a gente se reconhece nelas. Porque as crianças estão passando por momentos que a gente já esqueceu que também passou. É curioso quando eu converso com as minhas filhas, isso fica ainda mais claro. Elas me fazem refletir bastante e, de alguma forma, eu quero anotar esses pensamentos ou coordená-los para depois organizar minha própria cabeça. Alguns desses pensamentos acabam se tornando importantes para mim. Agora que eu voltei a escrever mais, faz bastante sentido. Melhor ainda agora que eu tenho esse sistema de personal knowledge management, esse mecanismo de second brain — fica um pouquinho mais fácil de eu poder pegar esses momentos que eu tenho com as minhas crianças para trazer essas reflexões aqui. É mais do que isso: eu gravo podcast com as minhas filhas há anos já. Não é bem podcast, eu gravo algumas conversas interessantes que eu tenho com elas, algumas contações de história que eu tenho à noite, e mesmo o percorrer do caminho indo até a escola, quando elas têm aqueles momentos de perguntas e de porquês que de novo refletem a minha infância. É interessante fazer esse post aqui utilizando o mecanismo de anotações do second brain e inteligência artificial na frente da minha filha mais velha, que um dia provavelmente ela vai encontrar essa anotação e achar interessante. Quem sabe ela pode até criar um poema no futuro baseado nessa experiência no mínimo inusitada.

Quando a gente se torna pai, a gente tem essas pressões em relação a como fazer a educação e criação das crianças. O que que é bom, o que que não é, onde focar, se estamos falhando. Com a pressão de performance, a gente fica com a impressão de que não estamos sendo suficientemente bons, ou nem bons, para parafrasear o Winnicott. Atualmente, eu tenho tentado colocar na minha cabeça o que eu considero que tem sido muito bom para as crianças. Entre elas, eu vou citar: ler história toda noite. Óbvio que cada pessoa vai encontrar o seu, mas para mim é muito interessante porque eu me considero um pouco storyteller, podcaster, comunicador. Esse é um recurso muito bom para as pessoas — saber mobilizar as pessoas através do storytelling, e também para a imaginação das crianças, aumentar o mecanismo de leitura, ler junto, ler os clássicos. Eu quero, inclusive, fazer um post sobre os principais livros infantis que eu leio com as minhas filhas, ou eu li, e que marcou muito a elas. Na verdade, que marcou muito a mim.

O segundo é ter anotações, um mecanismo de diário que, na verdade, eu faço basicamente via um sisteminha de podcast. Eu tenho um gravadorzinho que, normalmente, quando eu as coloco para dormir, é quando eu uso, ou quando eu acompanho elas para a escola. Mas tem outras diversas situações — faço também com algumas pessoas da família — onde eu gravo um jantar, uma contação de história, o caminho até a escola. Às vezes as próprias meninas conversando, às vezes eu contando a história e elas colocando as perguntas. Eu acho bastante interessante, isso já tem quase três anos. É óbvio que agora, no mundo das LLMs, isso vai se tornar material minimamente curioso. Óbvio, sem contar toda a questão de privacidade.

Além dos livros e além de tomar notas das frases curiosas que acabam fazendo a gente perceber o crescimento delas, outro

#pessoal #cotidiano
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Pensamento hologramático (Edgar Morin)

Eu lembro quando estudava Biologia e era criança, ficava fascinado que a gente tinha entendido como o corpo humano funciona: os pulmões, o rim, etc. Um monte de coisa com um nível de detalhes assombroso. E, de alguma forma, eu realmente não entendia que aquilo era o conhecimento que a gente tinha até então. E que, na verdade, muito daquele aprendizado estava simplesmente errado. Trinta anos depois, muita coisa mudou. Mesmo em assuntos básicos, a gente descobre que não era bem assim. Em especial, na ciência, a gente entende que o pequeno faz parte do todo. Tem muita coisa interconectada nesses sistemas que aquele filósofo francês chama de hologramático. O pequeno está dentro do todo e vice-versa. Ele dá o exemplo do DNA e das células: dentro de uma célula tem toda a informação de um corpo, e dentro do corpo tem todas as células. Assim como a sociedade e a pessoa. Nossa cultura, do nosso país, está dentro da gente e vice-versa. Não tem como mudar um sem mudar o outro. Está tudo interconectado.

Essas descobertas me chamam a atenção na hora de ver o crescimento da criança e as perguntas que elas fazem. A Elisa, recentemente, com sete anos, me fez uma pergunta de difícil resposta: “Papai, que partes do corpo os cientistas ainda não descobriram?” Não consigo nem responder. É fascinante ver que ela já tem a ideia de que não temos essa completude do entendimento do funcionamento do corpo humano. E essa percepção dela eu não tinha. Talvez até porque o ensino naquela época era dado como “essa é a verdade”, apesar de não dito explicitamente.

