Rascunho — este post não está listado publicamente e não é indexado por buscadores.

T-Shaped Developer, Novo Dev e Hipsters.Tech

Voltei a ser o host do Hipsters Ponto Tech. São mais de 500 episódios que me formaram como profissional. Eu me coloco como professor, programador e podcaster. Quando você é misturado assim, é sempre mais difícil se especializar em uma das profissões, mas há um óbvio ganho na amplitude. Desde que voltei a programar, estou com mais repertório para questionar pessoas incríveis que fazem tecnologia no Brasil e no mundo.

E tem esse tema recorrente nas minhas discussões, relacionado ao mundo corporativo moderno e também ao espaço startupeiro: a exigência de flexibilidade e adaptabilidade. Quantas vezes você não ouviu do seu chefe “você está indo bem, mas precisa se adaptar e aprender uma nova habilidade”.

Faz quase dez anos que eu bato na tecla do profissional em T. É um jargão comum para quem está no universo de RH. O conceito começou lá atrás, já no século passado, popularizado por Tim Brown na IDEO: profundidade em uma disciplina, com conhecimento suficiente para colaboração em outras áreas. Na Alura acabamos usando o termo Dev em T como mecanismo de marketing, mas que verdadeiramente representa o que eu acredito. O episódio Hipsters #322 traz bastante sobre o assunto.

Play

O tema ganha tração no mundo da IA. André Fatala me trouxe esse vídeo da Amazon Reinvent de 2025, onde o CTO da Amazon faz importantes analogias.

necessidade. o Drag and Drop is still coding. Eu diria que “Vibe coding is still programming”.

  • curiosidade: o espiríto nerd de desmontar as coisas e tentar entender como funcionam por trás.

  • pensamento sistêmico: Ter uma visão ampla do sistema, entender como as coisas se conectam. Um pensamento mais holístico.

  • comunicação: Saber traduzir tecnologia para o negócio [03:38:17].

  • ownership: “Você constrói, você é o dono”. Esse é um difícil e focado em IA: ser responsável pela qualidade do código gerado [05:55:19].

  • polímata: Expandir o conhecimento para várias áreas. Ok, meio irreal, mas a intenção é importante [01:05:32].

Voce nao é pago para escrever código. Subproduto. Manutenção.

Depois de toda a mudança do agile, dos times multidisciplinares, tornou-se comum você sentar numa mesa junto com colegas de outras especialidades e departamentos. Como cada colaborador desse squad pode ter uma função completamente diferente, é necessário conhecer um pouco do trabalho dos seus colegas. Caso contrário, travamos o fluxo da empresa com aquela frase antiga de que “esse não é o meu trabalho, eu não sou pago para fazer essa parte”. Esses silos isolados se chamavam departamentos e eram separados por paredes, portas e às vezes até chave. O programador nunca podia ter acesso Data Base Administrator, nem chegar perto das máquinas de infraestrutura.

Toda a aceleração social do tempo, toda a exigência de métricas, números e medidas, fez com que essas barreiras fossem destruídas, talvez até rápido demais. Apareceram as tais soft skills, dado que grandes profissionais especialistas não sabiam se comunicar bem com outras pessoas. Às vezes nem mesmo da própria profissão.

Mas o que algumas pessoas esqueceram é que a comunicação faz parte de você entender tecnicamente aquilo que quer comunicar e a realidade da outra pessoa que precisa atingir. E aí a sua necessidade, seja de front-end, seja de DevOps, seja de vendas corporativas ou de analista de recrutamento, bate com a necessidade de entender um pouco mais de tecnologia, um pouco mais de design, um pouco mais do mundo corporativo, um pouco mais de negociação. Esse “um pouco mais” exige estudo e dedicação.

O profissional em T aparece em todas as empresas. Você pode perceber facilmente como hoje, nas reuniões, as pessoas em tecnologia estão mais presentes. É comum pedir para um dev participar de uma reunião com um time de negócios e um cliente. Vinte anos atrás isso era impossível e simplesmente nunca acontecia.

E essa mudança acendeu o debate de generalista e especialista. É óbvio que sempre haverá vagas para pessoas que são só especialistas ou só generalistas. Mas o retrato atual do mundo do trabalho, dessas economias aceleradas, baseadas fortemente em tecnologia, é outro. Exige um pouco de cada e é difícil encontrar esse balanço.

Eu tenho muitas referências que reforçam isso. O professor Silvio Meira, lá em 2020, escreveu um post curto e preciso sobre o “genspecialista”, o profissional que combina amplitude com profundidade. Problemas grandes não são resolvidos por indivíduos, mas por times de genspecialistas.

O CTO da Amazon, Werner Vogels, na sua última keynote no re:Invent 2025, cita nominalmente o T-Shaped Developer e cunha o termo Renaissance Developer:

Werner Vogels no AWS re:Invent 2025, apresentando o conceito de "Renaissance Developer"

“T-shaped developers combine depth with breadth. We can dive deep into a specific product, but will also understand how it fits into a larger system.”

— Werner Vogels, AWS re:Invent 2025

Até o Spotify Design adota o framework T-shaped para contratar designers generalistas que entendem do produto inteiro.

E o Bill Gates, quando leu o livro Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World do David Epstein, escreveu (eu já havia comentado essa conexão na Alura):

Range, de David Epstein

“I believe that one of the key reasons Microsoft took off is because we thought more broadly than other startups of that era. We hired not just brilliant coders but people who had real breadth within their field and across domains.”

— Bill Gates

Mais recentemente, o Martin Fowler publicou um artigo sobre Expert Generalists, onde argumenta que ser generalista é, em si, uma expertise sofisticada. E que essa habilidade ficou ainda mais valiosa com a chegada das LLMs.

Pessoalmente, para minha própria carreira, eu ter tido a capacidade de desenvolver várias frentes me ajudou muito. Minha posição de liderança numa empresa que se tornou grande. Minha capacidade de conversar com pessoas, desenvolvida em podcasts. E a de contar histórias, cultivada desde criança, ouvindo meu pai, jogando RPGs e tudo mais. São habilidades que vêm a somar e depois até, de alguma forma, se profissionalizar.

Confesso que nunca me senti muito especialista no nível Staff Engineer, nem em código, nem em gestão, nem em podcast. E talvez um pouco mais como professor. O que deixa a gente nessa situação: poxa, se eu não vou continuar me especializando nisso aqui, eu vou já para outra carreira, eu vou perder força. É um grande dilema.

Mas o novo dev vai enfrentar isso. Porque você precisa entender um pouco mais do domínio do negócio da sua empresa, agora que linhas de código simples e tarefas pequenas são completamente automatizadas ou geradas. O novo dev precisa encarar que as fronteiras das profissões de tecnologia e negócios estão diminuindo.

Não repare essa confusão mental de nomes, de cargos. Cada dia é um cargo novo. O que será do pessoal de produtos e design, de UX e engenheiros de software e de dados? E a força de vendas, que nome vai ter? Esses nomes mudam o tempo todo, se consolidam ou bifurcam. Mas são movimentos que sempre aconteceram antes. O que há agora é um movimento muito mais acelerado.

Inteligência artificial, os mecanismos de vibe coding, ou seja lá que nome isso vai se tornar, vão aparecer com cada vez mais frequência. No podcast, na minha vida, na Alura e na sua carreira.

Eu estou sempre lendo mais fontes que corroboram para esse momento da economia do trabalho. Se você também quiser compartilhar comigo, vou gostar bastante de entender novas visões do assunto.

Você também pode gostar