Feeds, Brain Fry e Vibe Coding

No mundo tech, cada um costuma ter o seu próprio vício em algum mecanismo de tela, feed de notícias ou rede social. Escolhemos ser constantemente bombardeando com estímulos. Isso não é novidade e as críticas são bem conhecidas e até cansativas.

O meu caso particular era o Instagram, mas também já foi o Twitter (voltei recentemente) e para alguns entendo que seja o LinkedIn. Os algoritmos de feed estão toda hora buscando a forma de nos manter atentos, seja através de gatos fofinhos, violência, raiva, inveja, consternação, ou o famoso sentimento de que precisamos corrigir a opinião de outra pessoa.

XKCD 386, "Duty Calls". "I can't go to bed yet, someone is wrong on the internet."

A partir do momento que comecei a usar apenas Instagram via web, onde a UX não é tão viciante quanto no smartphone, especialmente porque o doom scrolling não acontece da mesma forma, depois de uns 20 dias minha cabeça começou a se ordenar melhor.

O problema não é necessariamente redes sociais ou tela. Minha geração cresceu na tela, no videogame, na televisão e no computador programando, e não gerava esses problemas de ansiedade como hoje. O volume de informação, conteúdo novo para ser explorado e estímulos é certamente a pior parte.

Eu cheguei àquele cúmulo de buscar sobre meditação no Instagram. E, quando quis sair, todo mundo tem a frase “mas também tem coisa boa nesta ou naquela rede social”. É verdade, e é isso que dificulta largar o vício.

Brain Rot e Brain Fry

Redes sociais, Reels e Vibe Coding têm algo em comum. Alguns geram essa nossa experiência de Brain Rot e outros, que em teoria trazem resultados positivos, podem acarretar no novo Brain Fry. O mecanismo de recompensa é acelerado, fazendo com que a gente busque mais um terminal, mais um prompt.

De um lado, rolar um feed de Reels, que sabe exatamente o que te mostrar. Do outro lado, algo que parece produtivo, como usar a IA para criar software. Ambos geram um ciclo tão curto de vitória que a sensação entre Rot e Fry é parecida.

Não estou advogando que vibe coding deva ser evitado. É melhor estar no Codex, Claude, Copilot e afins do que rolando vídeos que confundem e fragmentam interesses.

Yearning vs Craving

O artigo do Tao Bojlén fala sobre isso: a diferença entre yearning (anseio) e craving (desejo compulsivo).

No mundo ideal, o trabalho seria guiado por yearning, um desejo profundo de criar algo útil, bonito e certo, com horizonte de tempo longo (software útil!). Mas o que costuma me dominar é o craving, o desejo pelo próximo bug corrigido, pelo próximo problema resolvido, pela próxima dose de dopamina de uma subtarefa completada (algumas meio inúteis, não?). O craving é imediato, focado em alguma unidade discreta, e nunca satisfeito de verdade.

Programar sempre foi viciante, especialmente quando entramos no tal flow. Mas esse mecanismo agêntico está tornando a dopamina tão disponível que fica perigosamente excitante. Esse ciclo rápido de prompt-resposta com um ajudante ansioso atendendo cada capricho é a raiz do problema. Precisamos de intenção no vibe coding, precisamos pensar e escrever antes de agir.

É necessário manter o “vibing” do lado positivo. Em vez de criar milhares de PRs ruins ou subsistemas que quase ninguém vai usar. É um recado para mim mesmo :).

Redes sociais como cigarro

Num futuro próximo, em apenas uma geração, nossos filhos e filhas vão falar: “meu pai usava rede social a qualquer hora, em qualquer lugar”. Da mesma forma como hoje falamos: “nossos pais fumavam três cartuchos de cigarro por dia”.

Não diria que as telas estão no mesmo patamar, mas talvez alguns mecanismos algorítmicos estejam sim, e já há governos e think tanks planejando. Desde a proibição do uso do celular nas escolas a iniciativas que envolvem banir, corretamente, redes sociais para algumas faixas etárias.

O tal do World Happiness Report 2026 tem um capítulo inteiro com o Jonathan Haidt e argumentando como redes sociais estão prejudicando adolescentes em escala suficiente para causar mudanças populacionais.

Ninguém vai voltar para como era na década de 90, mas algo precisa acontecer.

3 comentários

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LinkedIn @yuri-bueno333 Yuri Bueno 23 mar 2026

Cara, genial o exemplo dos cigarros. Dá um choque de realidade pensar que no futuro isso pode ser visto com o mesmo olhar e talvez já esteja sendo, só que a gente ainda não percebeu totalmente.

LinkedIn @mariana-souza-4aa307a8 Mariana Souza 23 mar 2026

Cara, que post NECESSÁRIO. Ainda mais vindo de alguém como você, que tem mta influência no meio tech. Obrigada por isso!

LinkedIn @danielfilho Daniel Filho 24 mar 2026

Eu tive um caminho muito parecido. Primeiro no twitter e agora no instagram. Eu comecei fazendo uma limpa em quem eu seguia, e quem me seguia. Depois desinstalei o app e fiquei só com a versão web. Agora dei unfollow em 100% dos perfis que eu seguia e só tenho a conta ainda, porque atualmente fotografia é meu hobby.

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