Hoje a gente cria as pessoas num mecanismo novo de indagação, que é melhor para muitos aspectos. A gente esquece que não estamos lá, que há muito a ser conhecido, ser retrabalhado, ser refeito e repensado. Às vezes a gente dá o vasto conhecimento humano como já 99% da verdade, falta só 1%, sendo que nem dá para quantificar as coisas assim.

#filosofia #pseudointelectual
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Overthinking como Mentalidade de Programador

Overthinking é uma palavra cada vez mais comum e as pessoas usam isso como se tivessem nascido assim. Mas eu acredito fortemente que essa é uma prática que aparece muito em pessoas que desenvolvem software, que programam, cientistas de computação, porque a gente é treinado a pensar em if-else, em condições, em componentização, em especial pensar nos corner cases e no que vai vir a seguir. É muito comum a gente estar usando essa abordagem não só para programar o que vai vir a seguir, mas a autoprogramar.

#comportamento #coding #overthinking
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Memento como metáfora para agentes de IA

Eu continuo pensando muito em filmes quando eu programo com o Claude Code. Um é o Memento do Christopher Nolan, porque toda vez que o agente acorda, abre uma nova sessão, ele tá perdido, né? Parece uma pessoa que desenvolve software muito bem-intencionada, mais ou menos inteligente, muito rápida, e que desconhece tudo o que tá fazendo. Ela acorda, se olha no espelho e fala: caramba, onde que eu tô? Me colocaram aqui nesse trabalho. Então a primeira coisa que ela precisa fazer é se entender, se reconhecer, e lembrar do que foi feito ontem e nos outros dias. Só que o contexto é pequeno, né? No contexto cabe um milhão de palavrinhas, então você tatuou aquilo em algum lugar, e baseado naquilo, precisa tomar a conclusão do que fazer de próximo passo quando algo for pedido. E adivinha: não dá pra colocar sua vida inteira dentro de uma tatuagem de um milhão de palavras. Não é à toa que hoje a gente tá indo pra esse lado de knowledge base, pra que você anote meio que índices e saiba onde procurar, onde investigar. E até no filme do Christopher Nolan tem isso. Algumas tatuagens, alguns lembretes e cadernetas que ele usa, na verdade são pistas que indicam onde ele deve pesquisar algo, com quem deve conversar.

#filmes #inteligencia-artificial #agentes
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Bom Ancestral

Pensando ainda no bom ancestral e no filósofo australiano do School of Life, às vezes me pego pensando o que as próximas gerações vão criticar na gente. Minhas filhas, netos… Tem alguns pontos que acho bastante óbvios. O primeiro: vai aparecer a frase “meus avós usavam redes sociais desde os 15 anos, sem tempo para descanso, a qualquer horário, em qualquer lugar”, assim como aparece “fumava muito cigarro, inclusive quando jovem”, ou bebida alcoólica e outras drogas, sem nenhum tipo de defesa ou proteção. Talvez algum desses usos de doomscroll e feeds de algoritmos sejam considerados nocivos em qualquer grau, assim como a nicotina é hoje.

Outros pontos mais genéricos não relacionados à tecnologia: o lixo, sustentabilidade do lixo reciclável. De alguma forma vai se tornar tão comum todo mundo ser responsável pelo próprio lixo, que vai ser uma questão o que a gente faz hoje no tratamento, mesmo dos recicláveis. Outro ponto talvez seja o consumo de carne, especialmente carne vermelha, mas esse eu não tenho conhecimento, é mais pelo barulho que eu ouço. E por último, o mecanismo de herança, que já é questionado, tem toda essa questão de imposto. É óbvio que as soluções não são fáceis nem triviais, mas algo vai acabar mudando e a gente vai ser julgado da maneira que a gente faz hoje.

São evoluções de ética e moral difíceis de prever e que acredito que na maioria absoluta dos casos a gente avança — se é que a gente pode usar esse termo, dado que uma direção nunca é tão clara. O avanço tecnológico, por exemplo, não quer dizer que a gente está melhorando como sociedade vive.

#filosofia #comportamento
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IA como Interface Bidirecional

Sergio Lopes escreveu num grupo:

“Leitura vai ser com IA tbm. A gente ainda não internalizou isso bem. Usamos IA 90% das vezes pra gerar. Mas acho que vamos caminhar pra ser meio a meio. Ler com IA. IA é a interface bidirecional de relação com o mundo; gera o que eu preciso falar pros outros, e digere o que os outros me falam. Meio triste, meio matrix até. Todo mundo isolado falando e ouvindo da IA, não de humanos”

Concordo, são os solarianos do Asimov. Meio que o PAI do Daniel.

#inteligencia-artificial #comportamento
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Intenção e Contexto Amplo ao Trabalhar com LLMs

Bem que o Fabrício disse que a entrevista com o Adrien tava sensacional. Dois pontos me ressoam muito: a) intenção: deixar claro no que você está trabalhando e o que está querendo fazer. A LLM se ajusta bem se ela conseguir ter a visão ampla do que está sendo construído, em vez de receber apenas ordens categóricas como fazíamos num passado distante. b) Hyperstition como uma forma de encarar com otimismo o uso e condução da tecnologia. Sem contar que o episódio é riquíssimo, indo desde Turing e Church até essa parte de Deep Learning que eu desconheço os cientistas e movimentos.

#inteligencia-artificial #agentes
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Confusão e Curiosidade: Sobrecarga de Informação

Esse monte de agentes, agindo o tempo todo e ingerindo dados de todo lugar, deixa nosso uso de AI confuso. É tanta informação que a gente acaba se esquecendo do que estava acontecendo. Isso me lembrou o filme do Kleber Mendonça, onde ficamos curiosos com tanta informação sem saber o que vai acontecer depois, mas estamos sempre confusos, sem tanta memória e contexto. Confuso e curioso. A Cecília, minha noiva, colocou bem esse termo depois de assistir o filme. Parece que há agentes secretos rodando na minha máquina :). Recentemente assisti um filme do Charlie Kaufman, aquele diretor do Being John Malkovich. Um filme que se chama I’m Thinking of Ending Things. Onde também fica essa questão de memória e identidade. O que é recente, o que é passado, o que é sonho, o que é desejo. E esse volume de informações que vão na nossa cabeça.

#filmes #inteligencia-artificial #comportamento
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Signal Ingestion Pipeline

O Pedro, da Brex, contou que roda a empresa literalmente via OpenClaw (https://x.com/ashleevance/status/2039770854955880861). O sistema dele começa com um signal ingestion pipeline que filtra email, Slack, Google Docs, WhatsApp. Milhares de canais no Slack, centenas de emails por dia. O que importa? No que prestar atenção? Muito ruído. Ao mesmo tempo, acho esquisita essa tentativa do Jack Dorsey de deixar tudo flat e ter 6.000 pessoas “respondendo” para ele. Parece conto do Eu Robô, aqueles do fim do livro.

#agentes #second-brain #openclaw
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Como praticar inteligência artificial?

Eu queria deixar curta a minha impressão. A gente tem visto o crescimento desse tooling de inteligência artificial e ficado maravilhado. E aí a gente tenta aplicar a versão mais recente de um tipo de OpenClaw, que usa todos os modelos simultâneos e todos os pipelines de extração de dados. Eu verdadeiramente acredito que essa não é a melhor maneira de um profissional parar para entender a IA, sendo que muitas pessoas ainda não conseguem utilizar de maneira minimamente interessante um simples ChatGPT.

Por isso eu sou mais a favor de usar o Cursor, o Claude Code e o Codex, essas versões melhores, agênticas, de codificação, para que você ganhe musculatura com a base da tecnologia. Que você evite utilizar skills, evite utilizar plugins complexos com milhares de dicas de outras pessoas. E mais ainda: voltar às origens, tentar resolver um problema que você mesmo tem. Aquele simples sisteminha que você sempre quis programar, sempre quis resolver, e não estava ou com tempo ou com vontade.

Lembra quando aparecia um novo framework, uma nova linguagem de programação? O que você fazia? Você olhava ao redor e via: poxa, acho que dá para aplicar aqui. E ia lá, estudava, aplicava e aprendia. E adivinha? Muitas vezes não era daquela maneira. Muitas vezes tinha outros passos melhores a se dar, mais prontos para resolver aquela missão. E tudo bem, foi uma maneira de você entender o que está debaixo dos panos. É a mesma analogia de quem aprende um SPA moderno com React e não entende nada de HTML e JavaScript vanilla. Esse é o momento de usar a tecnologia pura.

Para quem está usando inteligência artificial sem ser para codificação, a minha ideia é que você não use para criação de conteúdo. Não crie. Utilize para refinamento, para buscar o que você está precisando, para executar o que você já sabe que precisa ser feito e onde estão os dados e conteúdos a serem costurados. Criar um artigo para um blog do zero, ou um conteúdo de mídia social do zero, dando apenas um tema e um tom de voz, para mim é um erro grosseiro. Você precisa ser específico naquilo que você quer. Isso é: o conteúdo, a ideia e o tom de voz, não só o tom de voz, é tudo seu e é tudo dado. O que ela pode te ajudar é lapidar aquilo que já estava na sua mente, e não só na sua mente, como no seu acesso.

Esse mecanismo de a gente achar que a inteligência artificial vai resolver um problema criativo num simples prompt vai gerar esse arroz com feijão que a gente tem visto por aí, o AI slop. No melhor dos cenários, conteúdo autêntico e software intencional vão ficar cada vez mais escassos. Agora é a hora de você colocar você mesmo dentro do resultado que a IA vai gerar. Para isso, você precisa estar completamente envolvido com os agentes. Essa mania de querer criar mais agentes, todos autônomos, baseados em meia dúzia de parágrafos que são uma especificação, tem um limite. Você precisa estar no loop, não necessariamente para ver se não está saindo dos trilhos, mas porque precisa da sua intenção, informação e genialidade. Sem isso, a IA vai executar apenas as tarefas básicas, mínimas, ou vai gerar o conteúdo que todo mundo já está cansado de ver.

#inteligencia-artificial #coding #educacao #agentes
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Generalista vs Especialista em Storytelling

O storytelling é tão forte que tá muito relacionado à liderança. O Scott Galloway põe muito isso, mas são outros pensadores que também falam que a gente tem perdido essa nossa capacidade de contar e recontar histórias. Mesmo numa época que estamos de conteúdo abundante — seja nas séries, televisão, histórias curtas, até das novelas verticais — você poder engajar as pessoas e colocar na mesma direção acaba se tornando fundamental.

Eu vejo que a minha necessidade de fazer os PowerPoints de uma forma mais fluida e que eu pudesse ter um foco na narrativa em vez de olhar as extrações de layout puro vem da mesma época que eu comecei a falar sobre o profissional em T, do momento que eu comecei a gravar podcasts e ouvir histórias.

Não é à toa que os influencers e os creators que mais conseguiram não só construir seus espaços e sua comunidade mas até mesmo de monetizar e criar produtos com suas próprias propriedades intelectuais, por assim dizer, foram os que colocaram isso dentro de jogos, histórias, livros, RPGs — como o próprio exemplo do Jovem Nerd. O que me chamou a atenção ali no podcast é que eles colocavam a própria vida deles com os temas atuais e pop e do mundo nerd de uma forma que abraçava quem estava ouvindo. Aquele famoso “eu me senti amigo”. Hoje a gente acha as pessoas não se sentem amigo assim do creator porque o papo é mais um broadcast em vez de uma mescla da história. Quando é um pouco, ou mesmo os mais modernos fazem isso de uma forma muito forçada ou caricata.

Não sei dizer qual seria a fórmula porque, para ser sincero, essa é mais uma das minhas habilidades que eu não gastei o tempo que eu deveria suficiente para dominar. Eu acabo ficando um pouco no ponto de generalista de storytelling, apesar de que eu já tentei escrever alguns contos infantis — das preferências das minhas filhas pelas histórias que eu invento sobre o Pedro Malas Artes.

#storytelling #profissional-em-t #carreira
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Fóruns, comunidades e o fim do GUJ

Esse mecanismo de atenção dissipada, que acelerou muito com os feeds, a inteligência artificial e as redes sociais, é um enorme desafio para os antigos ambientes de encontros virtuais: os fóruns da web, ou antes mesmo as listas de e-mail de discussão, gerenciadas manualmente em um servidor Linux, ou até os já extintos newsgroups.

Na época do começo dos jogos online, seja StarCraft ou Age of Empires, as pessoas se encontravam em fóruns web, muitos deles rodando em cima do famoso phpBB e outras versões similares. Inclusive é a época em que esses pequenos sisteminhas open source começam a se disseminar bastante, como o PHP-Nuke e até aquele ecossistema em Python, que esqueci o nome e preciso pôr aqui. Eles se transformaram com o tempo, mas no começo dos anos 2000 tinham muita força. O próprio fórum de Java da Sun Microsystems, o JavaRanch, a MSDN, que tinha sua versão de fórum escrita em ASP.NET e, se me lembro bem, não era open source. Esses espaços cresceram bastante, tudo antes do Stack Overflow, porque tinham um foco não exatamente apenas no técnico. Era um espaço para as pessoas se conhecerem e se reconhecerem. Amizades foram criadas, empregos foram desenvolvidos, diversos profissionais e jogadores fizeram seu nome por lá, inclusive nos fóruns de Magic: The Gathering e de RPGs.

Essas comunidades eram bem temáticas e específicas a quem usava mais computador. Não é à toa que jogos e programação tinham muito espaço. Assim como o Clube do Hardware, lembra? Outro fórum de muito sucesso no Brasil. O Stack Overflow entra com uma fórmula mais direta de resolver problemas, em vez de ficar em grandes conversas. E essa aceleração e popularização da web, especialmente das redes sociais, se torna uma ameaça para esses espaços. As trocas mais pessoais começam a ficar escassas. Curiosamente, as redes sociais, que diziam que iam aumentar esse toque pessoal na web, para que a gente pudesse se reconectar e se conectar melhor às pessoas, entram no lugar e substituem fortemente esse ambiente plural por um jardim murado. E o GUJ sofre bastante com isso.

O GUJ nasceu com toda essa inspiração dos fóruns web do início da década de 2000, ao mesmo tempo pegando o gancho dos grupos de usuários, especificamente de Java, que eram muito fortes nessa década, como o SouJava e o DFJUG. Havia mais de 15, 20 grupos fortes atuando presencialmente e em listas de discussão. Os fóruns web acabam consolidando esses movimentos presenciais de encontro e gerando trocas genuínas. E também avançando o sistema web: é muito a partir desses pequenos sisteminhas, não só fóruns, que frameworks nascem. Blogs, fóruns, sistemas de eventos, de portal, de gerenciamento de e-mails e newsletter. Isso antes mesmo do termo SaaS aparecer com força. Nessa época ele aparecia como ASP, Application Service Provider, mais um desses nomes, assim como Big Data, que acabam sendo renomeados quando a gente entende um pouco melhor o que é aquilo.

O GUJ também deu origem a diversas empresas, escolas e projetos open source, o que me faz ter muito orgulho de ter participado da criação. Ele nasce antes mesmo da Caelum e da Alura, e é onde eu, meu irmão e amigos ganhamos alguma notoriedade. Especialmente eu, que hoje me colocaria como divulgador científico, algo que existe com força no universo do YouTube, Instagram e TikTok, mas era muito diferente na década de 2000.

Dada essa movimentação mais baixa, e o mecanismo de programação ter mudado fortemente, a gente tomou a decisão de congelar o site do GUJ: fazer um pruning dos tópicos que têm algumas visitas, busca e fazem sentido, e dar uma otimizada para que seja rápido. Não há renderização: convertemos tudo para Astro, fazendo um dump do Postgres para um SQLite, em que um build com loader adaptado do Astro gera todo o HTML, todo o sistema de busca e todos os tópicos relacionados em build time, tirando só uma imagem Docker para fazer o deploy. O link está aqui, tem até uma página de sobre que fala um pouquinho dessa história. Nessa história também foi criado o JForum, uma versão de fórum em Java, que na época eu e o Rafael Steil estávamos hipnotizados e queríamos muito aplicar Java em qualquer lugar, independente de já existir uma alternativa ou de fazer sentido.

#tecnologia #redes-sociais #pessoal #coding
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Eu voltei para o podcast semanal

Eu fiz uma transição durante 2025: saí da posição de CEO de um grupo grande, que é o Grupo Alun, que estava se formando, e também da posição de liderança da própria Alura. Foi ao mesmo tempo que eu me afastei do Hipsters Ponto Tech.

Acho que todo mundo passou por momentos de transição de carreira, onde você tenta se encontrar, dadas as novas habilidades que você tem e as que você precisa. E até como a empresa onde você trabalha acaba necessitando de formas diferentes, de pessoas certas nos lugares certos. A exigência do mundo corporativo em capacidades gerenciais e administrativas já me deixava um pouco para trás, e eu precisava de um tempo para entender melhor onde eu gostaria de atuar.

Com isso eu anuncio que estou voltando para o Hipsters Ponto Tech. Inclusive já saiu um primeiro episódio, onde eu volto a ser o host, para falar sobre isso: sobre o dev do futuro, quem é essa pessoa profissional que desenvolve, cria, constrói software. O software perecível, mas também o software perpétuo que a gente já conhece. Estou muito contente e agradecido também ao André David por ter tocado o podcast durante essa minha transição, e aos meus co-hosts.

Eu tenho muitas novidades. Primeiro que eu também voltei a programar. Com toda essa transformação que a inteligência artificial e os agentes trouxeram, eu consigo colocar em prática, tirar do papel muitas das ideias e desenvolver software que antes levaria tempo, por mais óbvio que fosse. Um desses exemplos é a newsletter do Hipsters Builders. É esse nome que eu estou dando para esse e-mail semanal, que eu escrevo baseado num episódio do Hipsters e também nas notícias que estou lendo, nos tweets que estou comentando e nas conversas que estou tendo com a liderança da Alura, do Grupo Alun, da StartSe, da PM3, da FIAP, e também com vocês, com o feedback que recebo do meu blog, do LinkedIn e das minhas redes.

Como eu já bloguei a respeito, é um momento de agitação pura. A gente fica ansioso com esse excesso de informação. Saber tratar curadoria de conteúdo, de aulas, de estudo e especialmente de notícias e dados, essa avalanche que você recebe no seu feed, seja ele qual for, é bastante complexo. Nessa newsletter eu estou usando a abordagem que descrevi da minha própria newsletter pessoal: essa mistura de conteúdo próprio, os textos que eu escrevo, o que eu converso no podcast, e de comentários que o nosso bot vai adicionar para complementar e costurar com o que está acontecendo dentro do universo da Alura, dentro do Hipsters Network, para que fique ainda mais completo. Vou até deixar aqui alguns exemplos de links, tweets e histórias que essa minha volta ao Hipsters está trazendo, e como isso pode ajudar você e criar uma conversa. Com essa newsletter e com mecanismos de comentários, vai ficar mais interessante ainda esse ambiente.

Eu também vou documentar bastante como estou criando esses pequenos softwares, que arquitetura estou usando e os bugs e problemas que a inteligência artificial está gerando. E ainda vou continuar a minha presença no Alura Cases, que vai ter nova temporada, assim como o Like a Boss, que já tem todo um line-up de pessoas, C-level, fundadores que querem gravar com a gente esse podcast de empreendedorismo.

Fica o meu agradecimento ao Vini Neves, que está pegando esse espaço de co-host, meu primeiro co-host. E obviamente fico sempre na torcida para a Roberta Arcoverde, o Mário Souto e o Maurício Linhares poderem ter um tempinho, como estão tendo, para aparecer no podcast. Vamos formando um time incrível para conversar de tecnologia, de programação, de inteligência artificial e de construção de software.

#podcast #hipsters #carreira #pessoal
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Sun Microsystems, NVIDIA e produtos que se encaixaram depois

Quando eu dava aula de Java básico, na primeira aula eu gostava de gastar um pouco de tempo explicando o motivo da existência do Java. Eu contava toda a história do James Gosling e do grupo que saiu para fazer um retiro da Sun. Eles queriam voltar de lá com uma grande ideia. Eu romantizava um pouco e certamente contava uma história diferente do que ela realmente foi.

Mas é interessante ver que, quando eles voltam com a ideia dessa linguagem que ia se chamar Oak e acabou sendo Java, eles estavam vendo o crescimento da quantidade de aparelhos eletrônicos e a necessidade desses aparelhos terem software. O videocassete, a televisão, o liquidificador. Antes era tudo linguagem de máquina, e essa linguagem de máquina dependia do processador e do eletrônico. Talvez fizesse sentido ter uma linguagem de programação para dispositivos diferentes, devices. Em 1992, 93, isso era bastante audacioso. E mais ainda: para ter uma linguagem que fosse entendida em todos eles, eles pensavam em criar realmente um hardware, uma placa, um circuito, sei lá eu, que simplesmente todos esses aparelhos precisariam ter, inclusive videogames, e pagariam royalties para a Sun Microsystems. Enfim, não deu certo, não era o timing. E essa questão de timing, de ideia, é algo muito relevante no mundo do empreendedorismo, não só de tecnologia.

É interessante ver que essa ideia do Java ficou um pouquinho engavetada e logo saiu com a ideia de ser aplicada na web. Porque a web tinha esse problema naquele comecinho, e sempre teve: são milhares de navegadores diferentes. Na época era o Spry Mosaic, cheguei a instalar esse negócio, rodando em Linux, no Solaris da Sun, em Windows, em Unix. Seria complicado dar o poder de rodar código dentro do navegador, sendo que o que está embaixo, para entender o código, variava muito, tanto de hardware quanto de sistema operacional. Então eles olharam aquela ideia da linguagem de programação para dispositivos e falaram: poxa, acho que dá para encaixar aqui.

É daí que nascem os applets, que muita gente nem sabe o que é, não viveu isso. O navegador era muito fraco na capacidade de executar código. Era realmente só HTML, não havia dinamismo nenhum. Hoje em dia tem todo um mecanismo profundo do JavaScript, sem contar o próprio CSS que evoluiu junto com o HTML, além de milhares de outras possibilidades. O applet deu essa capacidade do Java surgir.

Mas olha só: ninguém mais conhece Java por causa de applet. Acabou que o Java começou a ser muito usado do lado do servidor, tanto que tinha o TheServerSide, um site que falava muito de Java, com esse nome bonito. Por quê? Porque também tinha esse problema grande: as grandes empresas tinham mainframes, computadores gigantes, alguns tinham Windows, outros Linux, computadores mais simples, commodity. Era um problema escrever em C para aquela máquina um serviço que vai ser consumido lá na ponta pela web. O Java foi aplicado em um lugar completamente diferente. Olha que interessante: a concepção é para rodar em diversos dispositivos elétricos, ele é lançado por causa da web, dos applets, mas realmente vinga por causa do server side.

Esse é um fenômeno de diversas empresas que nascem com um produto e ele acaba sendo um sucesso em outro lugar, às vezes depois de muito tempo. Tem diversos casos. A NVIDIA, que eu lembro da época da 3dfx, das placas Voodoo, foi totalmente focada nos videogames. A GPU foi ter esse estouro primeiro para ciência de dados e depois para inteligência artificial. A NVIDIA, que já era uma empresa grande por causa de videogames e gráficos, surfou e foi aplicada em uma coisa que eles nem imaginavam que houvesse esse fit de mercado.

#tecnologia #coding #carreira
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Instagram, foco e descoberta de conteúdo

No mundo tech, cada pessoa costuma ter o seu próprio vício em um mecanismo de tela, um feed de notícias ou um sistema de rede social que está constantemente te bombardeando com estímulos e pedindo sua atenção. Bem, isso não é novidade nenhuma e as críticas abundam. Um movimento mais recente é a proibição do uso do celular nas escolas, capitaneado por vários países simultaneamente. Existem iniciativas na Austrália e inclusive no Brasil que mostram a preocupação que todos temos em relação a isso.

O meu caso particular era o Instagram, mas também já foi o Twitter, que eu voltei recentemente. Para alguns, eu entendo que seja o LinkedIn. Os algoritmos de feed estão toda hora buscando a forma de deixar a gente mais atento, seja através de gatos fofinhos ou mesmo de violência, raiva, consternação ou um sentimento de que a gente precisa corrigir a opinião daquela outra pessoa. Ou mesmo o fear of missing out das várias viagens que a gente está fazendo.

Eu fico bem impressionado de perceber que, a partir do momento que eu comecei a usar o Instagram apenas via web, onde a UX não é tão viciante e simples quanto no smartphone, especialmente porque o doom scrolling não acontece da mesma forma, depois de uns 20 dias a minha cabeça começou a se ordenar melhor. Fiquei durante um tempo tentando encontrar o motivo.

Eu acredito que o problema não é necessariamente redes sociais ou tela, porque a minha geração cresceu muito na tela, no videogame, na televisão e no computador programando, e não gerava esses problemas de tensão e ansiedade como hoje acontece. Eu acredito que o volume de informação, de conteúdo novo para ser explorado e de estímulos é certamente a pior parte.

Vou dar um exemplo: quando eu comecei a ver que eu estava usando o Instagram para entender mais de meditação, vi que a contradição estava explícita. E eu sei que todo mundo tem a frase “mas também tem coisa boa nesta ou naquela rede social”. É verdade, e é isso que dificulta o nosso processo de diminuir o uso ou de sair. É claro, ninguém vai voltar para como era na década de 90, mas algo precisa acontecer. Eu considero que cada pessoa precisa tentar enxergar qual é a sua vulnerabilidade maior em alguns desses sistemas, programas e redes sociais.

Eu verdadeiramente acredito que num futuro próximo, em apenas uma geração, pode ocorrer aquele fenômeno de nossos filhos e filhas falarem: “ah, meu pai é da época, poxa, ele usava rede social a qualquer hora do dia”. Da mesma forma como atualmente a gente fala: “ah, os nossos pais fumavam três carteiras de cigarro por dia, nossa, que absurdo”. Hoje em dia a nicotina é uma substância que não tem uso mínimo aceito como não nocivo. Eu não diria que as telas estão no mesmo patamar, mas talvez alguns mecanismos algorítmicos estejam, e já há governos, instituições de estudo e think tanks pensando dessa forma.

Eu volto a dizer que acredito que esse mundo agêntico de LLMs, de robôs que cruzam informações e buscam dados em diversos lugares fora dos jardins murados, possa ser uma possibilidade para a gente ter um espaço melhor, com menos estímulos, onde a gente vai visitar um único site com um único objetivo e um único tipo de informação para consumir ali. Eu fico pensando inclusive em criar um site sobre parada de mão, que é o esporte que eu pratico há quase 10 anos. Não quero criar uma página em uma rede social onde ela vai ficar isolada, misturada com um monte de outras informações, onde alguém vai cair ali por acaso, no meio de outras buscas. Eu quero que a gente possa voltar a ter esse controle de intenção e de pensamento mínimo, para que essa atenção não seja desviada a cada 5 segundos, que nem os peixes beta. Não era essa a piada antiga?

Fico pensando que é o mesmo quando a gente trabalha em educação. Nas páginas que a gente tem da faculdade e dos cursos da Alura, a informação está toda consolidada lá. Às vezes a gente fica tentando recortar isso para o modelo do Instagram ou de outra rede social, e nunca funciona tão bem. Além de que a atenção nesses ambientes estará completamente disrupta por mil outros estímulos, muito mais agressivos do que aquele conteúdo que você propõe.

#redes-sociais #comportamento #tecnologia
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Like a Boss 2022

Uma temporada do podcast do Like a Boss.

Fica aí o agradecimento a cada um de vocês. Aprendi bastante essa semana.

#pessoal #instagram
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Um pouco da arte paulistana que gosto

Um pouco da arte que gosto. Muita coisa das ruas de Sao Paulo para dentro de casa.

  1. @rahayashi e @enivo

  2. @reveracidade

  3. @ojosblancos1987

  4. @enivo, é um portão de garagem de verdade

  5. @enivo, obra prima do artista em casa, com meus cafés.

  6. Camila

  7. Meu avô Paulo, que nunca conheci, aos 12 anos

  8. @pedroaniceto92

  9. Um artista brasileiro que herdei da minha avó. Ângelo cogliati

  10. Adesivo do mercado livre ué.

Conheço quase todos pessoalmente.

Agradecimentos ao @enivo e @reveracidade e sol da @a7magaleria

#grafite #instagram
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Somando culturas e equipes.

Quem diria que minha jornada profissional até de aquisições eu participaria. Eu sou professor, mas confesso estar feliz nesse papel de empreendedor também. Parabéns a todos os envolvidos. Somos quase 300 pessoas nessa empresa que é uma grande comunidade.

#pessoal #instagram
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Io, ganimedes, jupiter, Calisto e Europa.

Io, ganimedes, jupiter, Calisto e Europa. Não necessariamente nessa ordem. Nikon p900. Foi emocionante. Io foi usada para o primeiro cálculo da velocidade da luz, dada sua revolução de algumas dezenas de horas. Alguém com papel e caneta anotou e percebeu que o tempo para io sumir atrás de júpiter encurtava ou aumentava de acordo com a terra estar indo em direção ou contra júpiter.

#astronomia #instagram
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Jupiter e Saturno

São as minhas duas primeiras fotos dos gigantes. Valeu a caçada noturna. Tô realmente indo dormir com a felicidade de criança.

#astronomia #instagram
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Degustação de chocolate bean to bar brasileiro.

Fui a uma degustação de chocolate bean to bar. Além de excelente, tive a agradável surpresa da @luisaabram (Luisa Abram) me reconhecer e saber até onde eu moro, de tanto chocolate que compro dela online!

Também estava o Bruno da @casa_lasevicius (Casa Lasevicius), @baianichocolates (Baiani) e @mesticochocolates (Mestiço). Só os topzera do bean to bar brasileiro. Muito simpáticos e humildes. Pessoal que está transformando o cacau no Brasil.

#chocolate #instagram
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Handbalance: algo que me pegou

Atualização: um post meio brincadeira que eu fiz, quando estava aprendendo a inverter na parede. Não imaginava que isso se tornaria um objetivo. Equilibrar tudo.

#handbalance #instagram
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Paulo, você é chocólatra?

Acho esquisita essa palavra chocólatra.

Uma seleção de chocolate de origem de diferentes fazendas baianas.

#chocolate #instagram
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JovemNerd e Azaghal com NerdTech

Depois de mais de um ano gravando com eles, foi a primeira vez que encontrei os dois ao vivo. Considero ambos amigos, mesmo que, na vida adulta, é dificil de se manter amizade ainda mais a distância.

Aprendi muito com eles e com o Leo da Radiofobia. Pioneiros no podcast profissional do Brasil. E dedicados. Perseverança.

#pessoal #instagram